Seis em cada dez brasileiros acreditam que os partidos não se importam com eles
Em meio ao encerramento de um ano marcado por turbulências políticas, uma pesquisa do Instituto Ipsos revela que a maioria dos brasileiros não reconhece nos partidos políticos qualquer compromisso com a vida ordinária dos cidadãos. Esse distanciamento não é apenas estatístico — é sintoma de uma crise de legitimidade que corrói lentamente as fundações da representação democrática. Ao mesmo tempo, a persistente busca por um líder forte sugere que, quando as instituições perdem sentido, o desejo humano por salvadores individuais tende a ocupar o vazio deixado.
- Seis em cada dez brasileiros sentem que os partidos políticos existem para si mesmos, não para quem os elege — uma ruptura silenciosa entre representantes e representados.
- O apelo por um líder forte que enfrente as elites e reduza desigualdades ainda mobiliza 65% da população, colocando o Brasil acima da média mundial e revelando uma impaciência crescente com o sistema.
- Os números de desconfiança, embora ligeiramente melhores do que em anos anteriores, seguem altos o suficiente para indicar que a recuperação da fé institucional está longe de ser uma tendência consolidada.
- A queda contínua no desejo por liderança forte — de 73% em 2019 para 65% em 2022 — sugere que parte dos brasileiros começa a desconfiar também dessa alternativa, sem ainda encontrar outro caminho.
Uma pesquisa do Instituto Ipsos, divulgada pela Folha de S. Paulo, traça um retrato incômodo da relação entre os brasileiros e suas instituições políticas. Seis em cada dez entrevistados acreditam que os partidos simplesmente não se importam com pessoas comuns — não como cidadãos, não como eleitores, não como sujeitos cujas vidas dependem das decisões tomadas por esses mesmos partidos.
O dado mais recente representa, paradoxalmente, uma melhora: no ano anterior, 78% dos brasileiros compartilhavam dessa desconfiança, contra 72% em 2019. A recuperação, porém, é relativa — significa apenas que a desconfiança cresceu menos do que antes, não que tenha recuado de forma significativa.
Paralelamente, 65% dos entrevistados defendem que o Brasil precisa de um líder forte, capaz de resgatar o país das mãos dos mais ricos e poderosos. Esse percentual supera a média global de 59% e revela algo além da simples desconfiança nos partidos: uma busca ativa por uma alternativa ao sistema percebido como falho. Ainda assim, esse desejo também está em queda — era de 73% em 2019 e de 74% em 2021.
O que os números desenham, ao fim, é uma crise profunda de representatividade. Os partidos perderam credibilidade como canais legítimos de participação, enquanto o apelo por figuras salvadoras, embora ainda majoritário, começa a mostrar sinais de esgotamento. O Brasil de 2022 parece um país que desconfia das instituições, desconfia dos líderes fortes, mas ainda não encontrou em que confiar.
Uma pesquisa do Instituto Ipsos traz um retrato desconfortável da relação entre brasileiros e suas instituições políticas. Seis em cada dez pessoas entrevistadas acreditam que os partidos políticos simplesmente não se importam com elas — não como cidadãos, não como eleitores, não como pessoas cujas vidas dependem das decisões que esses partidos ajudam a tomar. Apenas quatro em cada dez confiam que há alguma preocupação genuína ali.
O estudo, divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo, oferece um dado que parece contradizer essa desconfiança: a confiabilidade do brasileiro melhorou em relação aos anos anteriores. No ano anterior à pesquisa, 78% dos entrevistados concordavam que os partidos não se importam com pessoas como eles — um aumento de 15 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Em 2019, esse número estava em 72%. A melhora, portanto, é relativa: significa apenas que a desconfiança cresceu menos do que havia crescido antes.
Mas há outro dado na pesquisa que talvez explique melhor o que os brasileiros estão sentindo. Sessenta e cinco por cento dos entrevistados acreditam que o Brasil precisa de um líder forte — alguém capaz de resgatar o país das mãos dos mais ricos e poderosos. Esse percentual coloca o Brasil acima da média global, que fica em 59%. É um número que sugere algo além de desconfiança nos partidos: é uma busca por uma alternativa, por alguém que não seja parte do sistema que os brasileiros veem como falho.
Esse desejo por liderança forte, porém, também está em queda. Em 2019, 73% dos brasileiros concordavam que o país precisava de um líder assim. Em 2021, o número caiu para 74% — uma redução de um ponto percentual. Agora, em 2022, está em 65%. A tendência é clara: menos brasileiros acreditam que um líder forte é a solução, mas ainda assim a maioria acredita.
O que emerge desses números é um quadro de instituições políticas que perderam credibilidade junto à população. Os partidos, que deveriam ser canais de representação e participação, são vistos como alheios às preocupações das pessoas comuns. Ao mesmo tempo, há um apelo persistente por uma figura que possa contornar essas instituições — alguém que prometa resolver os problemas que os partidos não conseguem ou não querem resolver. É um cenário que reflete uma crise profunda de representatividade, onde as estruturas democráticas tradicionais deixaram de ser vistas como legítimas por uma parcela significativa da população.
Citações Notáveis
A confiabilidade do brasileiro melhorou em relação a anos anteriores, passando de 72% em 2019 para 78% no ano anterior— Folha de S. Paulo, citando dados da pesquisa Ipsos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que apenas 40% dos brasileiros confiam que os partidos se importam com eles?
Porque os partidos se tornaram máquinas de poder desconectadas das pessoas. Eles existem para ganhar eleições, não para resolver problemas.
Mas a confiança melhorou em relação ao ano anterior, certo? Isso não é um sinal positivo?
É uma melhora relativa. Significa que a queda desacelerou, não que as pessoas começaram a confiar mais. É como dizer que um paciente está melhor porque o sangramento diminuiu — ele ainda está sangrando.
E esse desejo por um líder forte? Isso não é perigoso?
É um sintoma de que as pessoas perderam fé nas instituições. Quando 65% quer um líder forte, significa que 65% acredita que o sistema não funciona.
A tendência está caindo, de 73% em 2019 para 65% agora. Isso é bom?
Depende de como você vê. Menos pessoas querem um salvador, o que é bom. Mas ainda é maioria, e a desconfiança nos partidos continua alta.
O que isso significa para a democracia?
Significa que a democracia está em apuros. Quando as pessoas não confiam nas instituições e buscam alternativas fora delas, você tem um problema estrutural que não se resolve em uma eleição.