Genética, psicologia e ambiente explicam por que alguns têm dificuldade em matemática

A ansiedade não apenas torna a matemática mais difícil
Pesquisadores mostram como pensamentos ansiosos ocupam espaço mental necessário para resolver problemas.

A capacidade matemática não é um dom reservado a poucos eleitos, mas o resultado de uma conversa contínua entre genes, experiências e o ambiente que cada pessoa habita. Pesquisadores de genética, psicologia e neurociência convergem para uma conclusão que desafia tanto o fatalismo quanto a ingenuidade: a biologia abre portas, mas é o mundo ao redor — e a forma como nos relacionamos com ele — que decide se essas portas serão atravessadas. O que está em jogo não é apenas o desempenho escolar, mas a crença, cultivada ou destruída desde cedo, de que aprender é possível.

  • A ansiedade matemática não é apenas desconforto emocional — ela sequestra a memória de trabalho e torna o cérebro menos capaz de processar qualquer problema, criando um ciclo que se autoalimenta.
  • Cerca de 5% da população tem discalculia, uma dificuldade tão prevalente quanto a dislexia, mas que ainda recebe muito menos atenção e intervenção precoce nos sistemas educacionais.
  • Genes explicam entre 50% e 60% da variação em habilidade matemática, mas o ambiente — incluindo conversas casuais, professores e crenças transmitidas — molda o restante de forma decisiva.
  • Países como Finlândia e China demonstram que valorizar a formação docente e garantir fundamentos sólidos para todos transforma o desempenho coletivo em matemática.
  • A trajetória aponta para intervenções precoces, ambientes de aprendizagem sem lacunas e uma mudança cultural que substitua a crença de incapacidade pela convicção de que todos podem melhorar.

Um enigma sobre animais numa fazenda — ovelhas, cabras e cavalos — serve de porta de entrada para uma questão muito maior: por que a matemática parece fluir naturalmente para alguns enquanto outros travam diante dela? A resposta, segundo pesquisadores de genética e psicologia, é que não existe uma causa única.

Yulia Kovas, da Universidade Goldsmiths em Londres, acompanhou cerca de dez mil pares de gêmeos para mapear a influência de genes e ambiente na habilidade matemática. Gêmeos idênticos são consistentemente mais parecidos nessa habilidade do que gêmeos não idênticos, o que confirma o peso da genética — responsável por 50% a 60% da variação observada. Mas o restante vem do mundo exterior: da escola, das experiências vividas, até de uma conversa ouvida por acaso que redireciona interesses. Biologia e ambiente não competem; eles colaboram.

Essa colaboração pode ser sabotada pela ansiedade matemática. Iro Xenidou-Dervou, da Universidade de Loughborough, descreve como experiências negativas — uma nota baixa, um comentário sobre incapacidade — disparam um ciclo vicioso em que a evitação gera mau desempenho, que por sua vez intensifica a ansiedade. Pior: os pensamentos ansiosos ocupam espaço na memória de trabalho, deixando menos capacidade disponível para resolver problemas. Estudos com crianças de nove e dez anos confirmam que a ansiedade prejudica especialmente quando a mente já está sobrecarregada.

Para alguns, a barreira é ainda mais profunda. Brian Butterworth, do University College London, estuda a discalculia — uma dificuldade específica com números e quantidades que afeta cerca de 5% da população, tanto quanto a dislexia. Pessoas com discalculia tropeçam em operações básicas e precisariam de intervenção precoce e acompanhamento prolongado, algo que os sistemas educacionais raramente oferecem.

A matemática exige continuidade: cada lacuna compromete o que vem depois, como tijolos faltando numa parede. Os países que lideram os rankings internacionais — China e Finlândia — entenderam isso. A China foca em fundamentos e valoriza professores que ensinam poucas aulas por dia para se preparar melhor. A Finlândia exige cinco anos de formação acadêmica para docentes e tem dez candidatos por vaga nos cursos de magistério. Em ambos os casos, o respeito pela profissão docente é parte central do modelo.

A conclusão dos pesquisadores é ao mesmo tempo simples e exigente: todos podem melhorar em matemática. O que é necessário é acreditar nisso — e ter acesso a um ambiente que construa os fundamentos sem pressa e sem lacunas.

Um fazendeiro tem três tipos de animais. Todos são ovelhas, exceto três. Todos são cabras, exceto quatro. Todos são cavalos, exceto cinco. Quantos de cada? A resposta — um cavalo, duas cabras, três ovelhas — parece simples quando você a conhece. Mas para muitas pessoas, esse tipo de problema permanece opaco, frustrante, impenetrável. A pergunta que importa não é por que o enigma é difícil. É por que a matemática em geral parece vir com facilidade para alguns enquanto outros lutam contra ela como se estivessem nadando contra a corrente.

A resposta, segundo pesquisadores que estudam cognição e aprendizagem, não é singular. Yulia Kovas, geneticista e psicóloga da Universidade Goldsmiths em Londres, acompanhou cerca de dez mil pares de gêmeos idênticos e não idênticos desde o nascimento para mapear como fatores genéticos e ambientais moldam a capacidade matemática. O que ela descobriu é que gêmeos idênticos são consistentemente mais semelhantes em habilidade matemática do que gêmeos não idênticos — o que sugere que os genes importam. Mas não importam sozinhos. No ensino médio e na vida adulta, o componente genético explica algo entre 50% e 60% da variação em habilidade matemática. O resto vem de outro lugar: do mundo ao seu redor.

Esse mundo é mais amplo do que a maioria imagina. Não se trata apenas de qualidade escolar ou ajuda com lição de casa. Pode ser algo tão aleatório quanto uma conversa ouvida no rádio que redireciona seus interesses, ou a forma como seus genes predispõem você a buscar certos estímulos em vez de outros. O ambiente molda quem você se torna, mas sua biologia influencia qual ambiente você procura. Eles trabalham juntos.

Mas há um fator psicológico que pode desmantelar tudo isso: a ansiedade matemática. Iro Xenidou-Dervou, que pesquisa cognição matemática na Universidade de Loughborough, descreve como experiências negativas — ouvir que você é ruim em matemática, tirar uma nota mais baixa que seus colegas — criam um ciclo vicioso. A ansiedade leva à evitação. A evitação leva a desempenho ruim. O desempenho ruim alimenta mais ansiedade. E enquanto isso acontece, seus pensamentos ansiosos ocupam o espaço precioso da sua memória de trabalho, deixando pouco espaço para resolver o problema em questão. Um estudo com crianças de nove e dez anos mostrou que aquelas com alta ansiedade matemática tiveram desempenho particularmente prejudicado quando suas mentes já estavam ocupadas com outra tarefa — como reter e depois recordar palavras. A ansiedade não apenas torna a matemática mais difícil. Ela torna seu cérebro menos capaz de processar qualquer coisa.

Algumas pessoas enfrentam uma barreira ainda mais fundamental. Brian Butterworth, neuropsicólogo cognitivo da University College London, estuda o que chama de senso inato para números — uma capacidade que até crianças não ensinadas a contar parecem possuir. Para algumas pessoas, esse mecanismo simplesmente não funciona bem. A discalculia, uma dificuldade de aprendizagem específica relacionada à compreensão de números e quantidades, afeta cerca de 5% da população — tão prevalente quanto a dislexia. Pessoas com discalculia têm dificuldade com aritmética básica: cinco vezes oito, seis mais dezesseis. Butterworth e sua equipe desenvolveram um jogo que ajuda crianças com aritmética básica, especialmente aquelas com discalculia, mas ainda não está claro qual é o impacto duradouro. O que seria necessário, ele diz, é intervir cedo e depois acompanhar essas crianças ao longo dos anos.

A matemática é diferente de outras disciplinas porque não permite pulos. Xenidou-Dervou a compara à construção de um muro mental de tijolos: você precisa de uma base sólida para avançar. Em história, você pode não conhecer bem um período específico e tudo bem. Em matemática, isso não é possível. Cada lacuna se torna um problema para tudo que vem depois.

Os países que melhor ensinam matemática parecem ter compreendido isso. Pesquisas internacionais do início dos anos 2000 mostraram que estudantes chineses e de outros países do Leste Asiático, junto com a Finlândia, lideravam os rankings globais. A China concentra seu ensino em conhecimentos básicos, habilidades básicas, experiências matemáticas básicas e pensamento matemático básico. Os professores são muito respeitados e ensinam apenas uma ou duas aulas por dia, o que lhes permite tempo para preparar e aprimorar suas aulas. Na Finlândia, a filosofia educacional sempre foi garantir habilidades básicas para todos. Os professores recebem cinco anos de formação acadêmica, e há dez candidatos para cada vaga disponível nos cursos de formação docente — um reflexo do respeito que a profissão recebe.

A boa notícia é que todos podem melhorar sua capacidade matemática. Não é preciso ser um gênio inato. O que é preciso é acreditar que você pode melhorar, e depois ter acesso a um ambiente — uma escola, um professor, uma comunidade — que o ajude a construir aquele muro de tijolos, um por um, sem pressa, sem lacunas.

Você realmente não pode pular etapas no domínio da matemática
— Iro Xenidou-Dervou, pesquisadora de cognição matemática
Genes e ambientes são ambos importantes
— Yulia Kovas, geneticista e psicóloga
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que alguns países conseguem ensinar matemática tão bem quando outros não?

Model

Parece que tem a ver com como eles tratam os fundamentos e os professores. Na China e na Finlândia, não há pressa em pular etapas. Os professores têm tempo para preparar aulas bem. E são respeitados — realmente respeitados — o que atrai pessoas boas para a profissão.

Inventor

Mas se a genética explica metade da habilidade matemática, não estamos limitados por nossos genes?

Model

Não. Cinquenta por cento é significativo, mas significa que o outro cinquenta por cento vem de tudo mais — como você foi criado, o que ouviu, se alguém te disse que você era ruim em matemática. Seus genes abrem portas, mas o ambiente decide se você entra.

Inventor

E a ansiedade? Como ela prejudica tanto?

Model

Quando você está ansioso, seus pensamentos ansiosos ocupam espaço na sua memória de trabalho — o lugar onde você realmente pensa. Sobra pouco para resolver o problema. É como tentar dirigir enquanto alguém grita dentro do carro.

Inventor

Então se alguém tem discalculia, está condenado?

Model

Não. Há intervenções que ajudam. Mas precisam começar cedo e continuar. O que falta é acompanhamento de longo prazo para saber se essas intervenções realmente mudam a trajetória de uma criança.

Inventor

O que você diria para alguém que acha que é naturalmente ruim em matemática?

Model

Que a matemática não é um dom que você tem ou não tem. É um muro que você constrói, tijolo por tijolo. Se você pulou alguns tijolos, pode voltar e colocá-los. Mas precisa de alguém que acredite que você consegue.

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