Alcolumbre, o negociador de cargos e emendas que quer emplacar Pacheco no STF

Quando menos se espera, Davi aparece e depois some
Como um colega descreve a capacidade de Alcolumbre de estar presente em todos os lugares simultaneamente.

Alcolumbre apresentou a Lula uma contabilidade preocupante sobre a indicação de Messias ao STF, mas o presidente mantém sua decisão tomada. O senador do Amapá conseguiu autorização do Ibama para exploração de petróleo na Margem Equatorial em troca de adiar votação sobre vetos ambientais.

  • Alcolumbre apresentou a Lula uma contabilidade preocupante sobre a indicação de Messias ao STF na noite de 20 de outubro
  • Ibama autorizou exploração de petróleo na Margem Equatorial, região que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte
  • Alcolumbre teria adiado votação sobre 63 vetos presidenciais à Lei do Licenciamento Ambiental até depois da COP-30 em Belém
  • Ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin apoiam Pacheco para o STF
  • Em 2021, Alcolumbre travou por mais de quatro meses a sabatina de André Mendonça

O presidente do Senado Davi Alcolumbre negocia intensamente com Lula sobre cargos, emendas e a indicação de um ministro ao STF, enquanto trabalha para emplacar Rodrigo Pacheco na Corte em vez de Jorge Messias.

Na noite de 20 de outubro, o presidente do Senado Davi Alcolumbre entrou no Palácio da Alvorada com uma missão clara: convencer Luiz Inácio Lula da Silva a reconsiderar sua escolha para a próxima vaga no Supremo Tribunal Federal. Lula já havia decidido indicar Jorge Messias, o advogado-geral da União. Alcolumbre apresentou números que o preocupavam. Mas o presidente foi direto: a decisão estava tomada, embora ainda conversasse com Rodrigo Pacheco, o senador que Alcolumbre preferia ver na Corte e que Lula cogitava lançar como candidato ao governo de Minas Gerais. Quando Alcolumbre saiu do Alvorada naquela noite, não sabia se acordaria com um anúncio oficial da indicação de Messias. Lula embarcou para a Ásia sem fazer nenhum comunicado público, deixando a questão em suspenso.

Mas a semana começou bem para o senador do Amapá. Na mesma segunda-feira, o Ibama autorizou a Petrobras a explorar petróleo na Margem Equatorial, uma região que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte. A decisão encerrava uma batalha que durava anos dentro do governo. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, havia se oposto firmemente à exploração na foz do Rio Amazonas, mas Lula apoiava o projeto. Segundo quatro interlocutores do presidente do Senado que falaram sob anonimato, Alcolumbre havia negociado um acordo: ele adiaria a votação dos 63 vetos presidenciais ao projeto da Lei do Licenciamento Ambiental até depois da Conferência do Clima de 2025, que seria realizada em Belém no dia 10 de novembro. Em troca, conseguiu a liberação para a exploração de petróleo. O texto da lei ambiental havia sido apelidado de "PL da Devastação" por afrouxar as regras de preservação. Tanto o Planalto quanto Alcolumbre negam que tal acordo tenha existido, mas a coincidência dos eventos levantou suspeitas. Lula, sem maioria no Congresso, temia uma derrota esmagadora na votação ambiental justamente quando abriria uma conferência climática internacional.

Alcolumbre é um político que construiu sua reputação sobre a teimosia e a capacidade de negociação. Quando foi eleito senador pela primeira vez em 2014, era considerado um membro do "baixo clero" do Congresso. Certa vez, enquanto cortava cabelo no Senado, disse ao barbeiro que um dia seria presidente da Casa. Cumpriu a promessa. Aos 48 anos, ele é conhecido por honrar seus acordos, mas também por saber quando aparecer e quando desaparecer. Um colega da bancada do União Brasil explicou que o apelido "fantasma" que circula sobre ele vem justamente disso: Alcolumbre surge quando menos se espera e depois desaparece, presente em todos os lugares simultaneamente. Há quem diga que o apelido remonta aos tempos do orçamento secreto, que ele administrou quando presidiu o Senado durante o governo Bolsonaro.

Sua vida pessoal revela um homem de rituais e superstições. Alcolumbre não sai do apartamento que mantém em Brasília sem beijar a Mezuzá, a pequena caixa com pergaminho de passagens bíblicas judaicas fixada no batente da porta. Sempre faz uma oração antes de entrar e sair. Se esquece do ritual, volta para cumpri-lo. Na Residência Oficial do Senado, fixou a "Mão de Deus" como talismã de proteção contra mau olhado. Essa devoção contrasta com sua reputação de negociador pragmático e, às vezes, questionável.

Na Praça dos Três Poderes, Alcolumbre é visto como um dos políticos com melhor relacionamento no Supremo. Apesar de ter sido aliado de Bolsonaro, ele garantiu que não pautaria projetos de anistia para golpistas nem impeachment de magistrados. Chegou a negociar com uma ala da Corte a redução de penas para condenados do 8 de janeiro em troca do engavetamento de uma anistia geral. Sua transformação de avalista do governo anterior para fiador do STF e da gestão Lula impressiona até seus pares. Ministros como Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin apoiam seu esforço para emplacar Pacheco na Corte em vez de Messias.

Mas menos de 24 horas depois da conversa no Alvorada, Jaques Wagner, líder do governo no Senado, declarou que a escolha de Messias era praticamente certa. Os defensores de Pacheco protestaram. Wagner lembrou que em 2021, quando comandava a Comissão de Constituição e Justiça, Alcolumbre havia travado por mais de quatro meses a sabatina de André Mendonça, indicado por Bolsonaro, porque queria emplacar o procurador-geral da República Augusto Aras. Alcolumbre interpretou as declarações de Wagner como uma reação do PT para inviabilizar Pacheco. Depois disso, o presidente do Senado fez questão de deixar claro, a portas fechadas, que não ajudaria Messias a obter votos.

Pacheco, por sua vez, aceitou a possibilidade de disputar o governo de Minas Gerais, como deseja Lula, mas antes precisa mudar de partido. Ele argumentou que Minas precisa retomar seu papel de protagonismo nacional. A declaração era uma indireta ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, presidente licenciado do PSD mineiro. Pacheco, Alcolumbre e Silveira estão rompidos. A disputa começou por poder e influência em agências reguladoras e agora se estende às eleições de 2026. Silveira incentivou a filiação do vice-governador Mateus Simões ao PSD para que concorresse à sucessão de Romeu Zema, deixando Pacheco isolado. No encontro do Alvorada, Alcolumbre relatou essa situação a Lula, que precisa de um palanque forte em Minas, o segundo maior colégio eleitoral do país, para sua campanha a novo mandato. O presidente se comprometeu a resolver o imbróglio.

O jantar também teve momentos leves. Lula perguntou como Alcolumbre conseguiu perder quase 20 quilos. "Foi Mounjaro", respondeu ele, referindo-se à caneta emagrecedora. Há boatos de que Alcolumbre distribui essas canetas para agradar aliados acima do peso, junto com emendas orçamentárias. Parece folclore, mas não é.

Pode escrever. Serei presidente desta Casa
— Davi Alcolumbre, ao barbeiro do Senado quando era considerado membro do baixo clero
O presidente já está com a convicção firmada e não acho que Alcolumbre vá segurar a apreciação do nome indicado por ele
— Jaques Wagner, líder do governo no Senado
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que Alcolumbre insiste em Pacheco para o STF se Lula já decidiu por Messias?

Model

Porque Pacheco representa algo que Alcolumbre precisa: um aliado forte em Minas Gerais para as eleições de 2026. Se Pacheco vai para o Supremo, ele sai do jogo político estadual. Alcolumbre está tentando manter Pacheco no tabuleiro.

Inventor

E a história do petróleo na Margem Equatorial? Parece um acordo muito conveniente.

Model

Conveniente, sim. Alcolumbre conseguiu o que queria para seu estado, o Amapá. Em troca, Lula evita uma derrota ambiental antes de abrir a COP-30. Ambos negam, mas os números falam.

Inventor

Como um senador consegue tanto poder de negociação?

Model

Porque controla votos. Sem maioria no Congresso, Lula depende dele. E Alcolumbre sabe disso. Ele não é o maior, mas está em todos os lugares ao mesmo tempo.

Inventor

Essa coisa de beijar a Mezuzá toda vez que sai de casa — é sincero ou teatro?

Model

Provavelmente sincero. Mas em Brasília, a sinceridade e o teatro são a mesma coisa. Alcolumbre cultiva uma imagem de homem de princípios enquanto negocia tudo. Funciona.

Inventor

E se Lula simplesmente ignorar Alcolumbre e indicar Messias mesmo assim?

Model

Então Alcolumbre terá perdido essa rodada. Mas ele já ganhou outras — o petróleo, o adiamento da votação ambiental. E ainda há tempo para Pacheco disputar Minas. A partida não terminou.

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