Deixa de ser falha individual e passa a ser condição médica
Num país onde a obesidade ainda carrega o peso do estigma moral, figuras como Tom Brady, Serena Williams e Simone Biles escolheram associar seus nomes aos medicamentos à base de GLP-1 — e essa escolha reverbera muito além do marketing. Desde 2024, o uso dessas substâncias mais que dobrou nos Estados Unidos, impulsionado em parte pela visibilidade que ídolos do esporte conferem a tratamentos antes restritos ao silêncio dos consultórios. A questão que emerge não é apenas médica, mas cultural: quando a excelência atlética empresta sua autoridade moral a uma pílula, o que se transforma é a própria maneira como uma sociedade entende o sofrimento e a cura.
- Tom Brady, Serena Williams e Simone Biles firmaram parcerias com empresas de GLP-1, levando o debate sobre obesidade e diabetes tipo 2 das clínicas para as redes sociais e mesas de jantar.
- O uso de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Zepbound mais que dobrou nos EUA desde o início de 2024, revelando uma aceleração sem precedentes na adoção desses tratamentos.
- Médicos veem na presença de celebridades esportivas uma chance real de desestigmatizar a obesidade como condição médica — e não como fracasso pessoal de quem não soube 'se controlar'.
- Profissionais de saúde alertam, porém, que a imagem de campeões olímpicos associada a 'canetas emagrecedoras' pode criar a ilusão de que esses medicamentos potencializam o desempenho atlético ou oferecem transformação corporal rápida.
- O desafio central agora é preservar os ganhos legítimos da desestigmatização sem deixar que a influência dos ídolos alimente expectativas clínicas distorcidas e perigosas.
Quando Tom Brady aceitou o cargo de diretor de bem-estar na plataforma eMed, ele se tornou parte de um movimento mais amplo: atletas de elite emprestando sua credibilidade aos medicamentos à base de GLP-1. Serena Williams fechou parceria com a empresa de telemedicina Ro, e Simone Biles assinou acordo com a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, após sua mãe iniciar tratamento para diabetes tipo 2. Não são escolhas aleatórias — são rostos que moldaram gerações e que agora associam sua autoridade moral a tratamentos que migraram de curiosidade médica para fenômeno cultural.
Os números confirmam o impacto. Desde o início de 2024, o número de americanos usando esses medicamentos mais que dobrou. Essa expansão não foi acidental: a visibilidade conferida por atletas de grande alcance midiático transformou conversas antes restritas a consultórios em tópicos de debate público.
Para parte dos profissionais de saúde, isso representa um avanço genuíno. A médica Shiara Ortiz-Pujols, do Hospital Universitário de Staten Island, argumenta que quando ídolos do esporte abraçam esses tratamentos, a mensagem que chega ao público muda de tom — deixa de ser sobre falha pessoal e passa a reconhecer a obesidade como condição médica que merece cuidado. Essa desestigmatização, segundo ela, é uma mudança fundamental.
Mas há um risco real na outra face dessa moeda. A associação entre campeões olímpicos e 'canetas emagrecedoras' pode alimentar expectativas distorcidas: a ideia de que os GLP-1 oferecem benefícios esportivos, ou que funcionam como atalho para transformação corporal em pessoas saudáveis. Nenhuma dessas interpretações corresponde à realidade clínica. O desafio que se impõe agora é manter os benefícios da desestigmatização enquanto se protege contra as ilusões que a influência dos ídolos pode, sem querer, promover.
Quando Tom Brady aceitou o cargo de diretor de bem-estar na plataforma de saúde digital eMed, ele se juntou a um movimento crescente de atletas de elite que estão emprestando seus nomes e reputações a medicamentos à base de GLP-1 — as chamadas "canetas emagrecedoras" que explodiram em popularidade nos Estados Unidos. Não é apenas Brady. Serena Williams fechou parceria com a Ro, uma empresa de telemedicina, enquanto Simone Biles assinou acordo com a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, após sua mãe iniciar tratamento para diabetes tipo 2. Esses nomes não são escolhas aleatórias; são rostos que moldaram gerações de fãs, atletas que conquistaram títulos mundiais e que agora estão associando sua credibilidade a um tratamento que mudou de status de curiosidade médica para fenômeno cultural.
Os números revelam por que essas parcerias importam tanto. Desde o início de 2024, o número de americanos usando medicamentos como Ozempic, Wegovy e Zepbound mais que dobrou. Essa expansão não aconteceu por acaso. A visibilidade que esses atletas de grande alcance midiático conferem aos tratamentos acelerou significativamente a adoção, transformando conversas que antes aconteciam apenas em consultórios em tópicos de discussão pública, em redes sociais, em mesas de jantar.
Para muitos profissionais de saúde, essa mudança representa um progresso importante. A médica Shiara Ortiz-Pujols, diretora de medicina da obesidade no Hospital Universitário de Staten Island, vê na presença de celebridades uma oportunidade de reposicionar a conversa. Quando ídolos do esporte — pessoas associadas à disciplina, ao desempenho, à excelência — abraçam esses medicamentos, a mensagem que chega ao público é diferente. Deixa de ser "você falhou em controlar seu peso" e passa a ser "essa é uma condição médica que merece tratamento". A desestigmatização não é um detalhe menor; é uma mudança fundamental em como a sociedade entende a obesidade.
Mas nem todos veem essa tendência com otimismo. Profissionais de saúde alertam para um risco real: a associação entre atletas de alto desempenho e esses medicamentos pode criar expectativas distorcidas. Quando você vê um campeão olímpico ou uma lenda do futebol promovendo uma "caneta emagrecedora", é fácil imaginar que o medicamento oferece benefícios esportivos ou que representa uma solução rápida e mágica para perda de peso. Essa interpretação não corresponde à realidade clínica. Os GLP-1 foram desenvolvidos para tratar obesidade e diabetes tipo 2 em contextos médicos específicos, não como potencializadores de desempenho atlético.
O que está em jogo é a diferença entre desestigmatização legítima e comercialização enganosa. A presença de celebridades pode ajudar pessoas que sofrem com obesidade a procurar tratamento sem vergonha — isso é valioso. Mas essa mesma presença pode também alimentar a ilusão de que esses medicamentos são atalhos para transformação corporal, que funcionam melhor em corpos já treinados, que são ferramentas de otimização para pessoas saudáveis. Nenhuma dessas coisas é verdadeira. O desafio agora é manter os benefícios da desestigmatização enquanto se protege contra as interpretações equivocadas que a influência de ídolos do esporte pode inadvertidamente promover.
Notable Quotes
Isso muda a percepção de que o uso desses medicamentos é uma falha individual, deslocando a discussão para o campo médico— Dra. Shiara Ortiz-Pujols, Hospital Universitário de Staten Island
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que exatamente esses atletas — Brady, Williams, Biles — escolhem se associar a medicamentos para obesidade e diabetes? Qual é o incentivo?
Há incentivos financeiros, claro, mas também há algo mais. Esses são nomes que construíram carreiras inteiras em torno de desempenho, disciplina, otimização do corpo. Associar-se a um tratamento médico legítimo permite que eles permaneçam relevantes em conversas sobre saúde e bem-estar, mesmo depois de deixarem a competição.
E o público — as pessoas que veem essas parcerias — o que elas entendem?
Aí está o problema. Muitas pessoas veem um atleta campeão promovendo uma "caneta emagrecedora" e pensam: "Se funciona para ele, vai funcionar para mim". Mas o contexto é completamente diferente. O medicamento é indicado para obesidade e diabetes, não para otimização de desempenho em pessoas saudáveis.
Então a desestigmatização — esse benefício que os médicos mencionam — é real ou é apenas uma desculpa para justificar a comercialização?
É real. Quando uma pessoa com obesidade vê um ídolo do esporte falando abertamente sobre tratamento, ela deixa de sentir vergonha de procurar ajuda. Isso salva vidas. O problema é que a mesma influência que desestigmatiza também pode vender ilusões.
Como você diferencia entre uma e outra?
Pela honestidade sobre indicações clínicas. Se o atleta diz "esse medicamento me ajudou a tratar diabetes", é uma coisa. Se a mensagem implícita é "use isso para ficar como eu", é outra completamente diferente. A linha é fina, mas existe.