Pela primeira vez em dezoito meses, é possível vislumbrar o fim
Dois anos depois de dois acidentes fatais que ceifaram centenas de vidas e paralisaram cerca de 800 aeronaves ao redor do mundo, o Boeing 737 MAX se aproxima de um retorno cauteloso aos céus. Autoridades regulatórias nos Estados Unidos e na Europa concluem seus processos de certificação, sinalizando que a aeronave pode voltar ao serviço comercial antes do fim de 2020. O desafio que se impõe, porém, vai além da engenharia e da burocracia: trata-se de reconquistar a confiança de passageiros que carregam, com razão, a memória das tragédias.
- Dois acidentes em menos de seis meses — Lion Air e Ethiopian Airlines — mataram centenas de pessoas e desencadearam a maior crise da Boeing em mais de um século.
- Cerca de 800 aeronaves do modelo permanecem imobilizadas globalmente desde março de 2019, enquanto a Boeing acumulou outros 400 aviões fabricados durante a paralisação aguardando entrega.
- O sistema MCAS, identificado como causa central das tragédias, foi reformulado com novo software, sensores adicionais e revisão completa do treinamento de pilotos.
- FAA e Easa sinalizam liberação iminente; American Airlines já vende passagens para voos com o MAX em dezembro, e a Gol estima retomada em até trinta dias após aprovação regulatória.
- Pesquisa revela que 52% dos passageiros prefeririam evitar o modelo se pudessem escolher — a desconfiança do público pode ser o obstáculo mais duradouro de todos.
Dois anos atrás, um Boeing 737 MAX da Lion Air desapareceu no mar de Java. Cinco meses depois, outro do mesmo modelo operado pela Ethiopian Airlines caiu. Os dois acidentes provocaram a maior crise da Boeing em mais de um século e resultaram na paralisação global de toda a frota do 737 MAX.
Agora, em novembro de 2020, a aeronave parece prestes a voar novamente. A FAA concluiu seus testes de certificação, e Patrick Ky, presidente da Easa, declarou que pela primeira vez em dezoito meses era possível vislumbrar o fim do processo de validação. No Brasil, a Anac conduz seu próprio processo, com especialistas que estiveram nos Estados Unidos em setembro para a fase de avaliação operacional, sem previsão definida para retomada.
As companhias aéreas já se antecipam: a American Airlines planeja reintroduzir o MAX em 29 de dezembro na rota Miami-Nova York, a Ryanair espera receber seus primeiros aviões no início de 2021, e a Gol — única operadora brasileira com sete aeronaves do modelo paradas — estima que seu primeiro voo ocorra em até trinta dias após as liberações regulatórias.
O problema central estava no sistema MCAS, que forçava o nariz da aeronave para baixo em momentos críticos do voo. A Boeing reformulou o software, adicionou sensores e revisou o treinamento dos pilotos. A empresa também enfrentou acusações graves: um comitê do Congresso americano afirmou que o avião era "essencialmente falho" e que informações foram ocultadas tanto dos pilotos quanto dos reguladores.
Com as modificações, a Boeing afirma que o 737 MAX se tornou um dos modelos mais seguros do mundo. Mas uma pesquisa com passageiros nos Estados Unidos e na Europa revelou que 52% prefeririam voar em outro modelo se tivessem escolha — um lembrete de que a confiança, uma vez perdida, não se recupera por decreto regulatório.
Dois anos atrás, um Boeing 737 MAX da Lion Air desapareceu nas águas do mar de Java. Cinco meses depois, outro avião do mesmo modelo, operado pela Ethiopian Airlines, caiu. Esses dois acidentes desencadearam a maior crise da Boeing em mais de um século e levaram à paralisação global de toda a frota do 737 MAX.
Agora, em novembro de 2020, o avião pode estar prestes a voar novamente. A FAA, agência reguladora americana, finalizou seus testes de certificação. A Easa, sua contraparte europeia, sinalizou que poderia liberar o modelo ainda antes do fim do ano. Patrick Ky, presidente da Easa, declarou em entrevista coletiva no final de setembro que pela primeira vez em dezoito meses era possível vislumbrar o término do trabalho de validação e o retorno do 737 MAX ao serviço comercial.
No Brasil, a Anac segue seu próprio processo de avaliação. A agência informou que especialistas estiveram nos Estados Unidos em meados de setembro iniciando a fase de avaliação operacional, uma das etapas cruciais para a retomada. Ainda não há previsão definida para quando as operações poderão recomeçar no país.
Companhias aéreas já se movem em antecipação. A American Airlines planeja reintroduzir o 737 MAX em sua malha no dia 29 de dezembro, e já começou a vender passagens para um voo adicional diário na rota Miami-Nova York que seria operado pela aeronave. Na Europa, Eddie Wilson, executivo-chefe da Ryanair, afirmou em outubro que esperava a liberação nos Estados Unidos no mês seguinte, abrindo caminho para que a companhia recebesse seus primeiros aviões no início de 2021. A Gol, única operadora brasileira com 737 MAX em sua frota, mantém sete aeronaves paradas desde março de 2019 e afirma estar confiante na certificação, estimando que seu primeiro avião decole em até trinta dias após as liberações regulatórias.
A escala do impacto é considerável. Aproximadamente 800 aeronaves do modelo estão paradas em todo o mundo. Quando o voo foi proibido em março de 2019, 387 delas já haviam sido entregues às companhias aéreas. A Boeing, porém, continuou a produção durante a paralisação, fabricando cerca de 400 aviões adicionais que aguardam entrega.
O cerne do problema estava no sistema MCAS, responsável por evitar que o avião entrasse em atitude que causasse perda de sustentação. O sistema, porém, forçava o nariz da aeronave para baixo em fases críticas do voo, provocando mergulhos perigosos. A Boeing implementou mudanças significativas no software que controla o MCAS, adicionou novos sensores de segurança e revisou completamente o processo de treinamento dos pilotos. A empresa recomendou inspeção geral dos sensores de ângulo de ataque em todas as aeronaves, pois erros de leitura podem ter contribuído para as falhas.
Durante as investigações, a Boeing enfrentou acusações de ter ocultado falhas de projeto tanto dos pilotos quanto das autoridades regulatórias. Um comitê do Congresso americano afirmou que o avião era "essencialmente falho" e que a Boeing havia cometido erros enquanto escondeu informações, enquanto os órgãos reguladores falharam em sua supervisão. A Boeing respondeu reconhecendo as lições difíceis aprendidas com os acidentes do voo 610 da Lion Air e do voo 302 da Ethiopian Airlines, afirmando que implementou mudanças fundamentais em sua operação.
Com as modificações implementadas, a Boeing sustenta que o 737 MAX se tornou um dos modelos mais seguros do mundo. O verdadeiro desafio, porém, reside em restaurar a confiança dos passageiros. Uma pesquisa da Barclays com 1.765 passageiros nos Estados Unidos e Europa, realizada logo após a proibição de voos, revelou que 52% prefeririam voar em outro modelo de aeronave se tivessem essa opção. Essa resistência dos consumidores pode se mostrar tão significativa quanto qualquer obstáculo técnico ou regulatório.
Citas Notables
Estamos finalizando tudo o que precisa ser concluído e acho que, pela primeira vez em um ano e meio, posso dizer que podemos ver o final do trabalho com o MAX— Patrick Ky, presidente da Easa
A Boeing cometeu erros e escondeu informações sobre o 737 MAX, enquanto os organismos reguladores não conseguiram fazer uma supervisão adequada, levando a uma aeronave essencialmente falha— Comitê do Congresso dos EUA
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que dois acidentes levaram à paralisação global de um modelo inteiro, e não apenas de aviões específicos?
O sistema MCAS era um problema de design que afetava toda a série. Não era um defeito isolado em uma aeronave ou outra — era algo fundamental na forma como o avião foi programado para se comportar.
A Boeing continuou fabricando aviões durante a paralisação. Por quê?
Porque a empresa tinha contratos de entrega com as companhias aéreas. Parar a produção teria significado perdas financeiras enormes. Então acumularam 400 aviões esperando poder entregar quando a liberação chegasse.
O que exatamente mudou no sistema MCAS?
O software foi reescrito para evitar que o piloto tivesse de lutar contra o avião. Adicionaram novos sensores e criaram redundâncias. Basicamente, tornaram o sistema menos agressivo e mais transparente para quem está pilotando.
A pesquisa mostrando que 52% dos passageiros preferem outro modelo — isso é um problema real para o retorno?
É o maior desafio agora. As autoridades podem liberar o avião, as companhias podem colocá-lo em operação, mas se metade dos passageiros tem medo, as vendas de passagens sofrem. É uma questão de percepção tanto quanto de segurança.
A Gol tem sete aviões parados. O que acontece com eles agora?
Assim que a Anac liberar, a Gol estima que seu primeiro 737 MAX decole em até trinta dias. Mas antes disso, todos os pilotos precisam passar por novo treinamento, e os aviões passam por inspeções completas.
Por que a Boeing foi acusada de ocultar informações?
O comitê do Congresso descobriu que a Boeing sabia de problemas no MCAS mas não comunicou adequadamente aos pilotos ou aos reguladores. Isso agravou a crise porque não era apenas um acidente — era um acidente que poderia ter sido evitado com transparência.