'Taxa das blusinhas' arrecadou R$ 2 bi antes de ser revogada em maio

Turistas trazem compras na mala sem pagar; quem compra online paga 20%
A contradição que irritava consumidores e ajudou a derrubar o imposto durante a corrida eleitoral.

Entre janeiro e maio de 2026, o governo federal brasileiro arrecadou mais de R$ 2 bilhões com um imposto sobre pequenas encomendas internacionais — um tributo que nasceu para proteger a indústria nacional e morreu sob a pressão do calendário eleitoral. A chamada 'taxa das blusinhas', cobrada a uma alíquota de 20% sobre compras de até US$ 50, revelou a tensão permanente entre a proteção do mercado interno e o acesso popular ao consumo global. Sua revogação em maio não encerrou o debate: os estados seguem tributando as mesmas compras via ICMS, lembrando que as disputas fiscais raramente têm fim definitivo.

  • Em apenas cinco meses, o imposto sobre compras internacionais de baixo valor gerou R$ 2 bilhões aos cofres federais — 15,4% a mais do que no mesmo período do ano anterior.
  • Consumidores de menor renda foram os mais afetados, pois eram justamente eles os maiores compradores das plataformas como Shein e AliExpress, onde os preços baixos eram o principal atrativo.
  • A indústria nacional reagiu com um manifesto conjunto de têxteis, vestuário e varejo, citando dados que apontavam a menor inflação do setor desde o Plano Real como evidência dos benefícios da taxa.
  • Em plena corrida eleitoral, o governo federal revogou o imposto em maio, numa decisão que especialistas associaram diretamente à busca por popularidade política.
  • A retirada federal não encerrou a tributação: estados continuam cobrando ICMS de 17% a 20% sobre as mesmas importações, mantendo pressão sobre os preços das compras internacionais.

Entre janeiro e maio de 2026, o governo federal arrecadou mais de R$ 2 bilhões com a chamada 'taxa das blusinhas' — um imposto de 20% sobre encomendas internacionais de até US$ 50. O valor representou alta de 15,4% em relação ao mesmo período de 2025 e evidenciou o peso fiscal de um tributo que, apesar de controverso, havia se tornado uma fonte relevante de receita.

O imposto havia sido criado em agosto de 2024, após aprovação do Congresso, como resposta ao crescimento explosivo das compras em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. O argumento central era a disparidade tributária: produtos nacionais arcavam com cargas muito maiores do que seus equivalentes importados. O vice-presidente Geraldo Alckmin foi um dos principais defensores da medida, e setores como têxtil, vestuário e varejo assinaram manifesto conjunto em sua defesa, citando inclusive que a inflação no segmento havia sido a menor desde o início do Plano Real.

Do outro lado, consumidores reprovavam amplamente o tributo, especialmente os de menor renda — justamente aqueles mais atraídos pelos preços baixos das plataformas internacionais. Críticos também apontavam uma assimetria: quem trazia compras na bagagem ao voltar do exterior não pagava o imposto, enquanto quem comprava online era taxado.

Em maio, em meio à corrida eleitoral, o governo federal revogou a taxa. O timing foi amplamente interpretado como uma concessão política. Mas o alívio para os consumidores foi parcial: os estados seguem cobrando ICMS de 17% a 20% sobre as mesmas importações de pequeno valor, mantendo viva a pressão tributária sobre quem compra no exterior pela internet.

Entre janeiro e maio de 2026, o governo federal recolheu mais de dois bilhões de reais com um imposto que se tornou tão controverso quanto lucrativo: a chamada taxa das blusinhas. O tributo, que incidia sobre encomendas internacionais de baixo valor, arrecadou esse montante antes de ser revogado em meados de maio, no meio da corrida eleitoral do ano. A cifra representou um aumento de 15,4% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram recolhidos 1,84 bilhão de reais.

O imposto nasceu em agosto de 2024, após aprovação do Congresso Nacional. O governo passou a cobrar uma alíquota de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares — compras que, até então, estavam isentas para empresas participantes do programa Remessa Conforme. A medida foi uma resposta a pressões da indústria nacional, que via suas vendas ameaçadas pelo crescimento explosivo das compras em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress, especialmente após o aumento do comércio digital durante a pandemia. O governo argumentava que havia uma disparidade tributária injusta: produtos nacionais pagavam impostos muito mais altos do que seus equivalentes importados.

Mas o imposto gerou reações contraditórias. Consumidores brasileiros o reprovavam amplamente, principalmente porque tornava mais caros produtos populares de baixo valor — justamente aqueles que atraíam compradores de renda mais baixa. Críticos também apontavam uma injustiça: turistas que viajavam para o exterior e traziam compras na mala não pagavam o tributo, enquanto quem comprava online era taxado. A medida afastava brasileiros das plataformas internacionais e reduzia sua atratividade.

Por outro lado, setores produtivos nacionais defenderam a taxa com vigor. O vice-presidente Geraldo Alckmin, então ministro do Desenvolvimento, foi um de seus principais apoiadores, argumentando que ela protegia a indústria nacional de produtos de baixo valor. Representantes de têxteis, vestuário, calçados e comércio varejista assinaram um manifesto conjunto defendendo sua permanência. Eles afirmavam que o imposto não apenas gerou empregos, mas também beneficiou consumidores ao reduzir a disparidade tributária entre plataformas internacionais e o setor produtivo. O manifesto citava dados do setor têxtil: a inflação nesse segmento havia sido a menor entre os itens do IPCA desde julho de 1994, início do Plano Real.

Em maio, porém, a taxa foi revogada. O timing não foi coincidência: a decisão ocorreu em plena corrida eleitoral, quando políticos buscavam popularidade. Especialistas consultados pela reportagem confirmaram que o fim do imposto teve impacto imediato nos preços das compras internacionais. Mas a história não terminou ali. Embora o governo federal tenha recuado, os estados continuam taxando importações de pequeno valor por meio do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), com alíquotas que variam de 17% a 20%. Isso significa que, mesmo sem a taxa federal, quem compra em plataformas internacionais ainda enfrenta uma pressão tributária significativa — apenas de origem diferente.

O consumidor foi beneficiado pela redução da disparidade tributária entre plataformas internacionais e o setor produtivo nacional
— Manifesto de representantes dos setores produtivos, comércio e varejo
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que um imposto sobre roupas baratas se tornou tão importante para o governo?

Model

Porque gerou dois bilhões de reais em cinco meses. Mas também porque representava uma escolha: proteger a indústria nacional ou deixar os consumidores comprarem livremente no exterior. O governo escolheu a primeira opção em 2024.

Inventor

E por que foi revogado tão rapidamente?

Model

Não foi tão rápido — durou quase um ano. Mas foi revogado em maio, durante a corrida eleitoral. Consumidores odiavam pagar mais pelas blusinhas. Políticos precisavam de votos.

Inventor

A indústria nacional perdeu com a revogação?

Model

Perdeu a proteção federal, sim. Mas os estados ainda cobram ICMS, de 17% a 20%. Então a pressão sobre os preços das importações não desapareceu completamente.

Inventor

Havia algo injusto no imposto original?

Model

Sim. Turistas que viajavam e traziam compras na mala não pagavam nada. Quem comprava online pagava 20%. Era uma contradição que irritava as pessoas.

Inventor

Então o imposto funcionou economicamente, mas falhou politicamente?

Model

Exatamente. Arrecadou bem, protegeu a indústria. Mas custou caro em popularidade. No fim, a política venceu.

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