Ser jornalista é ser um curioso crónico
Há profissões que se exercem e há profissões que se habitam. Amélia Moura Ramos, jornalista da SIC, pertence à segunda categoria: dorme em beliches de pescadores, desce a submarinos e entra em cofres de droga apreendida não por espetáculo, mas por uma convicção profunda de que a verdade de uma história só se alcança vivendo-a por dentro. O seu percurso é um retrato do jornalismo como vocação de curiosidade permanente — aquela que nunca se esgota quando encontra uma resposta, mas que se aprofunda.
- Numa era de jornalismo à distância, Amélia recusa o telefone e a fonte oficial como únicos instrumentos — e mergulha fisicamente nas realidades que cobre.
- Dezasseis horas num arrastão de pesca, um submarino, um cofre de droga, homens que falam em verso nas ruas: cada história exige que ela esteja lá, de corpo e espírito.
- A tensão entre autenticidade e comodidade define a sua escolha: dormir num carro à espera do amanhecer é o preço — e o privilégio — de contar histórias verdadeiras.
- O que emerge não é apenas um perfil de jornalista, mas um sinal de uma tendência crescente: a reportagem participativa que busca a textura da vida, não apenas os seus factos.
Amélia Moura Ramos dorme em beliches de pescadores. Passa dezasseis horas a bordo de uma traineira em Aveiro, observa tripulações, desce a submarinos, entra no cofre da Polícia Judiciária onde a droga apreendida fica guardada. Conhece homens que viveram metade das suas vidas presos e outros que falam apenas em verso nas ruas do Torrão. Dorme dentro de um carro à espera de filmar o amanhecer.
Esta não é a abordagem convencional. Não é a do repórter que trabalha ao telefone ou que depende de fontes oficiais. É a do jornalista que entra dentro da história — que a vive, que a respira, que aceita convites para lugares estranhos com pessoas desconhecidas porque acredita que só assim se compreende verdadeiramente o que se está a contar.
O motor de tudo é a curiosidade. Não a passageira, que se apaga quando encontra resposta, mas a crónica — aquela que nunca se satisfaz completamente e que sempre quer saber mais. Para Amélia, satisfazer essa curiosidade não é apenas um método: é a razão pela qual escolheu ser jornalista e aquilo que a faz feliz.
O seu percurso aponta para algo mais amplo no jornalismo contemporâneo: uma procura crescente por autenticidade, por histórias não apenas contadas mas vividas, por uma recusa em aceitar a distância entre o repórter e o reportado. A verdade, na sua visão, reside também no balanço do barco, nas vozes dos homens e no ritmo da vida que se documenta.
Amélia Moura Ramos dorme em beliches de pescador. Passa dezasseis horas seguidas a bordo de uma traineira, observando a tripulação do mestre Vítor Santos enquanto as redes são lançadas e recolhidas das águas de Aveiro. Desce aos compartimentos apertados de um submarino. Entra no cofre da Polícia Judiciária onde a droga apreendida fica guardada sob vigilância. Conhece homens que passaram metade das suas vidas presos, e outros que falam apenas em verso nas ruas do Torrão. Dorme dentro de um carro à espera de filmar o amanhecer. Marca encontros com pessoas que nunca viu, em lugares que só lhe são revelados nos últimos minutos antes do encontro.
Esta é a forma como Amélia Moura Ramos trabalha. Não é uma abordagem convencional ao jornalismo. Não é a do repórter que fica atrás de um telefone ou que recolhe informações de fontes oficiais. É a do jornalista que entra dentro da história, que vive a história, que dorme e come e respira a história enquanto a está a contar.
O que a move é simples: a curiosidade. Não a curiosidade passageira, aquela que passa quando se encontra a resposta. A curiosidade crónica. A que nunca se satisfaz completamente, a que sempre quer saber mais, a que a leva a aceitar convites para lugares estranhos com pessoas desconhecidas. A que a faz acreditar que a única forma verdadeira de compreender uma história é vivê-la.
Esta abordagem — a de mergulhar completamente nas realidades que cobre — revela algo sobre o jornalismo contemporâneo. Há uma procura crescente por autenticidade, por histórias que não sejam apenas contadas mas vividas. Há uma recusa em aceitar a distância entre o repórter e o reportado. Há uma convicção de que a verdade de uma história reside não apenas nos factos que se conseguem apurar, mas na experiência de estar lá, de sentir o balanço do barco, de ouvir as vozes dos homens, de compreender o ritmo e a textura da vida que se está a documentar.
Para Amélia, satisfazer a curiosidade não é apenas um método de trabalho. É aquilo que a faz feliz. É a razão pela qual escolheu ser jornalista. Porque ser jornalista, na sua visão, é ser um curioso crónico — alguém que nunca para de fazer perguntas, que nunca deixa de querer saber, que está sempre disposto a dormir num carro ou a passar dezasseis horas num barco se isso significar que vai compreender melhor a história que precisa de contar.
Citações Notáveis
Satisfazer a curiosidade faz-me feliz e ser jornalista é ser um curioso crónico— Amélia Moura Ramos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como é que se decide dormir num carro para filmar um amanhecer? Parece um sacrifício enorme.
Não é sacrifício se é aquilo que realmente quer fazer. O amanhecer é um momento. Se não estiver lá, não o vejo. Se não o vejo, não posso contá-lo como deve ser contado.
E os encontros com desconhecidos em locais revelados no último minuto? Não tem medo?
Medo de quê? De não saber o que vou encontrar? Isso é exatamente o ponto. A incerteza é onde a história vive.
Dezasseis horas num barco de pesca. O que aprendeu nessas horas que não teria aprendido de outra forma?
O cansaço. O ritmo. A forma como os homens falam quando estão cansados, quando estão concentrados, quando estão à espera. Nenhuma entrevista no escritório me teria dado isso.
Parece que para si, ser jornalista é quase uma forma de estar no mundo.
É. Ser curioso cronicamente significa que nunca deixo de fazer perguntas. Significa que estou sempre disposta a ir mais longe, a descer mais fundo, a ficar mais tempo. É a única forma que conheço de contar histórias verdadeiras.