Este mercado nunca esteve nessa posição antes
Num momento em que a inteligência artificial remodela as prioridades industriais do planeta, o mercado de hardware para jogos se vê preso numa corrente de consequências que ninguém planejou: a corrida por data centers drenou componentes, tarifas reescreveram cadeias de fornecimento e a geopolítica instável faz o resto. Analistas consultados pela Kotaku são unânimes — Steam Deck, PS5, Xbox e Switch 2 já subiram, mas o pico ainda não chegou, e os contratos que hoje são assinados com preços inflacionados garantem que essa pressão se estenda até 2027, talvez 2029. O consumidor de jogos, sem ter pedido para participar, tornou-se um dos pagadores da conta da era da IA.
- A crise de RAM, alimentada pela demanda insaciável de data centers de IA, secou os estoques de componentes disponíveis para o mercado de consumo — e o efeito já é sentido no preço de todo hardware de jogos.
- Tarifas americanas, inflação global e turbulência geopolítica como a guerra no Irã empilham camadas de volatilidade sobre uma indústria que nunca havia enfrentado tantas pressões simultâneas.
- Os aumentos visíveis hoje são apenas reflexos defasados: fabricantes estão agora renegociando contratos de fornecimento com base nos custos inflacionados atuais, garantindo novos reajustes nos próximos anos.
- Ninguém sabe onde está o teto de preço que afasta os consumidores — e a indústria só descobrirá esse limite quando alguém o ultrapassar, tornando cada decisão de precificação uma aposta de alto risco.
- Por enquanto, os ecossistemas de PlayStation e Steam seguem crescendo, mas analistas alertam que o Switch 2 deve enfrentar novos aumentos em 2027, e escolhas de impacto duradouro precisarão ser feitas em breve por todos os fabricantes.
O Steam Deck ultrapassou 200 dólares de aumento — e, segundo analistas ouvidos pela Kotaku, esse movimento é apenas um degrau numa escalada que deve continuar até pelo menos 2027. PlayStation 5, Xbox e Switch 2 já passaram por reajustes recentes, e o setor inteiro se prepara para notícias ainda piores nos próximos meses.
A raiz do problema está na memória RAM. Joost van Dreunen, professor da NYU Stern, aponta a corrida das grandes empresas de tecnologia para construir data centers de IA como o principal culpado: essa demanda desproporcional secou os estoques de componentes para o mercado de consumo. As tarifas americanas agravam o quadro — e, na avaliação de van Dreunen, acabaram empurrando empregos industriais para países com salários mais baixos em vez de trazê-los aos EUA.
Serkan Toto, da Kantan Games, acrescenta a inflação persistente e a turbulência geopolítica à lista de fatores. Daniel Ahmad, da Niko Partners, inclui as flutuações cambiais, mas observa que os mercados asiáticos e do Oriente Médio estão numa posição mais confortável do que os países ocidentais.
Rhys Elliott, da Alinea Analytics, explica por que os piores aumentos ainda estão por vir: plataformas e fabricantes operavam com contratos de longo prazo e estoques de reserva que protegeram os preços no varejo até agora. À medida que esses contratos vencem, as empresas renegociam com base nos custos inflacionados de hoje — e essa pressão vem de toda a cadeia. Elliott pondera que preços mais altos só se tornam um problema real quando cortam o fluxo de novos usuários, e por ora esse fluxo segue saudável.
O segmento portátil preocupa mais. James McWhirter, da Omdia, prevê novos aumentos no Switch 2 em 2027. Mat Piscatella, da Circana, reconhece que existe um teto além do qual os consumidores simplesmente param de comprar — mas ninguém sabe onde ele está até que alguém o atinja. 'Este mercado nunca esteve nessa posição antes', admite, 'e estamos aprendendo muito sobre ele enquanto avançamos.'
O Steam Deck acaba de ultrapassar a marca de 200 dólares de aumento. Não é um acidente isolado. Segundo analistas ouvidos pela Kotaku, esse reajuste é apenas um degrau numa escalada de preços que deve prosseguir até pelo menos 2027, com alguns especialistas prevendo que a situação só se normalize em 2029 — se é que se normaliza. PlayStation 5, Xbox e Switch 2 já passaram por aumentos recentes. O setor inteiro está preparado para piores notícias nos próximos meses.
A explicação começa com a memória RAM. Joost van Dreunen, professor da NYU Stern, identifica a crise de RAM como o culpado principal. As grandes empresas de tecnologia estão numa corrida desenfreada para construir data centers de inteligência artificial, e essa demanda desproporcional por componentes secou os estoques disponíveis para o mercado de consumo. Van Dreunen é claro: a alta no custo da RAM lidera a lista de culpados, mas as tarifas americanas adicionam uma camada de volatilidade que piora tudo. "O que deveria trazer empregos industriais aos EUA acabou tirando os consumidores do mercado e empurrando esses empregos para países com salários mais baixos", afirma.
Serkan Toto, CEO da consultoria Kantan Games, concorda e expande o quadro. Além da RAM, ele aponta a inflação persistente mundial e a turbulência geopolítica — como a guerra no Irã — como fatores que pressionam os custos. Daniel Ahmad, diretor de pesquisa da Niko Partners, acrescenta as flutuações cambiais à lista. Ele observa, porém, que os mercados asiáticos e do Oriente Médio que sua empresa acompanha estão numa posição mais confortável do que os países ocidentais.
Todos os analistas consultados concordam em um ponto: os preços ainda não atingiram o pico. Rhys Elliott, chefe de análise de mercado da Alinea Analytics, explica que os aumentos atuais são apenas indicadores defasados. As plataformas e fabricantes operam com contratos de fornecimento de longo prazo e estoques de reserva que inicialmente protegeram os preços no varejo. À medida que esses contratos vencem, as empresas estão renegociando os custos dos componentes com base nos preços inflacionados de hoje — e essa pressão vem de toda a indústria. Elliott nota que preços mais altos só se tornam um problema real quando começam a cortar o fluxo de novos usuários. Por enquanto, esse fluxo segue saudável. Os ecossistemas de PlayStation e Steam ainda estão crescendo, e a geração do PS5 será estendida por um longo ciclo de jogos que rodam em múltiplas gerações.
O segmento portátil enfrenta uma situação ainda mais delicada. James McWhirter, analista sênior da Omdia, alerta que novos aumentos no preço do Switch 2 são esperados em 2027. Mat Piscatella, diretor sênior da Circana, reconhece que existe um teto de preço — um ponto além do qual os consumidores simplesmente não compram — mas ninguém sabe onde ele está até que alguém o atinja. "Escolhas muito difíceis e de impacto duradouro terão de ser feitas por todos os fabricantes de hardware agora e nos próximos meses", diz. "Este mercado nunca esteve nessa posição antes, e estamos aprendendo muito sobre ele enquanto avançamos."
Citações Notáveis
O que deveria trazer empregos industriais aos EUA acabou tirando os consumidores do mercado e empurrando esses empregos para países com salários mais baixos.— Joost van Dreunen, professor da NYU Stern
Escolhas muito difíceis e de impacto duradouro terão de ser feitas por todos os fabricantes de hardware agora e nos próximos meses.— Mat Piscatella, diretor sênior da Circana
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a crise de RAM está afetando tanto os preços de consoles se eles não usam tanta memória quanto um data center?
Porque a RAM é um componente universal. Quando as grandes empresas de tecnologia drenam os estoques globais para construir infraestrutura de IA, o preço sobe para todo mundo — incluindo os fabricantes de consoles que precisam competir pelos mesmos componentes no mercado.
Os analistas parecem surpreendentemente calmos sobre isso. Não há preocupação de que os consumidores simplesmente parem de comprar?
Há preocupação, mas ela é contida. Os ecossistemas ainda estão crescendo, e as pessoas continuam comprando. O verdadeiro teste virá quando o preço ficar tão alto que o fluxo de novos usuários seque. Ninguém sabe onde esse limite está.
E as tarifas americanas? Parecem estar piorando as coisas em vez de ajudar.
Exatamente. A intenção era trazer manufatura de volta aos EUA, mas o efeito foi aumentar custos para os consumidores americanos e empurrar a produção para países com salários mais baixos. É o oposto do que foi prometido.
2027 ou 2029 — por que essa incerteza?
Porque ninguém realmente sabe quando os contratos de fornecimento de longo prazo vão terminar e quando os preços dos componentes vão se estabilizar. Os analistas estão fazendo previsões educadas, mas estão em território desconhecido.
Os mercados asiáticos estão realmente em melhor situação?
Segundo os dados que a Niko Partners acompanha, sim. A Ásia e o Oriente Médio estão numa posição mais confortável do que os países ocidentais. Mas isso não significa que estejam imunes — apenas que a pressão é menor.