A terceira via acabou, não tem essa mais não, vai ser Lula
No início de março de 2022, um escândalo pessoal tornou-se espelho de uma crise coletiva: áudios de Arthur do Val fazendo comentários sexistas sobre mulheres ucranianas não apenas isolaram o deputado de seus aliados, mas precipitaram o reconhecimento, entre os próprios simpatizantes do MBL, de que a terceira via política havia chegado ao fim. O que parecia um tropeço individual revelou a fragilidade de uma estratégia que buscava se posicionar entre Lula e Bolsonaro — e a distância entre os valores proclamados e os praticados por suas figuras de referência.
- Áudios vazados mostram Arthur do Val descrevendo mulheres ucranianas de forma sexista e redutora, contradizendo frontalmente a imagem pública que construiu como defensor de valores liberais.
- A indignação se espalhou para além das redes sociais, atingindo aliados históricos como Sergio Moro e a presidente do Podemos, Renata Abreu, que abriu processo disciplinar contra o deputado.
- Simpatizantes do MBL expressam em áudios privados não apenas nojo pelo comportamento de do Val, mas descrença na autenticidade de toda a sua viagem à Ucrânia, vista como estratégia de crescimento nas redes.
- O episódio funciona como catalisador: apoiadores reconhecem abertamente que a terceira via acabou, que Lula tem chances reais de vitória, e que o momento é de preparação para a oposição futura.
- O isolamento de do Val se aprofunda rapidamente, com condenação praticamente unânime entre aqueles que compartilharam espaço político com ele nos anos anteriores.
No início de março de 2022, áudios vazados de Arthur do Val — o deputado estadual paulista conhecido como Mamãe Falei — provocaram uma ruptura que ia além do escândalo pessoal. Nas gravações, do Val fazia comentários sexistas sobre mulheres ucranianas, afirmando que elas 'são boas porque são pobres' e mencionando planos de retornar ao leste europeu em breve. As declarações circularam rapidamente e atingiram seus próprios aliados políticos.
O que tornava o episódio particularmente revelador era o que ele expunha sobre o estado da terceira via. Em áudios captados pelo Diário do Centro do Mundo, membros da base do MBL chegavam a uma conclusão desanimadora: não havia mais espaço para essa alternativa entre Lula e Bolsonaro. Um deles declarava, com resignação, que Lula venceria e que o melhor a fazer era estudar para criticar seu governo quando chegasse a hora. Os áudios de do Val eram citados como mais um sintoma do colapso da estratégia.
A frustração dos apoiadores não era apenas com o deputado, mas com um padrão que consideravam hipócrita. Questionavam a autenticidade da viagem à Ucrânia — vista como manobra para ganhar seguidores — e contrastavam a postura pública de 'bom moço' com o que as gravações revelavam. O fato de do Val estar acompanhado de Renan, e de ambos estarem em relacionamentos, tornava o comportamento ainda mais difícil de defender.
O isolamento político se aprofundou rapidamente. Renata Abreu, presidente do Podemos, abriu processo disciplinar. Sergio Moro rompeu publicamente com o deputado. Outros nomes históricos do movimento também se manifestaram contrários. O que emergiu foi a imagem de uma coligação política se desintegrando não por pressão externa, mas pelo reconhecimento interno de que suas próprias figuras de referência estavam acelerando o colapso da ilusão que a sustentava.
No início de março de 2022, simpatizantes do Movimento Brasil Livre começaram a se afastar publicamente da estratégia política que os havia unido nos anos anteriores. A ruptura não veio de uma derrota eleitoral ou de uma mudança de princípios ideológicos — veio de áudios vazados de Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, deputado estadual em São Paulo e figura proeminente do movimento.
Os áudios, compartilhados em aplicativos de mensagens, capturavam do Val fazendo comentários sobre mulheres ucranianas que eram simultaneamente redutores e sexistas. Ele afirmava que as ucranianas "são boas porque são pobres" e mencionava planos de retornar em breve ao leste europeu. As declarações circularam rapidamente pelas redes sociais, gerando onda de rejeição que ultrapassou os limites do ativismo digital — atingiu seus próprios aliados políticos.
O que tornava a situação particularmente significativa era o que ela revelava sobre o estado da chamada terceira via, a estratégia política que buscava se posicionar entre Lula e Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022. Em áudios interceptados pelo Diário do Centro do Mundo, membros da base do MBL expressavam uma conclusão desanimadora: a terceira via havia terminado. Um deles declarava, com tom de resignação, que não havia mais espaço para essa alternativa, que Lula venceria, e que o melhor a fazer era estudar e se preparar para criticar seu governo quando chegasse a hora. Citava o crescimento de Ciro Gomes, mencionava um episódio envolvendo Kim Kataguiri em um podcast, e apontava os áudios de Arthur do Val como mais um sintoma do colapso da estratégia.
A reação dos apoiadores revelava frustração não apenas com do Val, mas com um padrão de comportamento que consideravam hipócrita. Um simpatizante expressou nojo pela forma como o deputado se referia às mulheres, contrastando sua postura pública de "bom moço" e defensor de valores liberais com o que via como verdadeiro caráter. Outro questionava a autenticidade da viagem de do Val à Ucrânia, sugerindo que o objetivo real era ganhar seguidores nas redes sociais, não ajudar genuinamente. Essa crítica ganhava peso adicional pelo fato de do Val estar acompanhado de Renan, e de ambos estarem em relacionamentos — um detalhe que os apoiadores viam como tornando o comportamento ainda mais problemático.
O isolamento político de Arthur do Val se aprofundava rapidamente. Renata Abreu, presidente do Podemos — partido pelo qual do Val atuava — abriu um processo disciplinar contra ele. Sergio Moro, ex-juiz que havia sido aliado importante do deputado, rompeu publicamente com ele. Outros nomes históricos do movimento também se manifestaram contrários às declarações. A condenação era praticamente unânime entre aqueles que haviam compartilhado espaço político com ele.
O que emergia desse episódio era uma crise mais profunda do que um simples escândalo pessoal. Os áudios dos apoiadores do MBL sugeriam que a coligação política que havia sustentado a ideia de uma terceira via estava se desintegrando não por pressão externa, mas por reconhecimento interno de que a estratégia havia fracassado. O cenário eleitoral de 2022 estava se cristalizando de forma que deixava pouco espaço para alternativas ao confronto direto entre Lula e Bolsonaro, e figuras como Arthur do Val — que deveriam representar uma nova forma de fazer política — estavam apenas acelerando o colapso dessa ilusão.
Notable Quotes
A terceira via acabou, não tem essa mais não, vai ser Lula e, infelizmente, é essa— Apoiador do MBL em áudio obtido pelo Diário do Centro do Mundo
Sinto nojo de um cara que se refere às mulheres dessa forma. De que adianta vir com papinho de bom moço, de direita liberal e ser um mal caráter?— Simpatizante do MBL em mensagem
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que os próprios apoiadores do MBL foram tão duros com Arthur do Val? Não era para defendê-lo?
Porque ele violou algo que era central para a identidade deles — a ideia de que eram diferentes, melhores, mais éticos. Quando os áudios vazaram, ficou claro que ele era exatamente o tipo de político que eles criticavam.
Mas a terceira via não era sobre ideologia? Por que um escândalo pessoal derrubaria toda uma estratégia política?
Porque a terceira via nunca foi realmente sobre ideologia. Era sobre pessoas — sobre figuras que supostamente representavam algo novo. Quando essas figuras caem, a estrutura inteira desmorona.
Os apoiadores parecem estar aceitando que Lula vai vencer. Isso não é uma derrota?
É mais do que derrota. É admissão de que eles erraram na aposta. Por isso um deles fala em "estudar agora para quando o Lula fizer a merda" — é a aceitação de que perderam, e agora precisam se preparar para a próxima batalha.
A questão dos áudios é só sobre sexismo, ou há algo mais?
O sexismo é real e grave, mas o que os apoiadores criticam é a hipocrisia. Do Val vendia uma imagem de moço correto, liberal, diferente. Os áudios mostraram que era tudo performance. Isso foi o golpe fatal.
E Sergio Moro rompendo com ele — isso importa?
Importa porque Moro era uma das figuras mais respeitáveis da coligação. Se até ele se afasta, fica claro que não há mais como defender do Val. O isolamento é completo.