Você entra e fica pequeno. A importância é da natureza.
Três décadas separam a jovem que estreou na televisão brasileira do Pantanal e a atriz que agora retorna ao mesmo universo — não como a filha que foi, mas como a mãe que nunca existiu na história original. Gisela Reimann, que interpretou Érica em 1990, volta ao remake como Ingrid, personagem criado especialmente para esta versão, numa inversão de papéis que condensa em si mesma a passagem do tempo, a transformação do ofício e a permanência de um lugar que ela descreve como quase espiritual. É o raro caso em que uma ficção permite ao artista revisitar, com olhos maduros, o território que o formou.
- Uma atriz que ajudou a construir o mito original de Pantanal é chamada de volta — mas para encarnar uma personagem que sequer existia em 1990, exigindo que ela invente do zero uma mulher austera da elite política.
- A expectativa de gravar no Pantanal, o lugar que a marcou espiritualmente há trinta anos, se desfaz: as cenas de Ingrid acontecerão no Rio de Janeiro, longe da natureza que a transformou.
- O passado ressurge com força — especialmente a cena de nudez com Paulo Gorgulho que a deixou insone na véspera, e que, ao contrário do que o roteiro sugeria, terminou em respeito e serenidade à beira do rio.
- Reimann chega ao remake carregando uma trajetória de escolhas radicais, como raspar a cabeça de verdade para viver uma personagem com câncer em 'Viver a Vida', e agora constrói Ingrid com a autoridade de quem já sabe o preço da entrega.
Gisela Reimann volta ao Pantanal trinta anos depois — mas desta vez como Ingrid, mãe da personagem Érica que ela mesma interpretou em 1990. É uma inversão que ela define como emocionante: de filha para mãe, de jovem modelo recém-chegada da Europa para atriz experiente que escolhe seus papéis. Ingrid não existia na trama original de Benedito Rui Barbosa; é uma criação desta nova versão, uma mulher de político, rica e austera, que Reimann está construindo a partir da observação da elite paulistana.
Há uma frustração prática no retorno: as gravações, previstas para o fim de julho, acontecerão no Rio de Janeiro. Reimann teria preferido o Pantanal — aquele lugar que, segundo ela, tem o poder de fazer qualquer pessoa se sentir pequena diante da natureza. Ela viajou três vezes à região durante a novela original e guarda a experiência como algo quase espiritual.
Daquela primeira temporada, uma cena nunca saiu da memória. Ao ler no roteiro que Érica e Zé Lucas rolariam nus na areia, a atriz entrou em pânico. Não dormiu na véspera. Mas quando chegou o momento, tudo foi diferente: a equipe foi respeitosa, não houve rolagem, e os dois ficaram simplesmente sentados à beira do rio. A exposição, física e emocional, marcou a jovem de 24 anos de um jeito que ela ainda carrega.
Desde então, Reimann acumulou trabalhos que exigiram entrega real — como raspar a cabeça para viver uma personagem com câncer em 'Viver a Vida', quando o público pediu que a participação breve se tornasse longa. Agora, ao retornar ao universo que a lançou, ela traz essa bagagem toda para dar vida a uma mulher que não existia na história original — mas que, pelas mãos de quem um dia foi Érica, começa a existir.
Gisela Reimann está voltando ao Pantanal, mas não exatamente como esperava. Três décadas depois de sua primeira novela — aquela que a lançou aos 24 anos, logo após voltar de anos vivendo na Europa — ela retorna ao universo que a marcou. Desta vez, porém, não como Érica, a jovem jornalista que interpretou em 1990. Agora será Ingrid, a mãe de Érica, um personagem que sequer existia na trama original de Benedito Rui Barbosa. É uma inversão de papéis que ela resume em uma palavra: emocionante.
Ingrid é descrita como uma mulher de político, rica e austera. Para construir o personagem, Reimann está se inspirando na elite paulistana, buscando capturar aquele tipo específico de refinamento e distância emocional. Ela já fez a preparação necessária, testou a caracterização e trabalhou algumas cenas. Mas há uma frustração: as gravações, que devem começar no fim de julho, acontecerão no Rio de Janeiro, não no Pantanal como ela teria gostado.
Aquela primeira experiência em 1990 deixou marcas profundas. Reimann entrou na trama por volta do capítulo 100, quando a novela já era um fenômeno. Ela viajou três vezes ao Pantanal durante as gravações, e a experiência a transformou. "O Pantanal tem uma coisa que encanta de um jeito que não tem explicação. Você entra e fica pequeno. A importância é da natureza", ela recorda. Aquele lugar mágico, como o chama, ficou na memória como algo quase espiritual.
Mas nem tudo foi encantamento. Há uma cena que a atriz nunca esqueceu — aquela em que Érica fica nua com Zé Lucas, vivido por Paulo Gorgulho, à beira do rio. Quando leu no roteiro a descrição "rolando nus na areia", Reimann entrou em pânico. "Não dormi nada na véspera da gravação. Acordei cedo e fiquei esperando para chegar a hora", ela conta. A ansiedade era tanta que a noite anterior foi praticamente insone. Mas quando chegou o momento, tudo foi diferente do que imaginava. "Foi tudo muito respeitoso. Não precisamos rolar e ficamos sentados na beira do rio", ela explica. Aquela experiência de exposição — tanto física quanto emocional — marcou profundamente a jovem atriz.
Desde então, Reimann seguiu carreira na televisão. Fez "Você Decide", "Sonho Meu", "Malhação". Em "Viver a Vida", a novela de 2010 escrita por Manoel Carlos, ela interpretava Marta, uma mulher diagnosticada com câncer agressivo. O que começou como uma participação breve se estendeu porque o público gostou — eram outros tempos, quando a audiência tinha esse poder. Para dar veracidade ao tratamento da doença, Reimann raspou a cabeça de verdade. "As pessoas estranhavam e olhavam muito na rua", ela recorda daquele período.
Agora, aos retornar para o Pantanal, ela traz consigo toda essa bagagem de experiências e reflexões sobre o ofício. Quando soube que a novela teria uma nova versão, quis fazer parte. "Cheguei a dar umas indiretas", brinca. Sua volta marca não apenas um reencontro com um projeto que a definiu profissionalmente, mas também uma transformação: de filha para mãe, de jovem modelo que caiu de paraquedas na televisão para atriz experiente que escolhe seus papéis. O que vem a seguir é a construção de Ingrid, uma mulher que não existia na história original, mas que agora ganha vida através de quem um dia foi Érica.
Citas Notables
Não dormi nada na véspera da gravação. Acordei cedo e fiquei esperando para chegar a hora.— Gisela Reimann, sobre a cena de nudez em Pantanal 1990
Acho que hoje não cabe mais o corpo da mulher como protagonista. O que tem que contar é a essência da cena.— Gisela Reimann, refletindo sobre cenas de nudez na televisão
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como é voltar a um lugar que marcou tanto sua carreira, mas dessa vez em um papel completamente diferente?
É estranho e emocionante ao mesmo tempo. Quando você volta a um projeto que foi tão importante, você não volta a mesma pessoa. Você traz tudo que viveu desde então.
Você mencionou que o Pantanal a deixa pequena. Isso ainda é verdade?
Sim. Aquele lugar tem uma energia que não consigo explicar racionalmente. A natureza ali é tão imensa que você percebe o quanto é insignificante. Acho que isso nunca muda.
A cena de nudez em 1990 parece ter sido traumática. Como você lida com isso agora, com mais experiência?
Não era traumática, era medo do desconhecido. Eu era muito jovem, tinha 24 anos, e aquilo era novo. Hoje entendo melhor que o que importa é a essência da cena, não o corpo exposto.
Você raspou a cabeça de verdade para "Viver a Vida". Isso mostra algo sobre como você trabalha?
Mostra que eu acredito na veracidade. Se você quer contar uma história de verdade, tem que estar disposto a se expor de maneiras diferentes. Mas também aprendi que nem sempre é necessário.
E agora, interpretando a mãe de quem você foi filha — o que isso significa para você?
É como fechar um círculo. Você volta ao mesmo lugar, mas vendo tudo de uma perspectiva completamente diferente. É uma forma de honrar aquele trabalho antigo enquanto cria algo novo.