África do Sul enfrenta onda de violência em protestos contra imigrantes

Pelo menos quatro pessoas foram mortas, milhares de imigrantes foram expulsos de suas casas, e muitos tiveram negócios e propriedades vandalizados durante os protestos.
De prédio em prédio, eles precisam ir embora
Jacinta Ngobese, líder do movimento antimigrante, explicita o objetivo das marchas semanais planejadas.

Em um país ainda marcado pelas cicatrizes do apartheid, a África do Sul voltou a se ver diante de um espelho incômodo: manifestantes antimigrantes tomaram as ruas de várias cidades na terça-feira, deixando ao menos quatro mortos, milhares de deslocados e uma reputação internacional novamente abalada. O movimento 'March and March', liderado por Jacinta Ngobese em Durban, prometeu marchas semanais para expulsar estrangeiros 'de prédio em prédio', canalizando décadas de desigualdade econômica real em direção a um alvo que os cientistas sociais dizem não ter culpa. Quando a raiva de um povo encontra uma narrativa simples, a verdade raramente é o que mais importa.

  • O prazo anunciado pelos manifestantes foi suficiente para esvaziar bairros inteiros — milhares de imigrantes fugiram antes mesmo que a violência começasse, fechando lojas e abandonando empregos por medo.
  • Em Thembisa, Benoni, Soweto e Pietermaritzburg, pedras, saques, disparos e balas de borracha marcaram um dia em que o protesto organizado e a violência espontânea se tornaram impossíveis de separar.
  • A liderança do movimento tentou se isentar dos atos mais extremos, mas a distinção entre marcha política e ataque de rua ofereceu pouco amparo a quem teve negócios destruídos e casas invadidas.
  • Com marchas semanais prometidas pelos próximos meses, o risco de novos confrontos permanece alto — e a África do Sul, que se apresentou ao mundo como herdeira dos valores de Mandela, enfrenta mais uma vez a contradição entre seu ideal e sua realidade.

Na terça-feira, ruas de várias cidades sul-africanas foram tomadas por confrontos quando manifestantes antimigrantes colocaram em prática uma campanha que vinha ganhando força há meses. Muitos imigrantes já haviam fugido antes mesmo do início dos protestos, antecipando a violência. Lojas fecharam, trabalhadores estrangeiros ficaram em casa, e o que havia sido anunciado como marcha organizada rapidamente descambou para o caos: pelo menos quatro pessoas foram mortas, milhares foram expulsas de suas casas e inúmeros negócios foram destruídos.

O movimento 'March and March', liderado por Jacinta Ngobese em Durban, havia declarado seus objetivos sem rodeios: marchas semanais até a expulsão de imigrantes ilegais, 'de prédio em prédio', com os recursos nacionais voltados para essa finalidade pelos próximos seis meses. Entre os manifestantes, a narrativa era uniforme — estrangeiros estariam roubando empregos dos sul-africanos. Ngobese, ao ser questionada sobre a violência, afirmou que o grupo não podia ser responsabilizado por atos espontâneos de raiva. Mas essa distinção oferecia pouco consolo a quem era atacado sem que ninguém perguntasse se havia entrado no país legalmente ou não.

A violência se espalhou por múltiplas cidades: em Thembisa, pedras foram atiradas contra a polícia e contra suspeitos de serem migrantes; em Benoni, veículos táticos foram mobilizados e a polícia abriu fogo após ser ameaçada por cerca de 500 pessoas; em Soweto, barracos foram saqueados; em Pietermaritzburg, balas de borracha dispersaram multidões.

O contexto econômico que alimenta essa raiva é concreto — três décadas após o fim do apartheid, um terço da população sul-africana ainda está desempregada. Mas os cientistas sociais são categóricos: as acusações de que imigrantes roubam empregos, aumentam a criminalidade e sobrecarregam serviços públicos carecem de evidências sólidas. A população migrante representa cerca de 4% do total do país — uma proporção relativamente baixa pelos padrões globais. O que está em jogo, portanto, não é apenas a segurança de milhões de pessoas vulneráveis, mas também a imagem de uma nação que, na era pós-Mandela, havia se comprometido a ser guardiã dos direitos humanos no continente.

Na terça-feira, as ruas de várias cidades sul-africanas explodiram em confrontos quando manifestantes antimigrantes colocaram em prática uma onda de protestos que vinha se acumulando há meses. Milhares de pessoas de outros países africanos já tinham fugido antes do prazo estabelecido, antecipando-se à violência que se seguiria. Lojas fecharam. Trabalhadores estrangeiros ficaram em casa. O que começou como uma campanha organizada rapidamente se transformou em caos: pelo menos quatro pessoas foram mortas, milhares de imigrantes foram expulsos de suas casas, e inúmeros negócios e propriedades foram vandalizados.

O movimento "March and March", liderado por Jacinta Ngobese na cidade portuária de Durban, havia anunciado seus objetivos com clareza brutal. Ngobese declarou que o grupo organizaria marchas semanais até conseguir o que queria: a expulsão de imigrantes ilegais do país, "de prédio em prédio". Ela pediu que, nos próximos seis meses, os recursos nacionais fossem canalizados para essa finalidade. Entre os manifestantes estava Silindile Xaba, de 31 anos, que ecoava a narrativa central: as pessoas não estavam conseguindo empregos porque estrangeiros ilegais ocupavam as vagas. "Não é justo", disse.

A violência se espalhou por múltiplas cidades. Em Thembisa, um subúrbio ao norte do principal centro comercial de Johanesburgo, manifestantes atiraram pedras contra a polícia e contra pessoas que acreditavam ser migrantes, enquanto disparos esporádicos podiam ser ouvidos perto do distrito comercial central. Em Benoni, a leste de Johanesburgo, a polícia mobilizou veículos táticos e abriu fogo depois de ser ameaçada por cerca de 500 manifestantes. No bairro de Soweto, manifestantes saquearam barracos de estrangeiros. Em Pietermaritzburg, perto de Durban, a polícia disparou balas de borracha para dispersar as multidões. A polícia prendeu alguns saqueadores, mas ofereceu poucos detalhes sobre a operação.

A liderança do movimento antimigrante tentou se distanciar da violência mais extrema. Ngobese afirmou à Reuters que o grupo "March and March" não podia ser responsabilizado por atos espontâneos de raiva entre sul-africanos comuns. "Infelizmente, não podemos estar em todas as comunidades dizendo a elas como se comportar", disse. Mas essa distinção entre protesto organizado e violência de rua oferecia pouco consolo aos imigrantes que enfrentavam ataques. Os manifestantes não faziam distinção entre aqueles que haviam entrado no país legalmente e os que não — uma realidade que vinha marcando os ataques contra imigrantes desde 2008.

O contexto econômico que alimenta essa raiva é real, mesmo que as acusações contra os imigrantes não sejam. Três décadas após o fim do apartheid, a África do Sul continua profundamente desigual. Um terço da população está desempregada. Apesar disso, o país permanece como a maior economia do continente e continua atraindo migrantes em busca de oportunidade. A população de imigrantes é estimada em cerca de 3 milhões de pessoas, ou aproximadamente 4% do total — uma proporção relativamente baixa comparada aos padrões globais. Cientistas sociais apontam que as alegações de que imigrantes roubam empregos, aumentam a criminalidade e sobrecarregam os serviços públicos carecem de evidências científicas sólidas.

Mas a realidade das acusações importa menos do que o sentimento que as alimenta. Esses protestos e a violência que os acompanha mancharam a reputação internacional da África do Sul, um país que, na era pós-Nelson Mandela, havia se posicionado como defensor dos direitos humanos. A polícia não respondeu imediatamente a pedidos de comentário sobre sua resposta aos distúrbios. O que está claro é que as marchas semanais prometidas por Ngobese e seus seguidores provavelmente continuarão, e com elas, o risco de mais confrontos, mais deslocamentos, mais destruição.

Nos próximos seis meses, pedimos que nossos recursos nacionais sejam utilizados para expulsar os imigrantes ilegais deste país
— Jacinta Ngobese, líder do 'March and March'
As pessoas não estão trabalhando, os empregos estão sendo ocupados por estrangeiros ilegais. Não é justo
— Silindile Xaba, manifestante de 31 anos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que agora? Esses protestos contra imigrantes vêm acontecendo desde 2008. O que mudou desta vez?

Model

O que mudou foi a organização. O "March and March" transformou a raiva difusa em um movimento estruturado com objetivos claros e um cronograma. Isso amplificou tudo — a visibilidade, a escala, a violência.

Inventor

Os líderes dizem que não podem controlar os atos espontâneos de raiva. Você acredita nisso?

Model

É uma negação conveniente. Quando você organiza marchas semanais e pede a expulsão de um grupo inteiro de pessoas, você está criando o clima em que a violência acontece. A responsabilidade não desaparece porque você diz que não pode estar em todos os lugares.

Inventor

Mas o desemprego é real. Um terço da população está desempregada. Não é compreensível que as pessoas estejam furiosas?

Model

Compreensível, sim. Justificável, não. E cientificamente, os imigrantes não são a causa do desemprego. Mas quando você tem uma população desesperada e uma narrativa simples que oferece um culpado, a verdade se torna irrelevante.

Inventor

A reputação da África do Sul como defensora dos direitos humanos está sendo destruída. Isso importa para o país?

Model

Importa enormemente. Mandela deixou um legado de esperança e princípios. Esses protestos o contradizem completamente. E cada ataque, cada morte, cada propriedade vandalizadas, reforça a mensagem de que aquele legado foi apenas uma ilusão.

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