Enquanto o Congresso não tiver garantias, o governo não deve esperar nada de graça
Alcolumbre eleito com apoio de Bolsonaro promete tratar Lula sem intermediários, mas governo desconfia de suas lealdades divididas entre PT e PL. Senador controla distribuição bilionária de emendas parlamentares e já indicou dois ministros, usando poder orçamentário como moeda de troca política.
- Alcolumbre eleito com terceira maior votação da história do Senado
- Controla distribuição bilionária de emendas parlamentares
- Indicou dois ministros e lista de cargos de segundo, terceiro e quarto escalões
- Primeiro mandato: 2019 a 2021; segundo mandato: 2025-2027
Davi Alcolumbre assume presidência do Senado com terceira maior votação histórica, prometendo pacificação mas deixando claro que defenderá interesses do Congresso. Governo Lula desconfia de suas intenções, sabendo que ele busca manter apoio da oposição e controle sobre emendas orçamentárias.
Davi Alcolumbre subiu à presidência do Senado no sábado com a terceira maior votação da história da instituição, carregando consigo promessas de pacificação e construção de pontes entre os poderes. Mas logo deixou claro aos colegas que sua lealdade primeira é ao Congresso, não ao governo ou à oposição. Eleito com o apoio explícito de Bolsonaro e já de olho na reeleição em 2027, o senador pelo Amapá sabe que precisa manter ambos os lados satisfeitos — e isso preocupa o Planalto.
No Palácio do Planalto, a desconfiança não é disfarçada. Integrantes do governo Lula reconhecem que Alcolumbre voltou ao cargo com uma agenda própria, e que ele não hesitará em cobrar o preço por sua cooperação. Um senador próximo ao novo presidente do Senado foi direto: o sucesso do governo no Congresso dependerá inteiramente da capacidade de Lula conversar com Alcolumbre sem intermediários. O recado é claro — quem quer algo do Senado agora negocia diretamente com o presidente.
Alcolumbre tentou acalmar os ânimos em conversa com Jaques Wagner, líder do governo no Senado. Argumentou que em seu primeiro mandato, de 2019 a 2021, não atrapalhou Bolsonaro porque não cabia a ele dificultar o trabalho de quem tinha ganho a eleição. Agora, prosseguiu, quem ganhou foi Lula, então o governo teria sua agenda respeitada. O recado foi reforçado publicamente no sábado: nenhum senador teria autoridade para atrapalhar a agenda presidencial. Mas o governo sabe que as palavras de Alcolumbre valem o que ele conseguir extrair em troca.
O senador não tem pudores em dizer o que quer — e seus desejos são volumosos. Ele é padrinho da indicação de dois ministros e controla uma fatia bilionária do Orçamento através das emendas parlamentares, ferramenta que ajudou a estabelecer durante seu primeiro mandato com aval de Bolsonaro. Hoje, o controle sobre essas emendas é motivo de batalha entre Congresso e Supremo Tribunal Federal. Uma pessoa próxima a Alcolumbre foi além: enquanto o Congresso não tiver garantias de que manterá poder sobre esse dinheiro, o governo não deve esperar nada de graça do Senado. Nem mesmo investigações da Polícia Federal contra seu partido, União Brasil, parecem capaz de mudar sua postura.
O estilo de Alcolumbre ficou marcado durante sua gestão à frente da Comissão de Constituição e Justiça, de 2021 a 2024. Lá estabeleceu um mantra: vota-se tudo, e quem tem voto leva. A comissão aprovou propostas controversas como castração química para estupradores e legalização de cassinos. Mas o mantra não o impediu de explorar o poder do cargo — em 2021, deixou André Mendonça, indicado de Bolsonaro para o Supremo, esperando quatro meses para ser sabatinado. Na campanha para voltar à presidência do Senado, reciclou o mantra: com Bolsonaro, deixou claro que não se oporia a nada; com Lula, disse que não tinha compromisso com anistia aos golpistas do 8 de janeiro.
O governo conta com alguns fatores para manter Alcolumbre sob controle. As duas principais comissões do Senado — Constituição e Justiça, e Assuntos Econômicos — ficarão nas mãos de Otto Alencar e Renan Calheiros, ambos próximos ao Planalto. Além disso, aliados de Lula acreditam que Alcolumbre não buscará o rompimento enquanto a popularidade do presidente se manter razoável. Mas também não deixará de jogar confete para a oposição quando achar conveniente. A oposição, por sua vez, promete fazer barulho presidindo a Comissão de Segurança Pública com Flávio Bolsonaro, marcando posição contra Lula em um dos temas mais sensíveis para a população.
Senadores ouvidos pela Folha descrevem Alcolumbre como mais calibrado, experimentado e equilibrado em seu segundo mandato. É mais informal, direto e expansivo que seu antecessor Rodrigo Pacheco, menos disciplinado mas cumpridor de acordos. Alguns brincam que parece um vereador — o que não é dito como crítica. Alcolumbre também prometeu resolver um ponto de incômodo do Senado: a perda de poderes para a Câmara. Disse que conversará com Hugo Motta sobre o rito das medidas provisórias, suspenso por Arthur Lira, e defenderá a instituição. O que fica claro é que seu segundo mandato será menos sobre pacificação e mais sobre transação — cada acordo terá seu preço, e Alcolumbre sabe exatamente quanto cobrar.
Citações Notáveis
Nenhum senador, nenhuma senadora, tem autoridade de atrapalhar a agenda do governo. O governo terá sua agenda totalmente respeitada— Davi Alcolumbre, após eleição para presidência do Senado
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo Lula desconfia tanto de Alcolumbre se ele prometeu respeitar a agenda presidencial?
Porque promessas são baratas. Alcolumbre foi eleito com apoio de Bolsonaro e precisa manter esse apoio para se reeleger em 2027. O governo sabe que ele vai honrar a promessa enquanto isso for conveniente, mas não vai deixar de cobrar um preço alto por cada concessão.
Qual é esse preço?
Controle sobre as emendas parlamentares. É uma fatia bilionária do Orçamento que Alcolumbre ajudou a criar e que agora está em disputa com o Supremo. Enquanto o Congresso não tiver garantias de que mantém esse poder, Alcolumbre não vai dar nada de graça.
Mas ele não está investigado pela Polícia Federal?
Seu partido está. Mas Alcolumbre não é citado diretamente, e mesmo que fosse, isso não parece mudar sua postura. Ele já mostrou que está disposto a negociar com qualquer um — é uma questão de preço.
Como o governo pode lidar com isso?
Conversando diretamente com ele, sem intermediários. E mantendo as comissões principais nas mãos de aliados. Mas a verdade é que Alcolumbre tem poder real — controla dinheiro, controla votos. O governo vai precisar aprender a negociar.
E a oposição? O que ela ganha com tudo isso?
Espaço para desgastar o governo em um ano decisivo para a próxima eleição. Alcolumbre prometeu que a oposição teria o que quisesse, e ele cumpre seus acordos. Mas não por altruísmo — porque precisa deles para se reeleger.