A credibilidade que levou décadas desmoronou em semanas
Por décadas, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira ergueram um dos legados empresariais mais respeitados do mundo — da Ambev à Kraft Heinz, sob a égide da 3G Capital. Mas em janeiro de 2023, o colapso da Lojas Americanas, com vinte bilhões de reais em dívidas ocultas, expôs como a reputação que protegia o trio também pode ter impedido o escrutínio necessário. O escândalo levanta uma questão mais ampla sobre os limites da confiança no mercado: quando a credibilidade de poucos substitui a vigilância de todos, o risco se acumula em silêncio.
- Vinte bilhões de reais em dívidas não registradas vieram à tona de uma só vez, derrubando a Americanas em recuperação judicial e chocando um mercado que havia ignorado sinais de alerta por anos.
- Bancos credores, convictos de fraude, preparam ações criminais contra o trio e exigem uma injeção de dez a quinze bilhões de reais — mais do dobro dos seis bilhões que Lemann, Telles e Sicupira se dispuseram a oferecer.
- A reputação blindava: gestores questionavam as contas da varejista há tempos, mas a estatura dos controladores inibia pressões mais profundas, criando uma zona de silêncio ao redor dos problemas.
- Não é a primeira vez — a Kraft Heinz foi multada pela SEC por má conduta contábil e a América Latina Logística republicou três anos de balanços; em todos os casos, os problemas estavam na linha de fornecedores.
- O mercado brasileiro e internacional aguarda a decisão do trio nas próximas semanas: o volume de recursos que injetarem será lido como o verdadeiro termômetro de sua responsabilidade — e da sobrevivência da empresa.
Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira construíram juntos, desde os anos 1970, um dos legados empresariais mais admirados do Brasil e do mundo. Do Banco Garantia à Ambev, do Burger King à Kraft Heinz, o trio transformou empresas mal geridas em gigantes globais sob a marca 3G Capital. Em 2022, os três somavam mais de cento e cinquenta bilhões de reais em patrimônio. Mas em janeiro de 2023, a Lojas Americanas entrou em recuperação judicial revelando vinte bilhões de reais em dívidas que jamais haviam sido registradas nos balanços — e décadas de reputação começaram a desmoronar em semanas.
O mercado admite, em retrospecto, que os sinais existiam. Gestores de recursos questionavam há tempos por que a despesa financeira da varejista não fechava, por que a empresa raramente gerava caixa suficiente e precisava quase todo ano de novos aportes de capital. Mas ninguém pressionou a fundo. A lógica era simples: homens daquela estatura dificilmente deixariam passar falhas graves, e se as houvesse, teriam meios de corrigi-las. A reputação funcionava como escudo — e, ao mesmo tempo, como véu.
O padrão não era inédito. A Kraft Heinz foi multada pela SEC por má conduta contábil. A América Latina Logística, investida via GP Investimentos, precisou republicar três anos de balanços em 2016. Em ambos os casos, assim como na Americanas, os problemas se concentravam na linha de fornecedores. O principal efeito da manobra contábil na varejista foi inflar artificialmente os lucros — sem ela, a empresa sequer entregava resultados mediocres.
Agora, os bancos credores exigem que o trio assuma responsabilidade concreta: uma injeção de dez a quinze bilhões de reais para viabilizar a recuperação da empresa. O trio respondeu com uma oferta de seis bilhões e sem urgência aparente. Nos próximos meses, a decisão que tomarem será lida pelo mercado brasileiro e internacional não apenas como um gesto financeiro, mas como o verdadeiro epílogo de uma narrativa de sucesso que, pela primeira vez, enfrenta um teste que o dinheiro sozinho talvez não resolva.
O trio que construiu impérios globais enfrenta agora seu maior teste de credibilidade. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, os três homens mais ricos do Brasil e arquitetos de uma das histórias de sucesso empresarial mais admiradas do país, veem sua reputação abalada pelo escândalo contábil da Lojas Americanas, onde vinte bilhões de reais em dívidas deixaram de ser registrados nos balanços da empresa.
Por quase cinco décadas, o mercado brasileiro e internacional olhou para esses três investidores com respeito. Juntos desde os anos 1970, quando criaram o Banco Garantia e ajudaram a estruturar o mercado financeiro brasileiro, eles construíram um legado que atravessou continentes. A Brahma virou Ambev e depois AB InBev, dominando o mercado global de cervejas. O Burger King caiu sob seu controle em 2010. A Kraft Heinz, comprada em 2013 com o apoio do megainvestidor Warren Buffett, expandiu seu alcance. Tudo isso sob a marca 3G Capital, o veículo de investimentos que se tornou sinônimo de reestruturação agressiva e resultados rápidos. Em 2022, Lemann aparecia como o homem mais rico do Brasil com setenta e dois bilhões de reais, seguido por Telles em terceiro lugar com quarenta e oito bilhões e Sicupira em quarto com trinta e nove bilhões e oitenta e cinco milhões.
Mas a credibilidade que levou décadas para ser construída desmoronou em semanas. Quando a Americanas entrou em recuperação judicial em janeiro de 2023, os bancos credores não se mostraram dispostos a negociar ou esperar. Convictos de que houve fraude, já preparavam ações criminais contra o trio. O mercado, que havia fechado os olhos para sinais de alerta durante anos, agora questionava tudo. Gestores de recursos levantavam dúvidas há tempos sobre as contas da varejista: a despesa financeira não batia, a empresa não gerava caixa suficiente e quase todo ano precisava de aumentos de capital. Mas ninguém havia pressionado a fundo, em parte porque a reputação blindava o trio. Na lógica do mercado, seria improvável que homens daquela estatura deixassem passar falhas graves, e se elas ocorressem, teriam recursos mais que suficientes para resolvê-las.
A história do trio revela como a filosofia de negócios que os tornou bem-sucedidos pode ter criado as condições para o desastre. Lemann, aos oitenta e três anos, carioca filho de mãe brasileira e pai suíço, estudou economia em Harvard em 1957, época em que poucos brasileiros frequentavam a universidade. Lá absorveu as teses que permeiam seus negócios: meritocracia rigorosa e sistema de participação acionária para funcionários que se destacam. Telles, aos setenta e dois, começou no Garantia em 1972 e logo comandava a mesa de operações. Sicupira, aos setenta e quatro, chegou em 1973, apresentado por outro sócio. Os três praticavam pesca submarina, o que os aproximou ainda mais. Quando o Garantia sucumbiu em 1998, exposto demais a títulos de dívida externa durante a crise da Ásia e da Rússia, o trio mudou de estratégia. Deixaram o setor financeiro e passaram a comprar empresas mal geridas com potencial de reestruturação.
Essa abordagem funcionou espetacularmente no exterior, mas na Americanas, onde o trio manteve controle praticamente durante todo o período em que o escândalo contábil acontecia, algo deu errado. Mesmo após reduzir sua fatia para trinta por cento em uma reestruturação societária, os três mantêm maioria no conselho, com Sicupira como membro. O que se diz entre assessores financeiros é que ninguém fazia nada na Americanas sem consultar o trio. Os problemas contábeis não eram novidade: a América Latina Logística, investida via GP Investimentos, republicou três anos de balanços em 2016 após ser adquirida pela Rumo. A Kraft Heinz foi multada pela SEC por má conduta contábil. Em ambos os casos, assim como na Americanas, os problemas estavam na linha de fornecedores.
Agora os bancos credores exigem que os bilionários se responsabilizem pela crise, pedindo uma injeção de dez a quinze bilhões de reais para salvar a empresa. O trio respondeu oferecendo seis bilhões e sem pressa aparente. Na recuperação judicial, se comprometeram a injetar recursos para que a Americanas continue funcionando, mas não especificaram quanto. O principal efeito da manobra contábil foi inflar os lucros da empresa. Sem ela, nem resultados medianos a varejista conseguia entregar.
O desfecho agora depende de uma decisão que revelará muito sobre o trio. Investidores se perguntam se eles vão injetar recursos significativos para manter sua reputação e legado, o que seria o principal sinal da viabilidade da Americanas. A resposta que derem nos próximos meses será observada de perto não apenas pelo mercado brasileiro, mas pelos investidores internacionais que ajudaram a construir a narrativa de sucesso que agora está em xeque.
Citas Notables
Ninguém levou essa discussão a fundo, em parte por causa da reputação e do patrimônio do trio de sócios bilionários— Gestor de recursos anônimo
O que se diz entre assessores financeiros é que ninguém fazia nada na Americanas sem consultar o trio— Assessores financeiros
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como três homens que construíram impérios globais deixam vinte bilhões de reais desaparecerem de um balanço?
Não desapareceram de repente. Os sinais estavam lá há anos: a empresa não gerava caixa, precisava de aumentos de capital todo ano, as despesas financeiras não batiam. Mas ninguém pressionou porque a reputação do trio criava uma blindagem invisível.
Que tipo de blindagem?
A ideia de que homens daquela estatura, com aquele histórico, não permitiriam falhas graves. E se elas ocorressem, teriam recursos para resolver. Isso tranquilizava os investidores, então ninguém fazia perguntas difíceis.
Mas eles estavam no controle durante todo esse período?
Praticamente todo. Mesmo depois de reduzir a fatia para trinta por cento, mantêm maioria no conselho. O que se diz é que ninguém fazia nada na Americanas sem consultar o trio.
Então como explicam a oferta de apenas seis bilhões quando os bancos pedem dez a quinze?
Essa é a pergunta que o mercado está fazendo agora. Se eles injetarem o valor que os credores exigem, é um sinal de que acreditam na viabilidade da empresa e querem preservar o legado. Se não injetarem, fica a dúvida sobre o que realmente sabiam e quando sabiam.
A filosofia de negócios deles contribuiu para isso?
Talvez. Meritocracia rigorosa e cortes agressivos de custos geram resultados rápidos, mas podem criar pressão excessiva e visão de curto prazo. Na Kraft Heinz e na América Latina Logística, problemas similares apareceram depois que o trio as reestruturou.
Qual é o legado que está em jogo?
Cinco décadas de construção de credibilidade. De homens que ajudaram a estruturar o mercado financeiro brasileiro e depois dominaram mercados globais. Tudo isso pode ser redefinido por como eles respondem agora.