O ajuste fiscal não é uma dor, ele é uma solução
Em um país onde o orçamento federal caminha para ser inteiramente consumido por despesas obrigatórias até o fim da década, a economista Ana Paula Vescovi oferece não um diagnóstico de crise, mas uma proposta de travessia. Ela argumenta que desindexar o salário mínimo, modernizar programas trabalhistas e revisar vinculações constitucionais não são sacrifícios impostos aos mais vulneráveis, mas condições para que o Brasil possa, enfim, crescer de forma produtiva e sustentável. A janela, segundo ela, é o ciclo eleitoral de 2026 — e o tempo para agir é curto.
- Sem reformas estruturais, as despesas obrigatórias consumirão 100% do orçamento federal até 2030, deixando o Estado sem margem para qualquer política pública.
- A desindexação automática do salário mínimo é o ponto mais sensível: mexe no sistema de pensões, na competitividade regional e no coração do debate sobre proteção social.
- Programas trabalhistas criados há 40 anos — abono salarial, seguro-desemprego, FGTS — operam fora de sintonia com um mercado dominado pelo empreendedorismo e pela informalidade crescente.
- As vinculações constitucionais de saúde e educação são tratadas como tabu, mas Vescovi questiona por que o Brasil financia ensino superior gratuito enquanto não garante educação básica de qualidade para todos.
- Um ajuste rápido nos primeiros seis meses de governo poderia gerar choque de confiança, atrair investimentos e iniciar um ciclo virtuoso — mas exige comunicação clara de que crescimento, não austeridade, é o objetivo.
Ana Paula Vescovi, ex-economista-chefe do Santander, não enxerga o ajuste fiscal como punição inevitável. Para ela, é uma porta aberta. Em entrevista ao Estadão, ela defende que o Brasil aproveite o ciclo eleitoral de 2026 para construir uma visão estratégica de país e implemente mudanças estruturais logo no início de um novo governo.
O diagnóstico central é simples: sem produtividade, não há crescimento real; sem crescimento, não há recursos para financiar o que a sociedade precisa. E o que os mais pobres querem, ela lembra, não é mais gasto público — é deixar de ser pobres.
O primeiro passo seria desindexar o salário mínimo, encerrando o reajuste real automático garantido em lei. O sistema de pensões está sob pressão extrema, e a diversidade regional do Brasil — onde São Paulo e o Piauí vivem realidades econômicas distintas — tornaria mais sensato permitir que estados definam seus próprios pisos salariais.
O segundo bloco envolve redesenhar programas trabalhistas como abono salarial, seguro-desemprego e FGTS, criados há quatro décadas para um mercado de trabalho que já não existe. O terceiro ponto toca em tabu: as vinculações constitucionais de saúde e educação. Vescovi não nega a importância dessas áreas, mas questiona se dinheiro, sozinho, resolve — e por que o país prioriza ensino superior gratuito enquanto a educação básica segue deficiente.
Essas três frentes gerariam ajuste de 1% a 1,5% do PIB. O restante — até 2,5% — viria de um choque de confiança: investidores que voltam ao ver o país equilibrar as contas, aliviando a pressão sobre os juros e abrindo espaço para outras reformas.
Vescovi também aponta um ativo subestimado: o Brasil possui um dos maiores e mais integrados sistemas de dados públicos do mundo — eSocial, SUS, cadastros sociais, registros eleitorais. Isso permite desenhar serviços melhores e mais baratos, mas exige um Estado estratégico, não apenas maior.
Por fim, ela conecta o ajuste fiscal à segurança pública: quando as regras são pesadas demais para quem quer segui-las, quem prospera é quem não as segue. Tornar o ambiente regulatório mais leve é, portanto, também uma questão de ordem. O ajuste, nessa lógica, não é sobre cortar — é sobre criar condições para que a economia possa respirar.
Ana Paula Vescovi, que comandou a área de economia do Santander, vê no ajuste fiscal não um castigo inevitável, mas uma porta aberta. Em entrevista ao Estadão, ela defende que o Brasil use o ciclo eleitoral de 2026 para discutir uma visão estratégica do país — e que comece a implementar mudanças estruturais logo nos primeiros seis meses de um novo governo, se possível.
O diagnóstico é claro: a economia brasileira precisa ficar mais produtiva e eficiente. Sem isso, não há crescimento real. E sem crescimento, não há recursos para financiar as políticas públicas que a sociedade demanda. Vescovi não vê isso como sacrifício. Vê como solução. A questão, para ela, é como comunicar essa ideia de forma que as pessoas entendam que gastar mais não resolve os problemas dos mais pobres — o que os pobres querem é deixar de ser pobres.
O primeiro passo, na visão dela, seria desindexar o salário mínimo. Hoje, a lei garante reajuste real automático. Ela propõe revogar isso e voltar ao reajuste zero em termos reais. Isso importa porque o sistema de pensões está sob pressão extrema. Se nada mudar, até o final da década, as despesas obrigatórias consumirão 100% do orçamento federal. Além disso, o Brasil é diverso — São Paulo não é o Piauí. Permitir que estados definam seus próprios pisos regionais faz mais sentido que uma lei única que sufoca empresas em regiões pobres e é insuficiente em regiões ricas.
O segundo bloco de reformas envolve redesenhar os programas de mercado de trabalho: abono salarial, seguro-desemprego, salário-educação, FGTS. Esses programas foram criados há 40 anos, quando o mercado de trabalho era outro. Hoje, tudo muda rapidamente. Empreendedorismo cresce, informalidade também. Os incentivos precisam acompanhar essa realidade, não ficar presos ao passado.
O terceiro ponto toca em tabu: as vinculações constitucionais de saúde e educação. Vescovi não diz que essas áreas não importam. Diz que dinheiro sozinho não resolve. O Brasil gasta bastante em educação comparado ao seu estágio de desenvolvimento, mas a qualidade do aprendizado não acompanha. Há exemplos bem-sucedidos dentro do país — parcerias público-privadas, escolas públicas de qualidade com baixo custo. A questão é por que priorizamos educação superior gratuita quando não conseguimos oferecer educação básica de qualidade para todos. Isso precisa ser rediscutido.
Essas três medidas levariam a um ajuste de 1% a 1,5% do PIB. Mas Vescovi calcula que o Brasil precisa de 2% a 2,5% do PIB em ajustes. A diferença viria de um choque de confiança — quando investidores veem que o país está equilibrando as contas, eles voltam. A política monetária ajudaria ciclicamente, reduzindo pressão sobre os juros. Isso ganharia tempo para outras reformas.
O Brasil, em sua visão, tem vantagens que poucos países têm. Possui dados em escala massiva — eSocial, SUS, cadastros de assistência social, registros eleitorais, cartórios. Nenhum outro país tem um sistema de informação assim. Isso permite desenhar serviços públicos melhores, mais baratos, customizados. Mas para aproveitar isso, o estado precisa ser estratégico, não apenas maior.
Vescovi também toca em um problema que parece desconectado: segurança pública. Mas não está. Quando a economia é muito regulada, com altos custos de capital e barreiras à entrada, quem prospera é quem não segue as regras — a informalidade, o crime organizado. Eles ganham vantagem relativa sobre as empresas que pagam impostos e seguem regulações engessadas. Tornar as regras mais leves para quem quer operar dentro delas é, portanto, também uma questão de segurança. O ajuste fiscal, nessa lógica, não é apenas sobre números. É sobre criar um ambiente onde a economia pode respirar.
Notable Quotes
Para promover crescimento, só tem uma forma: tornar a economia mais produtiva e eficiente. A eficiência é a chave de tudo.— Ana Paula Vescovi
Os mais pobres e os mais vulneráveis não querem ser pobres nem vulneráveis. Precisamos de um desenho de política pública que ative empreendedorismo, inovação e aprendizagem.— Ana Paula Vescovi
The Hearth Conversation Another angle on the story
Você fala em ajuste fiscal como solução, não sacrifício. Mas para a maioria das pessoas, cortar gastos significa menos dinheiro chegando. Como isso não é sacrifício?
Porque o sacrifício real é não fazer nada. Se o orçamento inteiro virar despesa obrigatória — pensões, juros — não sobra nada para investir em educação, saúde, infraestrutura. Você fica preso. O ajuste agora é doloroso, mas curto. Não fazer nada é dor permanente.
Mas desindexar o salário mínimo afeta diretamente quem ganha menos. Como isso ajuda os pobres?
O salário mínimo indexado pressiona o sistema de pensões, que por sua vez pressiona todo o orçamento. Quando o orçamento explode, não há espaço para programas que realmente transformam vidas — educação de qualidade, por exemplo. Os pobres não querem mais dinheiro no bolso agora se significa menos oportunidade depois.
Você menciona que o Brasil tem dados extraordinários — eSocial, SUS, cadastros. Qual é o ponto?
É que podemos desenhar políticas públicas muito mais eficientes. Hoje gastamos muito e entregamos pouco porque não sabemos quem precisa de quê. Com dados, você customiza. Você reduz custo radical e melhora resultado. É reforma do estado, não apenas corte.
E se o choque de confiança não vier? Se os investidores não voltarem?
Então o Brasil está em posição muito pior. Mas o risco de não tentar é maior. Outras nações já começaram a construir esses consensos. Se o Brasil não se move, fica para trás.
Você fala em fazer isso nos primeiros seis meses de governo. Por quê tanta pressa?
Porque quanto mais você espera, mais difícil fica politicamente. E porque o mundo não espera. As taxas de juros globais estão altas. Se o Brasil mostrar que está sério sobre equilibrar as contas, pode ser a bola da vez para atrair capital. Mas isso tem janela.