Faz mais falta um psicólogo do que polícia
Irmandade interrompe distribuição de refeições em outubro devido a ameaças e insultos contra voluntários na Casa dos Manaias. Associações com mais experiência (Amor Azul e Igreja Viva) negam clima de insegurança; grupos mais recentes (Romeiros e Projeto Zero) reportam episódios violentos e solicitaram segurança policial.
- Irmandade do Santo Cristo dos Milagres interrompe distribuição de refeições em outubro
- Amor Azul distribui há 18 anos; apenas meia dúzia de episódios em dez anos na Casa dos Manaias
- Grupo de Romeiros e Projeto Zero Desperdício solicitaram segurança policial após episódios violentos
- Drogas sintéticas agravaram situações de descontrolo entre pessoas sem-abrigo
Após Irmandade do Santo Cristo dos Milagres suspender voluntariado na Casa dos Manaias por ameaças, outras associações dividem-se: duas relatam insegurança e solicitaram proteção; duas afirmam não ter problemas significativos.
A Irmandade do Santo Cristo dos Milagres tomou uma decisão que reverbera pela rede de solidariedade de Ponta Delgada: a partir de outubro, deixará de distribuir refeições na Casa dos Manaias. Os voluntários da instituição têm sido alvo de ameaças e insultos, e a organização considera que o ambiente tornou-se insustentável. A notícia, porém, não encontra consenso entre as quatro associações que continuam a prestar este serviço essencial às pessoas em situação de sem-abrigo.
A Amor Azul e a Igreja Viva Conquistadores para Cristo, as duas organizações com mais anos de experiência no local, veem a situação de forma radicalmente diferente. Filipe Cordeiro, da Amor Azul, refere que há dezoito anos distribuem refeições na rua e dez anos na Casa dos Manaias. Nesse período, contabiliza apenas meia dúzia de episódios, todos controlados, sem ameaças diretas. A chave, explica, é simples: estabeleceu-se um princípio entre voluntários e utentes — respeita-se e exige-se respeito. Carlos Cabral, responsável pela Igreja Viva Conquistadores para Cristo, que distribui refeições às terças-feiras desde 2020, vai mais longe. Afirma não sentir qualquer clima de insegurança e nunca ter tido um único problema em cinco anos. Quando presenciou um desacato há um ano — uma discussão entre duas pessoas alcoolizadas que quase chegou às vias de facto — a polícia estava presente, mas foram os próprios voluntários que resolveram a situação, separando os dois homens sem-abrigo. Os agentes da PSP, conta, agradeceram-lhes no final.
Para Cabral, o problema não é segurança policial, mas sim recursos humanos de outra natureza. "Faz mais falta um psicólogo", diz. O que as pessoas precisam é de conversa, paciência, cuidado — não de polícias a chegar e entregar comida. Filipe Cordeiro concorda, lembrando que se está a lidar com cidadãos e cidadãs com dependências de álcool e drogas, que por vezes chegam em estados descontrolados.
Mas o Grupo de Romeiros de São Miguel e o Projeto Zero Desperdício (gerido pela Associação Seniores de São Miguel) vivem uma realidade distinta. João Leite, dos romeiros, relata que em pouco mais de um ano de trabalho já enfrentaram duas ou três situações desagradáveis. Alguns sem-abrigo tornaram-se violentos com os voluntários, e a situação agravou-se com a prevalência crescente de drogas sintéticas. "São seres humanos, mas que muitas vezes estão descompensados", explica. Perdem a noção da realidade. Por isso, o grupo solicitou presença da PSP, e a Câmara Municipal acedeu — há seis meses têm segurança no local. Leonor Anahory, da Associação Seniores de São Miguel, confirma que quando começaram a colaborar na Casa dos Manaias tiveram pequenos problemas e desacatos, mas foram resolvidos após contacto com a autarquia.
Leite reconhece, porém, que à medida que ganham confiança, conseguem resolver questões. Havia um utente extremamente agressivo que agora o aborda como irmão. Também ajustaram a estratégia: antes iam com três pessoas, agora vão com mais. E há um aspecto positivo: o trabalho na Casa dos Manaias despertou interesse entre vários ranchos que gostariam de participar. Para Leite, o essencial é não abandonar as pessoas. O que falta é coordenação e a presença de um agente municipal, PSP ou segurança — alguém que garanta continuidade.
Quando o Açoriano Oriental esteve no local, perto das sete da noite, várias dezenas de pessoas em situação de sem-abrigo entraram na Casa dos Manaias para serem alimentadas. Não houve desacatos. Não havia agentes da Polícia Municipal presentes. A questão que fica em suspenso é se a segurança é necessária porque o ambiente é realmente perigoso, ou se a perceção de perigo varia conforme a experiência, a paciência e a capacidade de cada organização de estabelecer relações de confiança com quem procura aquele serviço.
Citações Notáveis
Respeitamos e exigimos respeito — esse é o princípio que estabelecemos— Filipe Cordeiro, Amor Azul
Faz mais falta um psicólogo. Não é preciso polícias. Temos de ter cuidado, paciência e conversar com eles— Carlos Cabral, Igreja Viva Conquistadores para Cristo
O que falta aqui é mais coordenação e a necessidade de um agente municipal, PSP ou segurança— João Leite, Grupo de Romeiros de São Miguel
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que é que duas associações com mais tempo de experiência não sentem insegurança, enquanto as mais recentes pedem proteção policial?
Porque conhecer as pessoas muda tudo. A Amor Azul e a Igreja Viva têm uma relação estabelecida, sabem como comunicar, estabeleceram regras claras. As associações mais novas ainda estão a aprender a lidar com situações de descontrolo, especialmente com as drogas sintéticas que desorientam completamente as pessoas.
Então a solução é mais tempo e paciência, não polícia?
Não é tão simples. As associações mais recentes também tiveram episódios violentos reais. Mas sim, há uma diferença entre ter segurança porque se precisa e ter segurança porque ainda não se sabe como gerir a situação. O que falta é coordenação — alguém que ajude todas as organizações a trabalhar da mesma forma.
E as drogas sintéticas? Isso é um fator novo?
Completamente. As pessoas perdem a noção da realidade. Não é só álcool — é algo muito mais desestabilizador. Isso mudou o ambiente na Casa dos Manaias nos últimos anos.
A Irmandade do Santo Cristo está certa em sair?
Depende. Se os voluntários estão a ser ameaçados, é compreensível. Mas também significa que a rede de solidariedade fica mais frágil. Há pessoas que dependem daquele serviço.
O que é que realmente falta?
Um agente municipal permanente, alguém que coordene todas as associações, que conheça as pessoas, que seja presença constante. Não é polícia — é alguém que garanta que ninguém é abandonado.