Confiança é fácil de perder e muito difícil de recuperar
Em 2020, o Ibovespa revelou não apenas as feridas abertas pela pandemia, mas também as fraturas internas de empresas que já carregavam fragilidades antes da crise. Das dez ações mais desvalorizadas do índice, a maioria foi derrubada pela combinação de choques externos e falhas de governança — um espelho do que acontece quando a confiança do mercado se rompe. O IRB Brasil, com queda de 77%, tornou-se o símbolo mais eloquente dessa dupla vulnerabilidade: uma empresa que não resistiu ao peso de suas próprias contradições.
- O IRB Brasil entrou em colapso após executivos afirmarem falsamente que a Berkshire Hathaway havia investido na empresa — a desmentida pública de Warren Buffett desencadeou vendas em cascata e a demissão da cúpula.
- Setores inteiros foram varridos pela pandemia: aviação, turismo, educação e varejo físico viram receitas desabar enquanto o mundo fechava portas e cancelava planos.
- A Cogna perdeu 59% sem apresentar um plano de reestruturação convincente, enquanto a CVC viu suas reservas caírem quase 70% — empresas que já se recuperavam de crises anteriores foram derrubadas novamente.
- A Cielo e a BRF ilustraram outro tipo de derrota: não a da pandemia, mas a da inércia — uma perdeu mercado para concorrentes mais ágeis, a outra carregava desconfiança acumulada desde escândalos de governança.
- Analistas apontam que a recuperação será desigual: empresas com gestão sólida e transparência sairão na frente, enquanto as que acumularam problemas estruturais enfrentarão um caminho significativamente mais longo.
O ano de 2020 foi implacável com os investidores do Ibovespa, e as dez ações mais desvalorizadas contam uma história que vai além da pandemia. A queda mais dramática pertenceu ao IRB Brasil Resseguros, que despencou 77% após uma sequência de revelações devastadoras. Tudo começou quando a gestora Squadra questionou publicamente a rentabilidade extraordinária que o IRB apresentava — números difíceis de acreditar em um setor tão competitivo. O golpe final veio quando a Berkshire Hathaway desmentiu publicamente que havia investido na empresa, contradizendo declarações dos próprios executivos do IRB. O presidente e o diretor financeiro pediram demissão. O mercado respondeu com vendas em cascata, punindo a falta de transparência.
A Cogna, segunda pior queda com 59%, sofreu o impacto direto da pandemia sobre o setor de educação: alunos abandonaram as salas presenciais, o governo cortou recursos do Fies e a inadimplência disparou. Mas a ausência de um plano de reestruturação convincente agravou a desconfiança dos investidores. No setor aéreo e de turismo, a destruição foi ainda mais visível: Embraer, Azul, Gol e CVC figuraram entre as piores, com a operadora de turismo vendo sua receita líquida cair mais de 75% nos primeiros nove meses do ano.
O varejo físico sangrou enquanto o comércio eletrônico prosperava. A Hering viu suas vendas caírem mais de 42%, carregando o peso de uma reestruturação anterior que não convenceu. A BR Malls sofreu por ter maior exposição às classes C e D, mais vulneráveis ao desemprego, e por índices de rentabilidade inferiores aos dos concorrentes. A Cielo pagou o preço de ter reagido tarde à guerra de preços no mercado de adquirência, perdendo margem e participação para novos competidores antes mesmo de a pandemia reduzir o volume de transações.
A BRF encerrou a lista como um caso à parte: enquanto outras empresas do setor de proteína animal surfavam a alta das exportações para a China, ela ficou de fora. Custos de ração subiram, a demanda por aves perdeu espaço para a carne vermelha, e o mercado ainda desconfiava da governança da empresa, marcada pelas cicatrizes da fusão entre Perdigão e Sadia e pelos escândalos da operação da carne fraca. O ano deixou uma lição clara: a pandemia foi cruel, mas as empresas que chegaram a ela com fragilidades internas pagaram um preço ainda mais alto.
O ano de 2020 foi brutal para os investidores do Ibovespa. Das dez ações que mais desvalorizaram, a maioria carregava as marcas visíveis da pandemia de covid-19 — fechamentos de lojas, cancelamento de voos, redução de alunos. Mas a queda mais acentuada veio de um lugar diferente: uma empresa que se destruiu de dentro para fora.
O IRB Brasil Resseguros, que oferece seguros para seguradoras, despencou 77% em 2020. O colapso começou quando a gestora Squadra questionou publicamente a rentabilidade excepcional que o IRB apresentava em seus balanços. No setor de resseguros, era difícil acreditar que uma empresa pudesse render muito mais do que seus concorrentes. Depois vieram as manchetes: a Berkshire Hathaway, o fundo de Warren Buffett, teria aumentado sua posição na empresa. A informação saiu da boca dos próprios executivos do IRB em uma reunião fechada com analistas. Mas então a Berkshire desmentiu tudo em uma nota pública, afirmando que nunca havia sido acionista do IRB e não tinha intenção de sê-lo. O presidente e o diretor financeiro pediram demissão. A cada novo capítulo, o preço da ação caía mais. Paloma Brum, economista da Toro Investimentos, resumiu o problema: o IRB não havia sido transparente o suficiente. As contradições geraram desconfiança, e o mercado respondeu com vendas em cascata.
A segunda pior performance veio da Cogna, empresa de educação, que perdeu 59%. A pandemia atingiu o setor em cheio — alunos deixaram as salas de aula presencial, o governo cortou recursos do Fies, e a inadimplência disparou. Mas havia algo mais: a gestão não apresentava um plano de reestruturação que convencesse os investidores. Pedro Serra, gerente de análise da Ativa Investimentos, chamou a Cogna de "patinho feio do setor". Ele acreditava que a recuperação viria, mas seria lenta e gradual.
O setor aéreo e de turismo levou pancadas ainda mais duras. A Embraer, terceira pior queda com 55%, sofreu com a redução de entregas de aviões executivos e comerciais conforme os voos desapareceram do planeta. A Azul e a Gol apareceram entre as dez piores, prejudicadas pela queda na demanda por passagens e pelo medo dos passageiros de se infectarem. A CVC, operadora de turismo, viu suas reservas confirmadas caírem quase 70% nos primeiros nove meses do ano e a receita líquida despencar mais de 75%. A empresa já vinha se recuperando da crise econômica de 2015 e da falência da Avianca quando a pandemia a derrubou novamente.
O varejo físico sofreu enquanto o comércio eletrônico prosperava. A Hering, quinta pior queda, viu sua receita de vendas cair mais de 42% nos primeiros nove meses. A empresa já havia tentado uma reestruturação que não funcionou e anunciou outra, mas o mercado permanecia cético. A BR Malls, administradora de shoppings, ficou com a sétima pior performance. Diferentemente de seus concorrentes, tinha maior exposição aos consumidores de classe C e D, mais vulneráveis ao desemprego e à queda de renda. Além disso, seus índices de rentabilidade eram inferiores aos dos pares do setor.
A Cielo, quarta pior queda, operava em um mercado de adquirência que havia se tornado um campo de guerra por preços. Antes liderava tranquilamente, mas novos competidores mudaram o jogo. As margens encolheram, a participação de mercado caiu, e os custos comerciais subiram. Controlada pelo Bradesco e Banco do Brasil, a empresa respondeu tarde demais às agressões dos concorrentes. Quando a pandemia chegou, o volume de transações econômicas desabou, e as receitas caíram no segundo trimestre.
A BRF, oitava pior queda, foi um caso curioso. 2020 foi um ano de alta nas exportações de proteína animal para a China e crescimento no consumo interno de alimentos preparados em casa. Outras empresas do setor surfaram essa onda e ficaram entre as melhores do ano. A BRF perdeu a carona. Os preços dos grãos subiram, aumentando os custos de ração, e o consumo de carne vermelha cresceu, desviando demanda das aves. Mas havia um problema maior: o mercado não confiava na governança corporativa da empresa. Ela carregava cicatrizes da fusão entre Perdigão e Sadia, e havia sido alvo da operação da carne fraca, acusada de fraudar laudos sanitários.
O ano deixou claro que a pandemia não foi o único vilão. Empresas com gestão fraca, falta de transparência e problemas estruturais de governança sofreram quedas ainda mais severas. A recuperação, segundo os analistas, seria desigual: as que conseguissem restaurar a confiança e apresentar planos sólidos sairiam na frente. As outras enfrentariam um caminho muito mais longo.
Citas Notables
O IRB não foi transparente o suficiente ao tratar a divulgação das informações de forma clara, contribuindo com as contradições que geraram desconfiança dos investidores— Paloma Brum, economista da Toro Investimentos
A Cogna ficou sendo o patinho feio do setor, mas a situação da empresa deve melhorar aos poucos e no longo prazo— Pedro Serra, gerente de análise da Ativa Investimentos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o IRB caiu tanto mais do que as outras, se a pandemia afetou quase todo mundo?
O IRB não caiu por causa da pandemia. Caiu porque destruiu sua própria credibilidade. Começou com números que pareciam bons demais para ser verdade, depois veio a história falsa sobre a Berkshire, e quando tudo desabou, os executivos pediram demissão. Os investidores não sabem mais em quem confiar.
Então gestão ruim pode ser pior do que uma crise econômica?
Pode ser, sim. A Cogna e a Hering também tiveram problemas de gestão, mas pelo menos estavam tentando se reorganizar. O IRB não. E quando você perde a confiança dos investidores, fica muito mais difícil se recuperar.
A BRF é interessante — o setor inteiro estava indo bem, mas ela caiu. O que aconteceu?
Ela tinha problemas antigos que ninguém esquecia. A fusão entre Perdigão e Sadia deixou cicatrizes, e depois veio aquela operação da carne fraca, acusações de fraude. Mesmo quando o mercado oferecia uma oportunidade de ouro, os investidores não confiavam o suficiente para comprar.
Os analistas acham que essas empresas vão se recuperar?
Alguns vão, outros não. A Cogna e a Hering podem melhorar com o tempo, conforme a economia se normaliza. Mas o IRB? Aquele vai levar muito mais tempo para restaurar a confiança. Confiança é fácil de perder e muito difícil de recuperar.
E as companhias aéreas? Elas caíram porque ninguém viajava, certo?
Exatamente. Mas a diferença é que quando as pessoas voltarem a viajar, a demanda volta. É um problema temporário. Para o IRB, para a Cogna, para a BRF — os problemas são estruturais. Não desaparecem quando a pandemia acaba.