Se há decisão do tribunal supremo, eu sou contra
Em pouco mais de duas décadas, a Suprema Corte dos Estados Unidos viu sua aprovação ser cortada ao meio — de 52% para 22% — enquanto a desconfiança triplicou entre o eleitorado americano. O fenômeno acompanha a polarização ideológica que fragmentou o país, alimentada por decisões históricas sobre aborto, eleições e imunidade presidencial que satisfizeram um lado e indignaram o outro. A instituição ainda supera o Congresso em legitimidade percebida, mas esse consolo revela mais sobre o estado geral da democracia americana do que sobre a saúde da própria corte. A legitimidade, uma vez erodida, raramente se reconstrói sozinha.
- A confiança na Suprema Corte despencou de 52% para 22% em 25 anos, enquanto a desconfiança saltou de 13% para 38% — uma inversão que sinaliza ruptura profunda entre a instituição e o eleitorado.
- Decisões como a que garantiu a vitória de Bush em 2000, a derrubada de Roe v. Wade em 2022 e a concessão de imunidade a Trump em 2024 funcionaram como marcos de alienação para metades opostas do país.
- A composição conservadora da corte — seis ministros indicados por republicanos contra três por democratas — tornou suas decisões previsíveis para muitos cidadãos, corroendo a percepção de imparcialidade.
- O presidente John Roberts reconheceu o problema publicamente, mas a legitimidade institucional não se recupera por declarações: ela depende de uma confiança coletiva que leva gerações para se construir e pode se perder em anos.
- Mesmo em colapso relativo, a Suprema Corte ainda é menos impopular que o Congresso, com 80% de desconfiança — um retrato que diz tanto sobre a crise das instituições quanto sobre a resistência da corte.
A confiança dos americanos na Suprema Corte caiu pela metade em pouco mais de duas décadas. Em 2000, 52% dos eleitores diziam confiar na instituição; em 2026, apenas 22% mantêm essa percepção. No mesmo período, a desconfiança triplicou, passando de 13% para 38%. Os dados, colhidos pela NBC News em pesquisa com mil eleitores registrados, traçam uma linha quase contínua de erosão.
O quadro, porém, ganha perspectiva quando comparado a outras instituições. O Congresso americano enfrenta 80% de desconfiança — uma cifra que torna a situação da corte quase invejável. No Brasil, o padrão se repete: o STF tem 15% de confiança muito ou bastante, enquanto o Congresso despenca para 10%. Em ambos os países, o Judiciário é a menos impopular das três instituições — o que não é exatamente um elogio.
As decisões que moldaram essa queda são conhecidas. Em 2000, a corte interrompeu a recontagem de votos na Flórida, garantindo a vitória de Bush sobre Gore. Em 2022, derrubou Roe v. Wade, eliminando o direito ao aborto garantido por quase 50 anos — e o índice de confiança dos democratas despencou de 44% para 11%, enquanto o dos republicanos subiu de 23% para 44%. Em 2023 e 2024, a corte reverteu a inelegibilidade de Trump e concedeu imunidade a ex-presidentes por atos cometidos no cargo. Cada decisão satisfez um lado e aprofundou a desconfiança do outro.
Os pesquisadores que conduziram a pesquisa observam que, no passado, eleitores de qualquer partido tendiam a respeitar decisões da corte mesmo quando discordavam delas. Esse respeito desapareceu. O presidente John Roberts reconheceu o problema em 2022, argumentando que discordância não é base para questionar a legitimidade da instituição. Mas legitimidade não se recupera por declarações — ela depende de uma confiança coletiva que leva gerações para se construir. A Suprema Corte segue funcionando, mas cada vez mais como um poder contestado, não como uma instituição que transcende a política.
A confiança dos americanos na Suprema Corte desabou pela metade em pouco mais de duas décadas. Em 2000, quando a NBC News começou a medir esse índice, 52% dos eleitores expressavam confiança na instituição. Hoje, em 2026, apenas 22% dizem o mesmo. No mesmo período, a desconfiança triplicou: saiu de 13% para 38%. Os números revelam uma instituição que perdeu legitimidade de forma consistente e dramática, acompanhando a polarização política que tomou conta do país.
O fenômeno não é novo nem exclusivamente americano. Quanto mais dividido fica um país ao longo de linhas ideológicas, mais as pessoas tendem a desconfiar das instituições que não favorecem seu lado. O que mudou foi a velocidade e a profundidade dessa erosão. A pesquisa da NBC, realizada entre 27 de fevereiro e 3 de março deste ano com mil eleitores registrados, mostra que o número de pessoas com "muita ou bastante" confiança caiu de forma quase linear ao longo das duas décadas, enquanto aqueles com "pouca ou nenhuma" confiança cresceu de forma correspondente. A margem de erro é de mais ou menos 3,1 pontos percentuais.
Mas o quadro fica menos sombrio quando a Suprema Corte é comparada com outras instituições. O Congresso americano enfrenta uma desconfiança de 80% — uma cifra que torna a situação da corte quase invejável. A Presidência, com 34% de confiança muito ou bastante, também fica acima da Suprema Corte. No Brasil, o padrão é semelhante: o Supremo Tribunal Federal tem 15% de confiança muito ou bastante, enquanto o Congresso despenca para 10%, com 81% de desconfiança. A instituição judiciária, em ambos os países, é a menos impopular entre os três poderes — o que não é exatamente um elogio.
O que explica essa queda persistente? Pesquisadores apontam para as decisões controversas que a corte foi obrigada a tomar, cada uma delas alienando uma fatia significativa do eleitorado. Em 2000, logo após a primeira pesquisa da NBC, a Suprema Corte impediu a recontagem de votos em distritos da Flórida, revertendo uma decisão do tribunal estadual e garantindo a vitória de George Bush sobre Al Gore. Democratas nunca esqueceram. Em 2022, a maioria conservadora derrubou Roe v. Wade, eliminando o direito ao aborto que havia sido garantido nacionalmente por quase 50 anos. Republicanos celebraram; democratas ficaram furiosos. O índice de confiança dos democratas caiu de 44% em 2015 para apenas 11% em 2022, enquanto o dos republicanos subiu de 23% para 44%.
A composição da corte — seis ministros indicados por presidentes republicanos contra três indicados por democratas — significa que decisões favoráveis ao mundo republicano tendem a ser mais frequentes. Em 2023, a corte reverteu uma decisão do Colorado que havia considerado Donald Trump inelegível sob a cláusula insurrecionista da 14ª Emenda, em referência à invasão do Congresso em 6 de janeiro de 2021. No ano seguinte, a corte decidiu que ex-presidentes têm imunidade contra ações penais por atos cometidos durante seus mandatos — uma decisão que livrou Trump de acusações criminais sérias, incluindo interferência nas eleições de 2020. Cada uma dessas decisões aprofundou a divisão entre os dois lados.
Os pesquisadores Jeff Horwitt, democrata da Hart Research Associates, e Bill McInturff, republicano da Public Opinion Strategies, que conduziram a pesquisa conjuntamente, observam que antigamente eleitores de qualquer partido tendiam a respeitar decisões da Suprema Corte mesmo quando discordavam delas. Esse respeito desapareceu. Hoje, qualquer decisão de repercussão política desagrada a uma metade do país ou à outra. É como se o pensamento "se há decisão do tribunal supremo, eu sou contra" vagasse pela consciência coletiva.
O presidente da corte, ministro John Roberts, está ciente do problema. Em 2022, ele reconheceu que é normal as pessoas discordarem de decisões da corte, mas acrescentou que discordância não é base para questionar sua legitimidade. O desafio é que legitimidade institucional não é algo que se recupera facilmente uma vez perdido. Quedas permanentes na confiança pública trazem seus próprios problemas, mesmo para uma instituição cujos membros têm cargos vitalícios e teoricamente não precisam se preocupar com opinião pública. A corte segue funcionando, mas funciona cada vez mais como um poder contestado, não como uma instituição que transcende a política.
Citações Notáveis
É normal que as pessoas discordem de decisões da Suprema Corte, mas discordância não é base para questionar sua legitimidade— Ministro John Roberts, presidente da Suprema Corte
Antigamente, eleitores de qualquer partido tendiam a respeitar decisões da Suprema Corte, mesmo que não gostassem delas— Jeff Horwitt e Bill McInturff, pesquisadores que conduziram o estudo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a Suprema Corte perdeu tanta confiança enquanto outras instituições também caem? O que a torna especial nessa queda?
Porque a corte é obrigada a decidir questões que dividem o país profundamente — aborto, eleições, direitos. Não há como agradar a todos. Cada decisão importante cria um grupo de perdedores que sente que a corte os traiu.
Mas o Congresso tem 80% de desconfiança. Como a corte está em melhor situação?
Porque o Congresso é visto como corrupto e ineficaz. A corte é vista como politizada. Um é incompetência; o outro é traição. As pessoas ainda esperam que a corte seja imparcial, então quando ela não é, o golpe é maior.
A composição 6-3 conservadora importa realmente? Ou seria assim de qualquer forma?
Importa muito. Se a corte fosse equilibrada, as decisões seriam mais próximas, e ninguém sentiria que um lado está ganhando sistematicamente. A maioria conservadora significa que democratas perdem mais vezes, e isso corrói sua confiança.
Roberts disse que discordância não questiona legitimidade. Ele está certo?
Tecnicamente, sim. Mas legitimidade não é uma questão técnica. Se metade do país acha que a corte é politizada, ela é politizada, independentemente do que Roberts diga. A percepção é a realidade institucional.
Isso pode ser revertido?
Talvez, mas levaria tempo e decisões que pareçam imparciais — o que é quase impossível quando as questões são tão polarizadas. A corte está presa em um ciclo: quanto mais polarizado o país, mais as decisões parecem políticas, e mais a confiança cai.