Ativistas venezianos preparam protesto contra visita do embaixador dos EUA e seu superiate

Uma das poucas ocasiões que ainda pertence ao povo de Veneza
Stella Faye, ativista, sobre o significado da Festa do Redentor para os habitantes locais.

O embaixador Tilman Fertitta chegará a Veneza a 17 de julho a bordo do iate Boardwalk, de 117 metros, avaliado em 450 milhões de dólares. Os ativistas temem que o iate comprometa a Festa do Redentor, uma das celebrações mais importantes da cidade e uma das poucas ocasiões que ainda pertence ao povo veneziano.

  • Embaixador Tilman Fertitta chegará a 17 de julho a bordo do iate Boardwalk, de 117 metros
  • O iate está avaliado em cerca de 450 milhões de dólares
  • A Festa do Redentor é realizada no terceiro fim de semana de julho para assinalar o fim da peste bubónica do século XVI
  • Cerca de 40 ativistas reuniram-se na quinta-feira para planear a contestação

Ativistas venezianos preparam protestos contra a chegada do superiate do embaixador norte-americano durante a Festa do Redentor, repetindo táticas de contestação do casamento de Jeff Bezos.

Veneza prepara-se para receber o embaixador dos Estados Unidos em Itália, Tilman Fertitta, a bordo do seu superiate de 117 metros no dia 17 de julho. A chegada coincide com a Festa do Redentor, uma das celebrações mais importantes da cidade, e já desencadeou planos de protesto entre ativistas locais que prometem repetir as ações que marcaram o casamento de Jeff Bezos no ano anterior.

Numa reunião realizada na quinta-feira com cerca de 40 participantes, a investigadora e ativista Stella Faye convocou a mobilização, afirmando que depois de terem conseguido "estragar a festa" do fundador da Amazon, este ano pretendem "estragar a visita do embaixador". A viagem de Fertitta, designada "Coastal Diplomacy 250", foi criada para assinalar os laços entre Roma e Washington e o 250.º aniversário da independência dos Estados Unidos, incluindo várias cidades ao longo da costa italiana.

O iate em questão, o Boardwalk, é uma embarcação de luxo com 32 metros de altura, distribuindo-se por seis conveses, equipada com dois heliportos e duas piscinas, avaliada em cerca de 450 milhões de dólares. Os ativistas receiam que a sua presença no centro histórico de Veneza durante a Festa do Redentor comprometa uma das poucas ocasiões que ainda pertence genuinamente ao povo veneziano. A festa, realizada no terceiro fim de semana de julho para assinalar o fim da epidemia de peste bubónica do século XVI, é marcada pela instalação de uma ponte flutuante temporária que permite aos habitantes atravessar a pé até à igreja do Redentor na ilha da Giudecca, culminando com um espetáculo de fogo de artifício que atrai milhares de pessoas.

Os locais mais centrais para a atracação de uma embarcação desta dimensão situam-se junto à Punta della Dogana, em frente à igreja do Redentor, ou na Riva dei Sette Martiri, um dos pontos mais procurados pelos venezianos para assistir ao espetáculo. Durante o encontro dos ativistas, uma das sugestões que gerou gargalhadas foi a de "trazer de volta os crocodilos", numa alusão à ameaça feita no ano passado de colocar crocodilos insufláveis nos canais da cidade durante o casamento de Bezos — uma iniciativa que contribuiu para que a receção mudasse de local à última hora.

Além das preocupações sobre o impacto visual e logístico, os organizadores do protesto manifestaram inquietações relacionadas com a segurança. Argumentam que as forças policiais poderão estar mais concentradas na proteção do embaixador e na gestão da circulação marítima em torno do iate do que no normal funcionamento da festa. Vários participantes na reunião voltaram a defender a ideia de que Veneza tem sido progressivamente transformada num cenário que pode ser temporariamente apropriado por celebridades, empresários ou políticos com grande poder económico, uma tendência que os ativistas pretendem contestar com a mesma determinação que demonstraram no ano anterior.

Depois de terem estragado a festa do fundador da Amazon, este ano querem estragar a visita do embaixador
— Stella Faye, investigadora e ativista
É uma das poucas ocasiões que ainda pertence ao povo de Veneza
— Stella Faye, ao The Guardian
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Inventor

Porque é que o iate de um embaixador causa tanta preocupação numa cidade que já recebe turistas e visitantes de alto perfil constantemente?

Model

Porque a Festa do Redentor é diferente. Não é um evento para turistas — é um momento em que Veneza pertence aos venezianos. Uma ponte flutuante, celebrações religiosas, fogo de artifício. É uma das poucas ocasiões que ainda é deles.

Inventor

E o iate especificamente — qual é o problema além do tamanho?

Model

O tamanho é precisamente o problema. 117 metros, 450 milhões de dólares. Se atracar nos locais mais centrais, bloqueia as vistas, domina o espaço, transforma a festa numa celebração que acontece à volta de um símbolo de riqueza extrema.

Inventor

Os ativistas mencionaram crocodilos insufláveis. Isso parece uma brincadeira.

Model

Começou como brincadeira, mas funcionou. No ano passado, a ameaça de colocar crocodilos nos canais foi suficiente para que o casamento de Bezos mudasse de local. Os ativistas aprenderam que o absurdo, quando é coletivo, tem poder.

Inventor

Qual é a preocupação com a polícia?

Model

Se os recursos policiais estão focados em proteger o embaixador e em gerir o tráfego marítimo à volta do iate, há menos gente disponível para garantir que a festa funciona normalmente para os habitantes. A segurança do evento fica comprometida.

Inventor

Isto é sobre o iate ou sobre algo mais profundo?

Model

É sobre o iate, mas o iate é apenas o símbolo. É sobre Veneza estar a transformar-se num cenário alugável para pessoas ricas. Cada vez que um superiate atraca, cada vez que uma celebridade escolhe a cidade para um evento, Veneza deixa de ser um lugar e passa a ser um pano de fundo.

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