ANF alerta para aumento de hesitação vacinal, especialmente em jovens contra covid-19

Os algoritmos afunilam completamente o pensamento
Ema Paulino explica como as redes sociais reforçam crenças existentes em vez de as questionar.

Em Lisboa, durante as comemorações dos 60 anos do Programa Nacional de Vacinação, a Associação Nacional de Farmácias revelou uma erosão silenciosa na confiança coletiva: cerca de 1.500 pessoas deixaram de se vacinar desde 2023, e a recusa da vacina contra a covid-19 duplicou entre os mais jovens. Num tempo em que as doenças erradicadas já não habitam a memória viva das gerações mais novas, o vazio de experiência é preenchido por algoritmos que amplificam o medo e a dúvida. A questão que se coloca não é apenas sanitária, mas profundamente humana: como se transmite a sabedoria preventiva a quem nunca conheceu o perigo que ela evita?

  • A recusa vacinal contra a covid-19 duplicou nas faixas etárias mais jovens, sinalizando uma rutura geracional com décadas de progresso em saúde pública.
  • As redes sociais funcionam como câmaras de eco que reforçam a desinformação, tornando cada vez mais difícil distinguir evidência científica de narrativa falsa.
  • Os pais de hoje nunca viram sarampo nem poliomielite, e essa ausência de memória coletiva deixa-os desarmados perante conteúdos alarmistas online.
  • Portugal mantém ainda uma taxa de adesão vacinal considerada boa, mas profissionais de saúde alertam que essa posição pode deteriorar-se rapidamente se a tendência não for invertida.
  • Associações como a ANF e a RESPIRA apostam na educação sanitária e no reforço da formação dos profissionais de saúde como resposta estrutural à hesitação crescente.

Durante a cerimónia dos 60 anos do Programa Nacional de Vacinação, realizada na Fundação Champalimaud em Lisboa, a presidente da Associação Nacional de Farmácias, Ema Paulino, apresentou dados que revelam uma tendência preocupante: desde 2023, cerca de 1.500 pessoas deixaram de aderir à vacinação. A recusa é particularmente acentuada em relação à covid-19 entre os mais jovens, onde duplicou, enquanto a hesitação face à gripe se mantém relativamente estável, em torno dos 10%.

Paulino apontou as redes sociais e os motores de busca como principais responsáveis, explicando que os algoritmos reforçam as crenças existentes e criam comunidades fechadas onde a desinformação circula sem contestação. A enfermeira especialista Lurdes Costa e Silva acrescentou uma dimensão geracional ao problema: os pais atuais nunca testemunharam as doenças que as vacinas previnem, o que os torna mais vulneráveis a narrativas falsas. Num país com um dos programas de vacinação mais completos da Europa, essa complexidade pode gerar confusão e seletividade.

José Albino, da associação de doentes RESPIRA, defendeu que a população adulta deveria estar mais e melhor vacinada, reconhecendo que a boa taxa de adesão atual pode ainda melhorar se o trabalho educativo for reforçado. O consenso entre os especialistas presentes foi claro: combater a desinformação e investir na educação sanitária são condições essenciais para preservar décadas de conquistas em saúde pública.

A Associação Nacional de Farmácias soou o alarme esta semana sobre uma tendência preocupante: cada vez mais pessoas, especialmente os mais jovens, estão a recusar vacinas. Ema Paulino, presidente da ANF, apresentou os números durante a cerimónia dos 60 anos do Programa Nacional de Vacinação, que decorreu na Fundação Champalimaud em Lisboa. Desde 2023, a associação tem registado uma queda de aproximadamente 1.500 pessoas na adesão vacinal, com particular ênfase nas recusas contra a gripe e a covid-19.

A situação da gripe mantém-se relativamente controlada. A recusa vacinal contra esta doença permanece estável em torno dos 10%, apesar do aumento geral da hesitação. Paulino sublinhou que existe ainda uma aceitação significativa da vacina da gripe, e que muitos dos hesitantes podem ser influenciados através de esclarecimento de dúvidas e de oportunidades educativas. O cenário muda dramaticamente quando se fala de covid-19 nas faixas etárias mais jovens: a recusa duplicou. Este é um padrão que os profissionais de saúde precisam de compreender e para o qual devem estar preparados, alertou a presidente da ANF.

A Direção-Geral da Saúde e as associações têm produzido materiais informativos adaptados aos diferentes públicos, mas o desafio persiste. Paulino identificou um culpado central: as redes sociais e os motores de busca. Explicou que os algoritmos funcionam como filtros que reforçam as crenças existentes. Quem acredita que a Terra é plana encontrará facilmente comunidades online que partilham essa convicção, criando câmaras de eco que estreitam o pensamento crítico.

Na mesa-redonda sobre confiança, mitos e perceções da população face à vacinação, Lurdes Costa e Silva, enfermeira especialista na Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental, reforçou que as redes sociais disseminam tanto informação como desinformação em quantidades iguais. Sublinhou um problema geracional: os pais atuais não têm memória viva das doenças que as vacinas previnem. Nunca viram sarampo, nunca testemunharam poliomielite. Esta ausência de experiência direta torna-os vulneráveis a narrativas falsas online. Os profissionais de saúde, por isso, precisam de estar cada vez mais bem fundamentados para contrariar a desinformação.

Costa e Silva referiu ainda uma realidade multicultural: muitas pessoas não apenas hesitam em vacinar-se, como recusam especificamente certas vacinas. Portugal possui um dos programas nacionais de vacinação mais completos da Europa e do mundo, mas essa complexidade pode gerar confusão e seletividade entre a população. José Albino, presidente da Associação de Doentes RESPIRA, alertou especificamente para a necessidade de melhorar a vacinação em adultos. Defendeu que a população adulta deveria estar "mais e melhor vacinada" e que o combate à desinformação é essencial. Apesar do aumento da hesitação, Portugal mantém uma taxa de incidência "bastante boa", mas essa posição pode deteriorar-se se a adesão vacinal continuar a cair. Albino acrescentou que a RESPIRA trabalha para contrariar a fadiga vacinal através de melhor informação dos seus agentes, reconhecendo que a boa taxa de adesão atual pode evoluir positivamente nos adultos se o trabalho educativo for reforçado.

Estas gerações de pais não têm memória da doença, não viram sarampo, não viram poliomielite
— Lurdes Costa e Silva, enfermeira especialista da ULS Lisboa Ocidental
Temos de estar preparados para atuar em conformidade com esta realidade de aumento de recusa
— Ema Paulino, presidente da ANF
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O que explica este aumento tão acentuado na recusa da covid-19 especificamente em jovens?

Model

Há vários fatores em jogo. Os jovens cresceram com redes sociais como fonte principal de informação, e essas plataformas amplificam narrativas que confirmam o que já acreditamos. Se alguém tem dúvidas sobre uma vacina, encontrará facilmente conteúdo que valida essas dúvidas.

Inventor

Mas a gripe mantém-se estável nos 10%. Por que é que a covid-19 é diferente?

Model

A covid-19 foi mais politizada, mais debatida, mais contestada publicamente. A gripe é conhecida há décadas, aceita como rotina. A covid-19 ainda é recente, ainda gera desconfiança, especialmente em quem não viveu a doença de forma grave.

Inventor

Ema Paulino fala em "pedagogia". O que significa isso no contexto das farmácias?

Model

Significa que os farmacêuticos podem ser educadores. Quando alguém chega hesitante, em vez de apenas oferecer a vacina, explicam por que é importante, respondem a dúvidas, constroem confiança. É um trabalho de proximidade.

Inventor

E quanto aos pais que nunca viram sarampo ou poliomielite? Como se convence alguém que nunca testemunhou o perigo?

Model

Esse é o desafio real. Sem memória da doença, o risco parece abstrato. Os profissionais de saúde precisam de contar histórias, de contextualizar, de mostrar dados de outros países onde a vacinação caiu e as doenças ressurgiram.

Inventor

Portugal tem um programa de vacinação dos mais completos do mundo. Isso não deveria ser suficiente para gerar confiança?

Model

Deveria, mas a complexidade pode confundir. Quando há muitas opções, muitas vacinas, muitas recomendações, algumas pessoas sentem-se sobrecarregadas e optam por não fazer nada. A qualidade do programa não garante a adesão.

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