Autarca japonesa divide país ao tirar licença de maternidade

Impacto social e profissional em Shoko Kawata, que enfrenta críticas públicas e pressão cultural por exercer direito legal à maternidade enquanto líder política.
Os sistemas podem ser mudados, mas as pessoas não. Eu não posso tornar-me um homem.
Shoko Kawata respondeu aos críticos que questionavam a sua licença de maternidade enquanto autarca.

Kawata é a autarca mais jovem e primeira mulher a liderar Yawata, provavelmente a única presidente de câmara no Japão a gozar licença de maternidade. A decisão dividiu a cidade: 90 mensagens de apoio contra 70 de oposição, com críticos argumentando que representa má gestão de fundos públicos.

  • Shoko Kawata, 35 anos, autarca mais jovem e primeira mulher a liderar Yawata
  • 16 semanas de licença de maternidade anunciadas em maio, com parto previsto para setembro
  • Cidade de 70 mil habitantes a 450 km de Tóquio
  • 90 mensagens de apoio contra 70 de oposição registadas pela autarquia

Shoko Kawata, autarca de 35 anos em Yawata, Japão, gerou debate nacional ao anunciar licença de maternidade de 16 semanas, desafiando normas culturais sobre líderes políticas e vida pessoal.

Shoko Kawata tem 35 anos e é a autarca mais jovem que o Japão já elegeu. Em 2023, venceu as eleições em Yawata, uma cidade de 70 mil habitantes a mais de 450 quilómetros de Tóquio, conhecida pelos seus templos, plantações de chá e cerejeiras. Sucedeu a um homem de 71 anos. Foi também a primeira mulher a assumir o cargo naquela localidade. Mas em maio deste ano, quando anunciou que iria tirar 16 semanas de licença de maternidade — dois meses antes do parto previsto para meados de setembro e dois meses depois — transformou-se numa figura divisória no país.

A decisão de Kawata é provavelmente única entre os presidentes de câmaras do Japão. Embora a lei preveja licença de maternidade para funcionários públicos, o quadro legal que a garanta especificamente para titulares de cargos políticos permanece nebuloso. Segundo Sawako Shirahase, professora de sociologia na Universidade de Tóquio, a legislação "não pressupõe que autarcas ou chefes de organismos públicos gozem a licença de maternidade", mas "ao mesmo tempo, ninguém pode proibir alguém de o fazer". É, nas suas palavras, uma zona muito cinzenta. Durante a sua ausência, as decisões mais importantes continuarão sob a sua supervisão, mas a gestão diária da cidade ficará a cargo de um assistente que ela própria designou. Kawata planeava acompanhar os e-mails a partir de casa e regressar ao cargo em dezembro.

O anúncio gerou controvérsia imediata nas redes sociais. Críticos argumentaram que a ausência prolongada de uma líder eleita constituía má gestão do dinheiro dos contribuintes. A autarquia contabilizou o impacto: recebeu cerca de 90 mensagens de apoio a Kawata, contra 70 manifestações de oposição. Entre os críticos mais vocais estava Toshio Tamogami, general na reforma e político nacionalista, que manifestou o seu "desconforto" com o facto de uma titular de cargo público gozar uma ausência tão longa. Numa entrevista posterior, defendeu que as mulheres que planeiam ter filhos deveriam evitar candidatar-se a cargos políticos.

Kawata, economista de formação com um percurso ligado às causas sociais, decidiu fundamentar melhor a sua decisão. Numa publicação partilhada no X, explicou que considera essencial aspirar a uma sociedade em que seja possível conciliar os eventos da vida com a carreira, independentemente da posição ou profissão e sem distinção de género. Avançou com a divulgação pública com o intuito de servir de precedente. "Dado que se trata de um caso com poucos precedentes a nível nacional, e com o intuito de contribuir para a criação de uma sociedade em que, no futuro, pessoas em situações semelhantes possam conciliar com tranquilidade a maternidade e a educação dos filhos com o trabalho, não tencionamos proceder a qualquer redução da remuneração", escreveu. Numa conferência de imprensa convocada de urgência, foi ainda mais direta: "Os sistemas podem ser mudados, mas as pessoas não. Eu não posso tornar-me um homem".

Em entrevista ao The Guardian por videochamada, Kawata admitiu a sua surpresa face ao impacto do anúncio. "Não esperava que fosse tão polémico. Ainda existe a ideia de que, no trabalho, as pessoas devem sacrificar as suas vidas pessoais para se dedicarem à carreira", disse. O seu caso emerge num contexto particularmente irónico: o Japão elegeu a sua primeira primeira-ministra no ano passado, mas continua a debater-se com questões fundamentais sobre o lugar das mulheres na liderança política e a compatibilidade entre maternidade e poder público. Kawata foi eleita em 2023 com promessas de combater o despovoamento através de uma agenda focada na expansão dos cuidados médicos infantis e na promoção do turismo. Agora, o seu próprio exercício do direito à maternidade tornou-se o teste de fogo para saber se o Japão está realmente pronto para reimaginar o que significa ser uma mulher no topo.

Não esperava que fosse tão polémico. Ainda existe a ideia de que, no trabalho, as pessoas devem sacrificar as suas vidas pessoais para se dedicarem à carreira.
— Shoko Kawata, em entrevista ao The Guardian
A lei não pressupõe que autarcas ou chefes de organismos públicos gozem a licença de maternidade, mas ninguém pode proibir alguém de o fazer. É uma zona muito cinzenta.
— Sawako Shirahase, professora de sociologia na Universidade de Tóquio
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

O que a surpreendeu mais quando anunciou a licença?

Model

Que se tornasse tão polémico. Esperava alguma discussão, mas não que dividisse tanto a opinião pública.

Inventor

Os críticos dizem que é irresponsável deixar a cidade sem liderança durante quatro meses.

Model

Mas a liderança não desaparece. As decisões importantes continuam sob minha supervisão. É a gestão diária que passa para o assistente. Ninguém questiona quando um homem tira férias.

Inventor

Talvez porque nenhum homem no cargo tenha pedido licença de paternidade antes.

Model

Exatamente. É um precedente. E precedentes só existem quando alguém é corajoso o suficiente para os criar.

Inventor

Recebeu 90 mensagens de apoio e 70 de oposição. Como se sente com isso?

Model

Grata pelas 90. As 70 mostram que ainda há muito trabalho a fazer. Mas a conversa está a acontecer. Isso é progresso.

Inventor

Um general reformado sugeriu que mulheres que querem filhos não devem candidatar-se a cargos políticos.

Model

Isso é dizer que as mulheres devem escolher entre maternidade e poder. Os homens nunca tiveram de fazer essa escolha. Por que deveriam as mulheres?

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