Lemann, Telles e Sicupira negam conhecimento sobre fraude contábil na Americanas

Milhares de empregados da Americanas enfrentam incerteza com empresa em recuperação judicial; investidores e credores sofreram prejuízos significativos.
Jamais tivemos conhecimento, nunca admiríamos manobras contábeis
Declaração dos três principais acionistas da Americanas negando envolvimento na fraude de R$ 20 bilhões.

Trio controlador nega conhecimento prévio sobre fraude contábil e afirma ter sofrido prejuízos como acionistas. Acionistas apontam responsabilidade de executivos qualificados e auditoria da PwC, questionando falta de denúncia prévia.

  • Trio controlador (Lemann, Telles, Sicupira) possui 31% da Americanas
  • R$ 20 bilhões em inconsistências contábeis reveladas em 11 de janeiro de 2023
  • Empresa entrou em recuperação judicial com dívida de R$ 43 bilhões para 16,3 mil credores
  • Quarto maior pedido de recuperação judicial da história do Brasil

Principais acionistas da Americanas afirmam desconhecimento sobre inconsistências contábeis de R$ 20 bilhões, alegando confiança em executivos e auditores. Empresa em recuperação judicial com dívida de R$ 43 bilhões.

No domingo que se seguiu ao colapso contábil da Americanas, três dos homens mais ricos do Brasil saíram do silêncio. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — donos de 31% da varejista e sócios da 3G Capital — divulgaram uma nota pública afirmando categoricamente que nunca souberam de nada. Não sabiam dos R$ 20 bilhões em inconsistências que a empresa havia revelado dez dias antes. Não sabiam que a contabilidade estava sendo manipulada. E, disseram, jamais teriam permitido tal coisa.

A declaração chegou onze dias após o anúncio da fraude, no dia 11 de janeiro, quando a Americanas tornou público que suas contas continham distorções massivas. Desde então, a empresa havia entrado em recuperação judicial — o quarto maior pedido desse tipo na história do Brasil. A dívida total alcançava aproximadamente R$ 43 bilhões, distribuída entre 16,3 mil credores. Era um desastre de proporções que poucos esperavam.

Os três acionistas argumentaram que a empresa havia sido conduzida, nos últimos vinte anos, por executivos de qualificação reconhecida e reputação intacta. Além disso, contava com a PwC, uma das maiores firmas de auditoria independente do mundo. Essa auditora, segundo eles, havia realizado regularmente procedimentos padrão de confirmação de informações junto a fontes externas — incluindo os próprios bancos que operavam com a Americanas. Nenhum desses bancos, e nem a PwC, havia denunciado qualquer irregularidade. Como, então, poderiam ter sabido?

"Assim como todos os demais acionistas, credores, clientes e empregados da companhia, acreditávamos firmemente que tudo estava absolutamente correto", afirmaram na nota. O tom era de vítimas tanto quanto de líderes. Eles também haviam sofrido prejuízos, insistiram — como acionistas, estavam entre os prejudicados. Reafirmaram seu compromisso com a recuperação da empresa e com a transparência total nas investigações que se desenrolariam.

O que a nota não mencionava era igualmente revelador. Os bancos credores vinham pressionando os três bilionários para que injetassem capital próprio na empresa, uma medida que poderia ajudar a estabilizá-la. Lemann, Telles e Sicupira não tocaram no assunto. Não ofereceram dinheiro. Não prometeram capitalização. Apenas reafirmaram seu "empenho" em trabalhar pela recuperação, focados em garantir um futuro promissor para a companhia, seus milhares de empregados, parceiros e investidores, e em chegar a um bom entendimento com os credores.

A nota também apontava para o comitê independente da empresa, que teria todas as condições de apurar os fatos por trás das inconsistências contábeis. Os acionistas mencionaram, ainda, a possibilidade de avaliar uma eventual "quebra de simetria no diálogo entre os auditores e as instituições financeiras" — uma sugestão velada de que talvez os bancos soubessem de algo que a PwC não sabia, ou vice-versa.

No sábado anterior, um dia antes da nota dos acionistas, a Americanas havia divulgado que suas operações não haviam sido afetadas por restrições de caixa. Segundo Marcio Chaer, diretor de operações e relacionamento com o consumidor, não houve alteração na demanda dos clientes, na oferta de produtos ou no fluxo de pagamentos. A empresa continuava funcionando, apesar do caos nos números.

O que restava era uma empresa centenária em ruínas, milhares de empregados em incerteza, investidores e credores com prejuízos significativos, e três bilionários insistindo que não tinham culpa. A investigação independente começaria em breve. Os credores continuariam pressionando. E a Americanas seguiria em recuperação judicial, tentando encontrar um caminho de volta.

Assim como todos os demais acionistas, credores, clientes e empregados da companhia, acreditávamos firmemente que tudo estava absolutamente correto
— Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira
Lamentamos profundamente as perdas sofridas pelos investidores e credores, lembrando que, como acionistas, fomos alcançados por prejuízos
— Os três acionistas
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que esses três acionistas esperaram onze dias para falar publicamente?

Model

Provavelmente consultaram advogados. Uma declaração precipitada poderia ser usada contra eles. Mas o silêncio também gera suspeita, então em algum ponto precisavam se defender.

Inventor

Eles realmente não sabiam? É possível que três bilionários não soubessem de R$ 20 bilhões em fraude?

Model

Depende de como a empresa era governada. Se delegaram completamente a gestão a executivos e confiaram cegamente na auditoria, é teoricamente possível. Mas é também a defesa mais óbvia que alguém nessa posição diria.

Inventor

E a PwC? Como uma auditoria de classe mundial não detectou isso?

Model

Essa é a pergunta que vai perseguir essa história. A PwC fez seus procedimentos padrão — circulares com bancos, verificações externas. Se os bancos não denunciaram nada, como a auditora saberia? A menos que os bancos também estivessem sendo enganados.

Inventor

Os acionistas mencionam que também sofreram prejuízos. Isso muda algo?

Model

Muda a narrativa deles, mas não necessariamente a realidade. Sim, perderam dinheiro como acionistas. Mas têm recursos que credores e empregados não têm. A questão é se vão usar esses recursos para ajudar a recuperar a empresa.

Inventor

Por que não ofereceram capitalizar a empresa?

Model

Porque capitalizar significa colocar dinheiro novo em um buraco que pode ser muito maior do que parece. Eles estão esperando para ver o tamanho real do estrago antes de comprometer mais capital.

Inventor

O que o comitê independente vai encontrar?

Model

Tudo depende de quem está nesse comitê e de quanto acesso realmente têm. Se for genuinamente independente, pode descobrir se havia negligência, conluio ou apenas incompetência monumental. Se for um comitê de fachada, não descobrirá nada.

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