O maior atingido foi meu irmão, que ia ganhar no primeiro turno
Apagão de mais de uma semana no Amapá afetou 700 mil pessoas e causou 55 protestos, com pelo menos um estudante ferido por bala de borracha. Josiel Alcolumbre liderava pesquisas com o dobro de votos sobre adversários, mas viu vantagem cair durante a crise de energia elétrica.
- Apagão de mais de uma semana deixou 700 mil pessoas sem energia no Amapá
- Josiel Alcolumbre liderava pesquisas com praticamente o dobro de votos sobre adversários
- Pelo menos 55 protestos foram registrados, com um estudante ferido por bala de borracha
- Senador propôs auxílio emergencial extraordinário de R$ 300 para famílias afetadas
- TSE adiou eleições municipais em Macapá por instabilidade no fornecimento de energia
Presidente do Senado Davi Alcolumbre afirma que seu irmão, candidato à prefeitura de Macapá, foi o maior prejudicado pelo apagão que deixou 700 mil pessoas sem energia. Nega ter pedido adiamento das eleições e solicita auxílio emergencial extra.
Na quinta-feira, 12 de novembro de 2020, o presidente do Senado Davi Alcolumbre concedeu entrevista à Rádio Diário FM do Amapá com uma mensagem clara: o verdadeiro prejudicado pela crise de energia que assolava o Estado era seu irmão, Josiel Alcolumbre, candidato à prefeitura de Macapá. Segundo o senador, Josiel caminhava para vencer no primeiro turno, com pesquisas internas mostrando uma vantagem de praticamente o dobro sobre o segundo colocado — até o apagão desmantelar essa trajetória.
O colapso energético havia deixado mais de 700 mil pessoas sem luz por mais de uma semana. As ruas se encheram de manifestantes: pelo menos 55 protestos foram registrados, e em um deles um estudante levou um tiro de bala de borracha no olho. O governo estadual decretou estado de emergência válido por 90 dias, reconhecendo oficialmente que 637,5 mil pessoas precisavam de assistência. Nesse cenário de caos, Alcolumbre negou categoricamente ter pedido o adiamento das eleições municipais — uma acusação que seus adversários políticos agora lançavam contra ele, supostamente baseada em um telefonema para o ministro Luis Roberto Barroso, do Tribunal Superior Eleitoral.
O senador descreveu a situação com amargura. Políticos que dias antes pediam o adiamento das eleições agora o acusavam de ter conseguido exatamente isso através de influência junto ao TSE. Alcolumbre chamou a estratégia de "inacreditável", afirmando que seus adversários transformavam mentiras em verdade através de notícias falsas e agressões constantes contra seu irmão. O plenário do TSE havia confirmado naquela mesma quinta-feira a decisão de adiar o pleito em Macapá, mas o pedido havia partido do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá, justificado pela instabilidade no fornecimento de energia.
Além de defender a honra política da família, Alcolumbre movimentava-se em outras frentes. Havia solicitado à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal que investigassem as causas do apagão. Um laudo divulgado na quarta-feira descartava a hipótese de que um raio tivesse provocado o colapso. O senador exigia punições severas para os responsáveis, incluindo a possível cassação da concessão da Isolux, a empresa que operava a subestação onde tudo começou. Dias antes, ele havia anunciado que visitaria a Agência Nacional de Energia Elétrica para investigar a responsabilidade da concessionária.
O governo federal, enquanto isso, trabalhava na recuperação. Na quarta-feira, o Ministério de Minas e Energia informou que restabeleceria 80% da energia no Estado. O presidente Jair Bolsonaro havia dito no domingo anterior que 76% da carga já havia sido retomada. Mas Alcolumbre não se contentava apenas com a restauração da energia. Ele havia conversado com Bolsonaro cinco dias antes e apresentado uma proposta: um auxílio emergencial extraordinário de R$ 300 para as famílias cadastradas que foram afetadas pelo apagão. Segundo o senador, o presidente estudava tecnicamente a viabilidade jurídica da medida dentro do governo, considerando-a uma forma de compensar as perdas causadas pela falta de luz.
A crise energética havia se tornado, portanto, um nó de questões políticas, eleitorais e de assistência social. Enquanto centenas de milhares de pessoas tentavam reconstruir suas vidas sem energia, o presidente do Senado navegava acusações de favorecimento político, defendia seu irmão candidato e negociava compensações financeiras com o Palácio do Planalto. O adiamento das eleições em Macapá permanecia confirmado, mas a sombra sobre como e por que havia sido decidido continuava pairando sobre a política amapaense.
Notable Quotes
Aqueles adversários que outrora pediram o adiamento das eleições utilizam agora as agressões constantes dizendo que o senador Davi Alcolumbre falou com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral para adiar a eleição— Davi Alcolumbre, presidente do Senado
É inacreditável a capacidade dessas pessoas de transformar uma mentira em verdade com Fake News, com ofensas e com agressões— Davi Alcolumbre
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o senador Alcolumbre insistiu tanto em dizer que seu irmão era o maior prejudicado, quando 700 mil pessoas ficaram sem luz?
Porque a narrativa política importava tanto quanto a crise em si. Josiel estava à frente nas pesquisas, pronto para vencer no primeiro turno, e o apagão destruiu essa vantagem. Para Alcolumbre, era importante estabelecer que a derrota eleitoral do irmão não era mérito dos adversários, mas consequência de uma tragédia.
Os adversários o acusavam de ter pedido o adiamento das eleições. Isso era verdade?
Alcolumbre negava veementemente. Mas a acusação tinha uma lógica: se as eleições fossem adiadas, Josiel teria tempo para recuperar sua vantagem enquanto a energia voltava. O senador insistia que o pedido havia vindo do tribunal eleitoral estadual, não dele.
E quanto ao auxílio de R$ 300? Era genuíno ou mais uma jogada política?
Provavelmente ambas as coisas. Alcolumbre estava pedindo ao governo federal para compensar as famílias afetadas, o que era legítimo. Mas também era uma forma de mostrar que ele tinha poder, que conseguia coisas para o Amapá. A política nunca é pura.
Um estudante levou um tiro de bala de borracha no olho. Isso aparecia em sua fala?
Não. Alcolumbre falava sobre pesquisas, sobre adversários, sobre investigações contra a Isolux. A violência nas ruas era mencionada apenas como contexto, não como centro da preocupação dele.
O que você acha que ele realmente temia?
Que seu irmão perdesse a eleição. Tudo o mais — as acusações, as defesas, o auxílio emergencial — era tentativa de controlar uma situação que havia escapado de seu controle.