Quem paga mais leva o produto — essa é a lógica agora
Petrobras reajustou diesel hoje, mas defasagem de 11-12% persiste em relação ao preço de paridade internacional. Gasolina tem defasagem maior (10-19%) e pode sofrer reajuste em breve, embora etanol ofereça alternativa no mercado doméstico.
- Petrobras reajustou diesel, mas defasagem de 11-12% persiste em relação ao preço internacional
- Gasolina tem defasagem de 10-19% e aguarda possível reajuste
- Rússia fornece cerca de 25% do diesel consumido globalmente
- Etanol oferece alternativa no mercado doméstico brasileiro
Petrobras reajusta preço do diesel para reduzir defasagem em relação ao mercado global, mas gasolina permanece desalinhada. Analistas alertam para possível reajuste futuro e riscos de suprimento internacional.
A Petrobras reajustou o preço do diesel nesta segunda-feira, um movimento que os analistas descrevem como necessário mas apenas parcial. O problema que a empresa tentava resolver — o risco de desabastecimento de diesel no mercado doméstico — é real e urgente. Mas ao fazer isso, deixou em aberto uma questão igualmente incômoda: quando virá o reajuste da gasolina.
Os números revelam o tamanho da defasagem. Consultores do mercado calculam que a gasolina vendida pelas refinarias da Petrobras está entre 10% e 19% abaixo do preço de paridade internacional, dependendo de quem faz a conta. A Stonex aponta 10%; a Abicom, que reúne importadores independentes, fala em 19%. O diesel estava numa situação semelhante antes do reajuste de hoje — estimativas indicavam uma diferença de cerca de 20%. Depois do ajuste anunciado, a defasagem no diesel deve cair para entre 11% e 12%, ainda significativa.
Luiz Carvalho, analista de petróleo e gás do UBS BB, vê o movimento com pragmatismo. O reajuste é natural e necessário, disse ele, e a decisão da Petrobras de não corrigir toda a defasagem de uma vez mostra sensatez. A empresa está sinalizando sua independência ao mesmo tempo que demonstra preocupação genuína com o abastecimento doméstico. Há uma ironia que um executivo da indústria não resistiu a mencionar: "Como diz Jack, vamos por partes."
Mas o cenário fica mais complexo quando se olha para fora. O petróleo caiu mais de 5% no dia, o que teoricamente reduziria a defasagem ainda mais. Porém, o diesel se descolou do preço do petróleo nas últimas semanas, mantendo pressão de alta. Enquanto isso, a gasolina tem maior disponibilidade no mercado internacional, o que oferece algum alívio — pelo menos por enquanto. No Brasil, há ainda um fator mitigador: o etanol pode substituir a gasolina em muitos casos, reduzindo o risco de desabastecimento doméstico, segundo Sérgio Araújo, presidente da Abicom.
O problema é que os importadores independentes continuam tendo dificuldades para trazer combustível de fora, justamente porque a defasagem persiste. Mesmo após o reajuste do diesel, a margem para importação continua apertada. Felipe Perez, da S&P Global, é direto: o reajuste resolve a situação apenas temporariamente. O Brasil precisa ficar atento ao comportamento dos Estados Unidos e à forma como as sanções à Rússia vão se desenrolar na Europa.
A Rússia fornece cerca de 25% do diesel consumido globalmente. Se a Europa cortar completamente o petróleo e combustíveis russos, o sinal de preço europeu pode puxar o diesel e a gasolina americanos para lá. As refinarias da costa do Golfo dos EUA já estão operando perto da capacidade máxima. Nesse cenário, a América Latina pode ficar dependente de fornecedores mais distantes, como Índia e China. Quem paga mais leva o produto — essa é a lógica do mercado global agora. O Brasil está observando, esperando, e provavelmente se preparando para o próximo reajuste.
Citas Notables
O reajuste é natural e necessário, e a decisão de não corrigir toda a defasagem de uma vez mostra sensatez— Luiz Carvalho, analista de petróleo e gás do UBS BB
O reajuste resolve a situação apenas temporariamente— Felipe Perez, S&P Global
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a Petrobras reajustou apenas o diesel e não a gasolina também?
Porque o diesel tinha um problema mais urgente — risco real de desabastecimento. A gasolina, embora também esteja defasada, tem mais oferta global e pode ser substituída pelo etanol aqui no Brasil. Mas é uma solução temporária.
Então a gasolina vai subir em breve?
Tudo indica que sim. Os analistas falam em defasagem de 10% a 19%. Não é sustentável manter isso indefinidamente. A questão é quando e quanto.
E se a Europa realmente cortar o diesel russo?
Aí fica complicado. Os EUA podem redirecionar sua produção para a Europa, que paga mais. A América Latina fica para trás, talvez dependendo de Índia ou China. Combustível virou mercadoria de leilão.
Os importadores independentes estão sendo prejudicados?
Muito. Eles não conseguem trazer combustível de fora porque a defasagem de preço não deixa margem. Mesmo após o reajuste do diesel, a situação continua apertada para eles.
O etanol é realmente uma saída?
Para a gasolina, sim. Muitos carros no Brasil rodam com etanol. Isso reduz o risco de desabastecimento doméstico de gasolina. Mas não resolve o problema dos importadores ou a questão estrutural dos preços.
Qual é o maior risco agora?
A geopolítica. As sanções à Rússia estão reorganizando o mercado global de combustíveis. O Brasil está preso nesse jogo, observando como os preços se movem em função de decisões tomadas do outro lado do mundo.