Há vida para lá do Real Madrid, e às vezes é exatamente o que um jovem talento precisa
Mariano Díaz, herdeiro da camisola 7 de Cristiano Ronaldo, viveu pressão e poucas oportunidades no Real Madrid antes de se afirmar no Lyon. O avançado hispano-dominicano defende que jogadores jovens devem priorizar tempo de jogo regular sobre permanecer num grande clube sem protagonismo.
- Mariano Díaz herdou a camisola 7 de Cristiano Ronaldo em 2018
- Conquistou a Liga dos Campeões com o Real Madrid em 2016/17
- Marcou 21 golos no Lyon antes de regressar ao Real Madrid por 30 milhões de euros
- Saiu do Real Madrid em 2023 após anos de lesões e poucas oportunidades
- Endrick poderá seguir um empréstimo, possivelmente para o Lyon, em janeiro
Antigo jogador do Real Madrid Mariano Díaz aconselha Endrick a procurar empréstimo para ganhar minutos de jogo, sublinhando que o tempo em campo é mais valioso do que o prestígio do clube.
Mariano Díaz conhece bem o peso de uma camisola que não escolheu. Quando Cristiano Ronaldo partiu para a Juventus no verão de 2018, o avançado hispano-dominicano herdou o número 7 do Real Madrid — um dos símbolos mais carregados do futebol europeu. Formado no clube desde os 18 anos, vindo do Badalona, Díaz havia conquistado a Liga dos Campeões em 2016/17 sob orientação de Zinedine Zidane e regressava de uma época brilhante no Lyon, onde marcou 21 golos. O Real Madrid pagou 30 milhões de euros para tê-lo de volta. Tudo apontava para uma trajetória ascendente. Mas a realidade foi outra.
O início foi promissor — um golo na Liga dos Campeões frente à Roma — mas rapidamente deu lugar a lesões recorrentes e instabilidade com diferentes treinadores. Mariano perdeu espaço, ganhou minutos esparsos, viu-se reduzido a suplente. Seu momento de maior glória no clube chegou em março de 2020, quando marcou nos descontos de uma vitória por 2-0 sobre o Barcelona, mas mesmo esse instante não conseguiu reverter a trajetória. Em 2023, saiu do Real Madrid. Enfrentou um longo período sem competir regularmente.
Agora, observando a situação de Endrick — o jovem brasileiro que chegou ao Bernabéu com grande expectativa mas vê-se frustrado pela falta de oportunidades nesta temporada — Mariano oferece um conselho que vem da experiência vivida. Numa entrevista ao The Athletic, o antigo avançado é direto: para um jogador tão jovem, ganhar minutos de jogo regular pode ser mais valioso do que insistir em permanecer num grande clube sem protagonismo. Um empréstimo, possivelmente para o Lyon, é visto como uma possibilidade forte para Endrick em janeiro.
"Se o Endrick acabar por sair, dir-lhe-ia para aproveitar ao máximo. Quando és titular, quando confiam em ti, é quando podes provar muitas coisas. Jogando poucos minutos a cada três jogos, não é possível", afirma Mariano. Ele próprio seguiu esse caminho em 2017, quando assinou pelo Lyon em busca de protagonismo. Foi lá que se afirmou rapidamente como uma das principais figuras do clube francês — exatamente o tipo de desenvolvimento que Endrick poderia alcançar longe do Bernabéu.
Mariano sublinha que a pressão no Real Madrid é única. A camisola 7 não é apenas um número; é um símbolo que carrega expectativas imensuráveis. "A camisola 7 é um número muito importante no Madrid. Assumi-a com orgulho, mas havia muita pressão", recorda. Essa pressão, combinada com lesões e falta de confiança dos treinadores, criou um ciclo difícil de quebrar. Para um jovem talento, esse ambiente pode ser paralisante.
O conselho de Mariano baseia-se também na sua experiência ao lado de Cristiano Ronaldo. O português estabeleceu um padrão de exigência interna que influenciou toda uma geração de jogadores no clube. "Aprendi muito com o Cristiano: a rotina, a recuperação, a preparação, a liderança. O Madrid exigia isso de todos, até dos suplentes. O 'Plano B' funcionava como o 'Plano A'", explica. Essa exigência constante, embora formadora, pode ser esmagadora para quem não consegue ganhar minutos para provar seu valor.
A mensagem final de Mariano é esperançosa, mas realista. "Se ele for para ganhar minutos, isso é o melhor que lhe pode acontecer. E, se mostrar o seu valor, pode regressar ao Madrid mais preparado", afirma. A sua própria trajetória — de promessa do Real Madrid a jogador em dificuldades, depois a figura central no Lyon, e agora a voz de experiência — ilustra que sair não é fracasso. Às vezes, é exatamente o que um jovem talento precisa para encontrar o seu caminho.
Citas Notables
Se o Endrick acabar por sair, dir-lhe-ia para aproveitar ao máximo. Quando és titular, quando confiam em ti, é quando podes provar muitas coisas.— Mariano Díaz
A camisola 7 é um número muito importante no Madrid. Assumi-a com orgulho, mas havia muita pressão.— Mariano Díaz
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Mariano viveu a pressão de herdar a camisola de Cristiano Ronaldo. Como é que isso moldou a sua perspetiva sobre o que Endrick está a enfrentar agora?
Quando recebi o número 7, senti o peso imediatamente. Não era apenas uma camisola; era uma expectativa. Cristiano tinha estabelecido um padrão tão alto que qualquer um que a vestisse depois seria comparado. Para um jovem, isso pode ser paralisante, especialmente quando as lesões e a falta de confiança dos treinadores começam a acumular-se.
Mas você regressou ao Real Madrid com grande confiança, depois de uma época brilhante no Lyon. O que correu mal?
Regressei com 30 milhões de euros de preço, com a camisola 7, com a expectativa de ser o sucessor. Mas o futebol não funciona assim. As lesões chegaram, os treinadores mudaram, e perdi o ritmo. Quando não jogas, é difícil recuperar a confiança. Endrick está a viver algo semelhante agora.
Então o seu conselho é que ele saia. Mas não há risco de que, ao sair, perca a oportunidade de se afirmar no maior clube do mundo?
Há sempre esse risco. Mas há um risco maior: ficar no Real Madrid, jogar poucos minutos a cada três jogos, e nunca conseguir provar o seu valor. Eu próprio fui para o Lyon em 2017 porque precisava de jogar. Foi lá que me afirmei. Se Endrick conseguir fazer o mesmo, regressará ao Madrid muito mais preparado.
Cristiano Ronaldo deixou uma marca profunda em si. O que aprendeu com ele que poderia ser importante para Endrick?
Cristiano ensinou-me a rotina, a recuperação, a preparação, a liderança. O Madrid exigia isso de todos, até dos suplentes. O 'Plano B' funcionava como o 'Plano A'. Isso é valioso, mas também é exigente. Para um jovem que não está a jogar, pode ser frustrante estar rodeado por essa excelência sem ter a oportunidade de a demonstrar.
Você marcou um golo memorável contra o Barcelona em 2020. Esse momento não foi suficiente para mudar a sua trajetória no clube?
Marquei nos descontos de uma vitória por 2-0. Foi especial, mas foi apenas um momento. No futebol, especialmente no Real Madrid, um golo não muda tudo. Precisa de consistência, de minutos regulares, de confiança contínua. Um momento não é suficiente quando estás a lutar contra as lesões e a instabilidade.
E agora, vendo Endrick nesta situação, sente que poderia ter feito algo diferente na sua carreira?
Talvez. Mas a verdade é que a vida continua para lá do Real Madrid. Eu aprendi isso da forma mais difícil. Se Endrick conseguir aprender isso mais cedo, será mais sábio do que eu fui.