O teatro político, quando bem feito, muda a realidade
Em momentos de crise institucional, a democracia encontra formas criativas de se afirmar: movimentos sociais e entidades jurídicas lançaram a jurista negra Soraia Mendes como anticandidata simbólica ao Supremo Tribunal Federal, em contraposição à indicação de André Mendonça por Jair Bolsonaro. O gesto não busca vitória formal, mas reabre perguntas antigas sobre quem tem o direito de ocupar os espaços de poder e como as sociedades escolhem seus guardiões constitucionais. Como Ulysses Guimarães em 1973, a anticandidatura transforma a impotência aparente em linguagem política — um convite coletivo a repensar os fundamentos da representação democrática.
- A indicação de André Mendonça ao STF acende um alarme entre juristas e movimentos sociais que enxergam no nome um risco à independência do Tribunal e ao Estado Democrático de Direito.
- Como resposta, entidades do campo jurídico lançam Soraia Mendes — pós-doutora, escritora e militante negra — como anticandidata simbólica, tornando visível o que o processo oficial apaga: a ausência de representatividade e critérios de legitimidade.
- Críticas internas ao campo progressista acusam a iniciativa de ser meramente identitária, mas os promotores da anticandidatura respondem que nunca se questionou a pauta de homens brancos que historicamente dominaram o Judiciário.
- A anticandidatura transcende a resistência imediata e aponta para uma demanda estrutural: criar mecanismos de consulta e participação popular nas indicações ao Supremo, democratizando o próprio processo de escolha.
- O movimento se insere numa tradição histórica de candidaturas simbólicas — de Ulysses Guimarães à professora Beatriz Vargas em 2017 — que usam o impossível como ferramenta para transformar normas e abrir espaços de debate.
Por que lançar uma candidatura ao Supremo Tribunal Federal sem qualquer chance de êxito? A resposta está na história: em 1973, Ulysses Guimarães candidatou-se simbolicamente à Presidência em plena ditadura, denunciando a farsa das eleições indiretas e plantando a semente que floresceria nas Diretas Já. Em 2017, a professora Beatriz Vargas foi anticandidata quando Michel Temer indicou Alexandre de Moraes ao STF. O padrão é consistente — candidaturas simbólicas não buscam vitória, mas criam tensões que transformam normas e reabrem debates sobre legitimidade.
Agora, movimentos sociais e entidades jurídicas se uniram para lançar Soraia Mendes ao STF. Jurista negra, pós-doutora e militante, ela representa setores historicamente excluídos dos espaços de poder. A anticandidatura não contesta o direito constitucional do presidente de nomear ministros — ela se coloca como contraposição direta a André Mendonça, indicado por Bolsonaro, questionando os critérios de legitimidade que deveriam orientar a escolha.
A dimensão simbólica é o coração da iniciativa. Ao oferecer ao debate público um nome como o de Soraia Mendes, os promotores da anticandidatura recuperam perspectivas apagadas, denunciam desigualdades de acesso ao poder e afirmam a Constituição como projeto coletivo. Quando colegas progressistas criticaram a iniciativa como meramente identitária, a resposta foi direta: ninguém jamais questionou décadas de homens brancos ocupando o Judiciário como defensores de suas próprias pautas.
Mas há uma ambição maior em jogo. A anticandidatura de Soraia Mendes é, acima de tudo, uma defesa do Estado Democrático de Direito em momento de risco. E vai além da resistência imediata: aponta para a necessidade de criar mecanismos permanentes de consulta e participação popular nas indicações ao Supremo. É, em última análise, um convite a repensar como as democracias escolhem quem as governa.
Por que movimentos sociais e entidades jurídicas lançam uma anticandidatura ao Supremo Tribunal Federal sabendo que não têm chance de êxito? A pergunta circula entre atores do campo jurídico e político há meses. A resposta não está na ilusão de vitória, mas em algo mais profundo: a capacidade de uma candidatura simbólica de reabrir debates sobre legitimidade, representação e o próprio sentido da democracia em momentos de crise institucional.
Candidaturas desse tipo não são invenção recente. Em 1973, em plena ditadura militar, Ulysses Guimarães lançou sua candidatura simbólica à Presidência da República, realizando comícios e carreatas como se a eleição dependesse dos votos populares. Era uma forma inteligente de denunciar o regime e a farsa das eleições indiretas. O resultado foi imediato: o MDB, único partido de oposição permitido, elegeu 16 dos 22 senadores em disputa e 161 das 364 cadeiras na Câmara. Dez anos depois, aquele embrião germinaria nas Diretas Já. Em 2017, quando Michel Temer indicou Alexandre de Moraes para o STF, a professora da UnB Beatriz Vargas foi lançada como anticandidata. Em abril de 2021, a ex-presidenta do Equador Rosalía Arteaga recebeu uma candidatura simbólica à secretária-geral da ONU, aprovada pela internet com 98,3% dos votos. O padrão é claro: candidaturas simbólicas funcionam como ferramenta política para questionar processos institucionais e criar tensões que transformem normas.
Agora, entidades do mundo jurídico se reuniram para lançar Soraia Mendes ao Supremo Tribunal Federal. Ela é jurista negra, pós-doutora, escritora, militante — alguém que se coloca como vinda de setor historicamente excluído de benefícios sociais e políticos. Sua anticandidatura não questiona o poder constitucional do Presidente da República de nomear ministros. Ela é, fundamentalmente, uma contraposição ao nome de André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, que segundo os promotores da anticandidatura não possui os pré-requisitos de legitimidade para ocupar o cargo.
A dimensão simbólica opera como princípio norteador de processos sociais que dão sentido às concepções sobre representação. Quando se oferece ao debate público uma anticandidatura ao Supremo, não se trata apenas de política formal. Trata-se de recuperar perspectivas que fazem parte da trajetória dos grupos envolvidos, de buscar uma identidade referenciada na defesa do próprio Tribunal como corpo orgânico de afirmar a Constituição Federal, seus princípios garantistas e conjunto de direitos. A anticandidatura de Soraia Mendes oportuniza discussões de rica complexidade: valores culturais, dimensões jurídicas e sociais que se radicalizam nessa ocasião oportuna de exacerbação, como denunciar as desigualdades de acesso e controle sobre os mecanismos de poder.
Alguns colegas do campo jurídico progressista criticaram a candidatura como meramente identitária — crítica que revela mais sobre quem a faz do que sobre seu alvo. Ninguém jamais questionou homens brancos ocupando a larga maioria das cadeiras do Poder Judiciário como defensores de suas próprias pautas. A candidatura de uma mulher negra não é menos importante em si mesma; é, ao contrário, expressão de uma teia de significados que toca questões de inclusão e exclusão, que acompanham a prática de entidades preocupadas em construir uma noção eficaz e plural de representação.
Mas há algo mais em jogo. A anticandidatura de Soraia Mendes é, acima de tudo, defesa do próprio Estado Democrático de Direito e da ordem jurídica, que está em risco na atual conjuntura política brasileira. Nesse contexto, a ocupação de uma cadeira no Supremo ganha substancial relevância. Os valores constitutivos dessa anticandidatura não se fazem apenas no contraponto às atribuições negativas de André Mendonça, mas como forma de apontar que é necessário estabelecer mecanismos de consulta e participação popular nas indicações ao Tribunal. A anticandidatura ultrapassa a ética da resistência imediata e aponta para a criação de um modelo que contemple espaço de diálogo importante, expressão de esfera representativa de segmentos sociais, jurídicos e políticos na decisão de ocupação institucional. É, em última análise, um convite a repensar como as democracias escolhem quem as governa.
Notable Quotes
A anticandidatura de Soraia Mendes é defesa do próprio Estado Democrático de Direito e da ordem jurídica, que está em risco na atual conjuntura política brasileira— Colunista
Candidaturas simbólicas funcionam como ferramenta política para questionar processos institucionais e criar tensões que transformem normas— Análise do texto
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que gastar energia com uma candidatura que não pode vencer?
Porque o objetivo nunca foi vencer a indicação presidencial. É criar uma tensão pública que force a sociedade a pensar sobre quem deveria estar no Supremo e por quê.
Mas isso não é só teatro político?
Não. Ulysses Guimarães fez algo parecido em 1973 e ajudou a semear as Diretas Já. O teatro político, quando bem feito, muda a realidade.
E por que Soraia Mendes especificamente?
Porque ela encarna algo que falta no Supremo: uma jurista negra, de origem excluída, que defende a Constituição. Sua presença no debate força a pergunta que ninguém quer fazer.
Qual pergunta?
Por que o Judiciário permanece branco e masculino? E se isso importa para a legitimidade das decisões que toma sobre todos nós.
Então é identitário?
Não. É institucional. A identidade é apenas o veículo. O que importa é o Estado Democrático de Direito em risco.
E se conseguissem mudar o processo de indicação?
Aí sim a anticandidatura teria cumprido seu verdadeiro propósito: não vencer uma batalha, mas transformar o jogo.