Governos começam e acabam — o que importa é a relação harmoniosa
Investimentos chineses confirmados caíram 74% em 2020 para US$ 1,9 bilhão, mas queda reflete esfriamento global (-35%) mais que atritos políticos bilaterais. Governo brasileiro reativou mecanismos de diálogo com China (Cosban) e criou 'Núcleo China' no Ministério da Agricultura, sinalizando apoio a novos aportes chineses.
- Investimentos chineses confirmados caíram 74% em 2020 para US$ 1,9 bilhão
- Entre 2007 e 2020, empresas chinesas efetivaram 176 empreendimentos no Brasil com aportes de US$ 66,1 bilhões
- Brasil recebeu 47% dos investimentos chineses na América do Sul até 2020
- Governo reativou Cosban e criou 'Núcleo China' no Ministério da Agricultura em 2020
- 34,5 mil empregos foram criados por novos projetos chineses entre 2003 e 2020
Apesar de críticas repetidas de Bolsonaro à China, investimentos chineses no Brasil mantêm continuidade estratégica de longo prazo, com ações governamentais indicando mais pragmatismo que ruptura bilateral.
O presidente Jair Bolsonaro não poupou críticas à China durante sua campanha e seu governo. Visitou Taiwan em fevereiro de 2019, um gesto que irritou Pequim. Seu filho Eduardo publicou mensagens contra a espionagem chinesa em tecnologia 5G. Em maio de 2021, o próprio presidente insinuou que a pandemia de coronavírus seria parte de uma "guerra biológica" chinesa. A embaixada chinesa respondeu com avisos sobre "consequências negativas" para a parceria bilateral. Apesar dessa retórica inflamada, porém, os investimentos chineses no Brasil não apenas continuaram — continuam seguindo uma estratégia de longo prazo que transcende as mudanças políticas de curto prazo.
Um novo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) documenta essa desconexão entre o discurso presidencial e a realidade econômica. O documento, intitulado "Investimentos chineses no Brasil: histórico, tendências e desafios globais (2007-2020)", é o mais abrangente já realizado sobre o tema. Segundo Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do CEBC e autor do relatório, a explicação é simples: "Os investimentos chineses no Brasil são de longo prazo e isso é o que orienta a estratégia da China. Governos começam e acabam — o que importa é a relação harmoniosa entre os dois países, que já vem de muito tempo e historicamente sem atritos." A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil em 2009, superando os Estados Unidos, e essa posição não foi abalada pelas declarações de Bolsonaro.
O relatório aponta uma diferença crucial entre o que Bolsonaro e seus aliados dizem e o que o governo brasileiro faz. Cinco meses após tomar posse, o vice-presidente Hamilton Mourão viajou a Pequim para participar da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), o principal mecanismo de diálogo bilateral. Esse gesto reativou as atividades da Cosban, que não se reunia desde 2015. A questão dos investimentos foi um dos pontos centrais da agenda, com indicações claras de que o governo brasileiro apoiava a entrada de novos aportes chineses. Além disso, no ano passado, o Ministério da Agricultura criou um "Núcleo China", uma unidade especial dedicada às relações com o gigante asiático, principal destino das exportações brasileiras do agronegócio. A ministra Tereza Cristina contratou Larissa Wachholz, ex-diretora de consultoria de investimentos com mestrado em Estudos Contemporâneos da China, fluente em mandarim e com cinco anos de experiência morando em Pequim, para chefiar a unidade.
Os números de investimento confirmado caíram drasticamente em 2020 — 74%, chegando a apenas US$ 1,9 bilhão, o menor valor desde 2014. O número de projetos caiu para oito, uma redução de 68% em relação a 2019. Mas o relatório oferece contexto importante: essa queda reflete muito mais um esfriamento global dos fluxos de investimento estrangeiro, que caíram 35% em 2020, do que atritos políticos bilaterais. No Brasil, os aportes estrangeiros em geral caíram 61,5%, tendência similar ao declive de 50% apontado pelo Banco Central. Outros importantes receptores de investimento chinês passaram por situações semelhantes: a União Europeia e Reino Unido registraram queda de 43%, e a Austrália, de 39%.
A Austrália oferece um contraste instrutivo. É o maior parceiro comercial da China e uma das principais fontes de recursos para Pequim, mas as relações entre os dois países se deterioraram desde 2018 e chegaram a novo ponto baixo quando o governo australiano pediu uma investigação independente sobre a origem do coronavírus. A China suspendeu acordos econômicos com a Austrália, a denunciou à Organização Mundial do Comércio por concorrência desleal, e militares australianos insinuaram guerra. No Brasil, diferentemente, há uma dissonância entre a retórica de Bolsonaro e a prática governamental — uma diferença que a China parece estar disposta a tolerar, ao menos por enquanto.
Entre 2007 e 2020, empresas chinesas efetivaram 176 empreendimentos no Brasil, com aportes que somaram US$ 66,1 bilhões. Houve ainda 64 projetos não concretizados, com valor estimado em US$ 44,5 bilhões. O Brasil recebeu 47% dos investimentos chineses na América do Sul. Quarenta e oito por cento do valor dos investimentos confirmados foram direcionados ao setor de energia elétrica, onde gigantes estatais como State Grid e China Three Gorges têm presença marcante. State Grid e China Three Gorges têm a maioria de seus ativos no exterior localizados no Brasil, com fatias de 48% e 60%, respectivamente. Os investimentos se espalharam por todas as regiões do país: há projetos confirmados em 23 das 27 unidades federativas, com São Paulo liderando com 31% do número de projetos, seguido por Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Goiás e Pará. Estima-se que 34,5 mil empregos foram criados entre 2003 e 2020 por novos projetos chineses, enquanto aquisições de ativos existentes mantiveram 140,4 mil postos de trabalho.
O relatório aponta para oportunidades futuras. O setor de eletricidade, onde as empresas chinesas já estão bem estabelecidas, continuará sendo um importante eixo de atuação. As áreas portuária, de transporte e logística, nas quais há projetos em andamento, poderiam ser mais bem exploradas com novos investimentos. Há também oportunidades em tecnologia da informação — inteligência artificial, economia digital, internet das coisas, redes 5G, cidades inteligentes — áreas onde a entrada de investimentos chineses no Brasil ainda é recente e restrita, mas oferece grande potencial. O documento conclui que "apesar de eventuais altos e baixos em termos numéricos, os investimentos chineses no Brasil têm muito a oferecer a qualquer projeto de desenvolvimento nacional." A questão não é se a China continuará investindo no Brasil, mas em quais setores e com qual intensidade — e isso dependerá menos das declarações de Bolsonaro do que da capacidade do país em oferecer oportunidades rentáveis de longo prazo.
Citações Notáveis
Os investimentos chineses no Brasil são de longo prazo e isso é o que orienta a estratégia da China. Governos começam e acabam — o que importa é a relação harmoniosa entre os dois países.— Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do CEBC
Esse tombo pode ser interpretado mais como um esfriamento dos fluxos de investimentos globais no exterior, que caíram 35% em 2020, do que por atritos políticos bilaterais.— Relatório do CEBC
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Bolsonaro pode criticar a China tão abertamente sem que isso afete os investimentos?
Porque a China separa a política de curto prazo da estratégia econômica de longo prazo. Para Pequim, governos são transitórios. O que importa é a relação estrutural entre os países.
Mas a Austrália também é um parceiro importante, e a China puniu severamente. O que é diferente no Brasil?
No Brasil há uma dissonância entre o discurso de Bolsonaro e as ações do governo. O vice foi a Pequim, reativaram a Cosban, criaram um núcleo especial na Agricultura. A China vê pragmatismo, não ruptura.
Os números de investimento caíram 74% em 2020. Isso não é um sinal de que algo está errado?
Não necessariamente. Os investimentos globais caíram 35% naquele ano. No Brasil, todos os aportes estrangeiros caíram 61,5%. É uma tendência mundial, não um problema bilateral.
Então a China vai continuar investindo no Brasil indefinidamente?
Enquanto o Brasil oferecer oportunidades rentáveis, sim. Energia, portos, logística, tecnologia — há muito espaço. A China tem experiência em infraestrutura que o Brasil precisa.
E se Bolsonaro intensificar as críticas? Há um limite?
Sim, há um limite. A China tolerou Taiwan, 5G, até insinuações sobre guerra biológica. Mas se o Brasil começar a agir como a Austrália — investigações, alianças contra a China — aí sim haveria consequências.
Qual é o interesse real da China em investir no Brasil?
Matérias-primas, energia, acesso a mercados. O Brasil é uma porta de entrada para a América do Sul. E a China já tem 66 bilhões investidos aqui — não vai abandonar isso por causa de tweets.