O digital é quase um novo idioma, como aprender a ler chinês
Em um país onde quase um terço da população ainda não domina a leitura funcional, uma pesquisa inédita revela que apenas um em cada quatro brasileiros navega com segurança pelo mundo digital — não por falta de acesso a dispositivos, mas por falta das competências que transformam tecnologia em participação real na vida social. O estudo, conduzido entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, coloca o Brasil diante de um espelho desconfortável: a exclusão digital não é apenas uma questão de infraestrutura, mas de linguagem, letramento e tempo histórico. A distância entre gerações — jovens três vezes mais hábeis que idosos no ambiente digital — sugere que o desafio não se resolverá sozinho com o passar dos anos.
- Apenas 23% dos brasileiros entre 15 e 64 anos dominam habilidades digitais avançadas, revelando uma lacuna que vai muito além do acesso ao celular.
- A tarefa mais simples do estudo — escrever uma mensagem no WhatsApp explicando a escolha de um filme — foi concluída com sucesso por apenas 9% dos participantes, expondo que o obstáculo é linguístico, não tecnológico.
- Com 29% de analfabetos funcionais no país, o digital amplifica desigualdades já existentes: entre esse grupo, apenas 3% atingem alto desempenho digital, criando uma 'dupla exclusão'.
- A divisão geracional é alarmante: jovens de 15 a 29 anos alcançam nível alto cinco vezes mais do que brasileiros entre 50 e 64 anos, sinalizando que o problema se transformará, mas não desaparecerá.
- Pesquisadores alertam que o próprio conceito de letramento digital está em crise diante da inteligência artificial, que produz conteúdo sem exigir que o usuário saiba construir um argumento.
- O Brasil reduziu o analfabetismo funcional de 39% para 29% em 24 anos — um avanço real, mas insuficiente para acompanhar a velocidade com que o mundo digital redefine o que significa saber funcionar em sociedade.
Um estudo divulgado na segunda-feira mediu, pela primeira vez, como os brasileiros lidam com tarefas cotidianas que exigem tecnologia — e o resultado é inquietante. Apenas 23% da população entre 15 e 64 anos possui altas habilidades digitais, independentemente do nível de escolaridade. A pesquisa, realizada pela Conhecimento Social, Ação Educativa e Fundação Itaú, testou 2,5 mil pessoas em três cenários práticos: comprar um tênis online, se inscrever em um evento e procurar um filme em streaming. Cada tarefa envolvia 14 atividades no celular. Os participantes foram distribuídos em três níveis: 25% no baixo, 53% no médio e 23% no alto.
O momento mais revelador foi a busca pelo filme. Após encontrá-lo na plataforma, os participantes precisavam escrever uma mensagem no WhatsApp explicando sua escolha a um amigo fictício. Apenas 9% conseguiram — mesmo entre os mais alfabetizados. Para Ana Lucia Lima, diretora da Conhecimento Social, o problema não era técnico: era linguístico. Construir um argumento por escrito exige letramento, e o ambiente digital não substitui essa habilidade.
O estudo também confirmou que o Brasil tem 29% de analfabetos funcionais. Entre eles, apenas 3% atingem nível alto no digital. Há, porém, uma nuance: entre os 36% com alfabetismo elementar, 18% se saem bem no ambiente digital — sinal de que a tecnologia pode abrir portas que o mundo analógico fecha. Mas 15% desse mesmo grupo ficam no nível mais baixo, configurando o que Lima chama de 'dupla exclusão'.
A idade divide o país ao meio. Jovens de 15 a 29 anos chegam a 30% no nível alto; entre 50 e 64 anos, esse número cai para 6%. Lima alerta ainda para uma crise conceitual: com a inteligência artificial produzindo conteúdo por conta própria, o que significa, afinal, ter letramento digital? O Inaf, que em 2001 encontrou 39% de analfabetos funcionais no Brasil, registra hoje 29% — um progresso real, mas que ainda deixa milhões de pessoas à margem de uma sociedade cada vez mais mediada por telas e algoritmos.
Um em cada quatro brasileiros consegue navegar com segurança pelo mundo digital. Essa é a conclusão de um estudo divulgado na segunda-feira que mediu, pela primeira vez, como os brasileiros se comportam diante de tarefas cotidianas que exigem tecnologia. O resultado é preocupante: apenas 23% da população entre 15 e 64 anos possui o que os pesquisadores chamam de altas habilidades digitais — e isso independe de quanto a pessoa estudou ou sabe ler.
A pesquisa, realizada pela Conhecimento Social, Ação Educativa e Fundação Itaú, testou 2,5 mil pessoas entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025 em três cenários práticos: comprar um tênis online, se inscrever em um evento e procurar um filme em um serviço de streaming. Cada tarefa envolvia 14 atividades diferentes no celular — desde preencher cadastros e criar senhas até anexar fotos e fazer pagamentos. Os participantes foram classificados em três níveis: 25% ficaram no nível baixo, 53% no médio, e apenas 23% no alto.
O desafio mais revelador apareceu na busca pelo filme. Depois de encontrar a obra certa na plataforma, os participantes precisavam escrever uma mensagem explicando sua escolha para um amigo fictício no WhatsApp. Apenas 9% conseguiram completar essa tarefa com sucesso — mesmo entre aqueles com melhor alfabetismo. Segundo Ana Lucia Lima, diretora da Conhecimento Social e responsável pela pesquisa, o problema não era técnico. Era linguístico. Construir um argumento por escrito, mesmo em um ambiente digital, exige letramento. "A gente queria entender se o digital ajuda ou atrapalha as pessoas a funcionar numa sociedade letrada", explica.
O estudo também revelou que o Brasil possui 29% de analfabetos funcionais — pessoas que conseguem ler apenas palavras simples, pequenas frases e números familiares como telefone ou preço. Entre esse grupo, apenas 3% alcançam nível alto de habilidades digitais. Há, porém, uma surpresa nos dados. Entre os 36% da população que possuem alfabetismo elementar — capazes de ler textos de extensão média e fazer algumas inferências —, 18% conseguem desempenho alto no digital. Lima observa que o ambiente digital às vezes abre possibilidades que o mundo analógico não oferece. Mas há também um lado sombrio: 15% desse mesmo grupo ficam no nível mais baixo, criando o que ela chama de "dupla exclusão".
A idade marca uma divisão clara. Jovens entre 15 e 29 anos têm mais de 30% em nível alto de habilidades digitais. Entre 40 e 49 anos, esse percentual cai para 17%. Aos 50-64 anos, apenas 6% alcançam o nível alto. Os mais velhos se saem melhor em tarefas como inscrição em eventos, enquanto os jovens dominam a navegação em plataformas de streaming. Lima aponta que há ainda confusão conceitual sobre o que significa letramento digital. "Até pouco tempo se dizia que a pessoa tinha um letramento digital quando conseguia produzir algo usando a tecnologia. Mas agora vem a inteligência artificial e produz tudo para você. A tecnologia avança muito rápido e esses conceitos não estão consolidados."
Os símbolos do mundo digital — ícones, memes, interfaces — funcionam como um novo vocabulário. Para algumas pessoas, compreender essa linguagem é tão desafiador quanto aprender a ler chinês. Essa lacuna importa porque o futuro do trabalho depende cada vez mais de competências digitais. O Inaf, que começou em 2001 medindo analfabetismo funcional, encontrou na época 39% de analfabetos funcionais no Brasil. Vinte e quatro anos depois, esse número caiu para 29% — um progresso real. Mas a inclusão digital ainda está longe de ser universal, e a distância entre gerações sugere que o desafio será persistente.
Citas Notables
A gente queria entender se o digital ajuda ou atrapalha as pessoas a funcionar numa sociedade letrada— Ana Lucia Lima, diretora da Conhecimento Social
É desafiador para algumas pessoas compreender uma outra linguagem, ícones, memes, é quase um vocabulário novo, como se tivesse aprendendo a ler chinês— Ana Lucia Lima
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que uma tarefa tão simples como escolher um filme se tornou tão difícil para as pessoas?
Não é simples. Parece simples porque você já faz isso automaticamente. Mas o teste exigia que a pessoa não apenas encontrasse o filme, mas explicasse sua escolha por escrito. Isso combina navegação, leitura, compreensão e produção de texto argumentativo — tudo ao mesmo tempo.
E por que apenas 9% conseguiram fazer isso?
Porque a maioria das pessoas consegue clicar, navegar, encontrar. Mas escrever de forma que outra pessoa entenda o raciocínio por trás da escolha é diferente. É letramento, não é só tecnologia.
Então o problema não é digital, é educacional?
É os dois. O digital expõe deficiências educacionais que já existiam. Mas também cria novas exigências. Você precisa entender ícones, símbolos, interfaces — é quase um novo idioma.
Como explicar que 18% dos analfabetos elementares têm alto desempenho digital?
O digital às vezes oferece caminhos que o mundo analógico não oferece. Talvez seja mais intuitivo, mais visual, menos dependente de leitura tradicional. Mas isso não resolve o problema dos 15% que ficam para trás mesmo nesse grupo.
Qual é a maior preocupação com esses números?
A idade. Quando apenas 6% das pessoas entre 50 e 64 anos têm altas habilidades digitais, você está criando uma geração inteira que fica de fora do mercado de trabalho. E não é culpa delas — é uma mudança que aconteceu rápido demais.