Ataques ucranianos esgotam paciência até apoiantes de Putin na Rússia

Embora não especifique vítimas diretas, os ataques causam danos infraestruturais significativos e impacto psicológico na população civil russa confrontada com a realidade da guerra.
Os cidadãos conseguem ver com os próprios olhos que as afirmações não correspondem à realidade
Bloggers pró-Putin admitem que a narrativa oficial sobre a guerra distante já não convence a população russa.

Mais de quatro anos após o início da invasão, os ataques ucranianos de longo alcance estão a transformar a guerra num fenómeno doméstico para os cidadãos russos — algo que nenhuma narrativa oficial consegue apagar quando os drones atingem refinarias nos arredores de Moscovo. O Kremlin construiu pacientemente a ilusão de um conflito distante e contido, mas essa ficção enfrenta agora o seu adversário mais implacável: a realidade visível a olho nu. Quando até os vozes mais fervorosas do nacionalismo russo começam a questionar o que os meios estatais transmitem, algo fundamental na arquitetura do consentimento interno está a ceder.

  • Drones ucranianos atingiram a refinaria de Moscovo pela segunda vez em dois dias, expondo vulnerabilidades nas defesas aéreas das cidades russas mais protegidas.
  • A capacidade ucraniana de penetrar o espaço aéreo russo — mesmo que com poucos projéteis — está a produzir danos reais e um impacto psicológico que as autoridades não conseguem silenciar.
  • Bloggers militares pró-guerra, pilares da narrativa nacionalista, começaram a criticar abertamente os meios de comunicação estatais por construírem uma realidade artificial desligada do que os cidadãos vivem.
  • O Kremlin responde punindo quem filma os ataques e minimizando os danos nos canais oficiais — mas a estratégia agrava o fosso entre a versão oficial e o que a população consegue observar diretamente.
  • O dilema do regime aprofunda-se: quanto mais a guerra avança para o interior da Rússia, mais insustentável se torna a ficção de um conflito distante e controlado.

Quatro anos depois de os tanques russos cruzarem a fronteira ucraniana, a narrativa que o Kremlin construiu com tanto cuidado — a de uma guerra distante que não perturba o quotidiano russo — está a desmoronar-se sob o peso de evidências que os próprios cidadãos conseguem ver.

Os ataques ucranianos de longo alcance tornaram-se mais profundos e precisos. Na madrugada de quarta-feira, drones voltaram a atingir a refinaria de Moscovo pela segunda vez em dois dias. Mesmo que a maioria dos projéteis seja intercetada, o Instituto para o Estudo da Guerra sublinha que basta um número reduzido atravessar as defesas para causar danos significativos. Moscovo e São Petersburgo, as cidades mais protegidas da Rússia, já não são intocáveis.

O que torna este momento singular é quem está a falar. Os bloggers militares russos — habitualmente defensores fervorosos do esforço de guerra — começaram a admitir o que o Kremlin negava. Alguns reconheceram que a Ucrânia está a levar o conflito muito para além das regiões fronteiriças. Mas as críticas mais duras foram dirigidas não aos militares, mas aos próprios meios de comunicação do Estado, acusados de estarem 'desligados do povo' e de fabricarem uma realidade onde tudo funciona normalmente.

O Kremlin não está inativo: os canais oficiais continuam a minimizar os danos e há relatos de punições para quem filma as consequências dos ataques. Mas esta resposta expõe precisamente o dilema que o regime enfrenta — quanto mais a guerra se aproxima do coração da Rússia, mais impossível se torna fingir que ela permanece distante. Pela primeira vez em anos, até os apoiantes mais leais começam a questionar qual das duas realidades é verdadeira.

Quatro anos passados desde que os tanques russos cruzaram a fronteira ucraniana, a máquina de propaganda do Kremlin enfrenta um problema que nenhuma quantidade de controlo mediático consegue resolver: a guerra está a chegar a casa.

Desde o início da invasão em fevereiro de 2022, Vladimir Putin construiu uma narrativa cuidadosa. Enquanto os combates se desenrolavam em solo ucraniano, a vida nas grandes cidades russas mantinha-se supostamente intacta. A chamada "operação militar especial" era apresentada como um assunto distante, algo que não perturbava o quotidiano dos cidadãos. Os meios de comunicação estatais repetiam a mensagem: está tudo bem. Mas essa ficção está a desmoronar-se.

Os ataques ucranianos de longo alcance tornaram-se cada vez mais profundos e precisos. Na madrugada de quarta-feira, drones ucranianos voltaram a atingir a refinaria de Moscovo pela segunda vez em dois dias. Embora as autoridades russas afirmem ter intercetado a maioria dos projéteis, o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) observa que Kiev está a demonstrar uma capacidade perturbadora: mesmo um número reduzido de drones que conseguem ultrapassar as defesas produz danos significativos. As cidades mais protegidas da Rússia — Moscovo, São Petersburgo — já não são intocáveis. As vulnerabilidades nas defesas aéreas russas estão expostas. A população consegue ver isto com os seus próprios olhos.

O que torna este momento particularmente significativo é quem está a falar. Os bloggers militares russos, vozes habitualmente nacionalistas e fervorosos defensores do esforço de guerra de Moscovo, começaram a admitir o que o Kremlin tentava negar. Um deles, numa publicação que foi depois apagada, reconheceu que as forças ucranianas conseguiram provocar danos graves apesar da forte proteção antiaérea. Outros sublinharam que a Ucrânia está a levar a guerra muito para além das regiões fronteiriças. Mas as críticas mais contundentes não foram dirigidas aos militares — foram dirigidas aos meios de comunicação do Estado.

Vários destes comentadores acusaram os responsáveis pela comunicação social de estarem "desligados do povo", de terem construído uma realidade artificial onde tudo funciona normalmente. Um alertou que se nada mudar, os relatos oficiais ficarão "ainda mais afastados da realidade do que já estão". Outro foi mais direto: os cidadãos russos conseguem agora "ver com os próprios olhos" que as afirmações da comunicação estatal não correspondem ao que está a acontecer nas ruas. A narrativa que o Kremlin cuidadosamente construiu — a de uma guerra distante que não afeta a Rússia — está a colapsar sob o peso da evidência visível.

O Kremlin não está inativo. Os principais meios de comunicação russos continuam a privilegiar as declarações oficiais e a minimizar os danos dos ataques. Há até relatos de que as autoridades estão a punir cidadãos que filmam os ataques e as suas consequências. Mas esta estratégia revela exatamente o dilema que o ISW identifica: quanto mais a guerra se aproxima do coração da Rússia, mais impossível se torna fingir que ela permanece distante. O Kremlin está preso entre duas realidades irreconciliáveis — a que quer contar e a que os seus próprios cidadãos conseguem ver. E pela primeira vez em anos de guerra, até os seus apoiantes mais leais começam a questionar qual delas é verdadeira.

Os meios de comunicação estão desligados do povo e criaram uma realidade artificial onde está tudo bem
— Blogger militar russo (citado pelo ISW)
Se nada mudar, os relatos oficiais acabarão por ficar ainda mais afastados da realidade do que já estão
— Outro blogger militar russo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Porque é que isto importa agora, depois de quatro anos? A propaganda russa sempre funcionou.

Model

Porque a propaganda só funciona enquanto consegue manter a ilusão. Quando as pessoas veem explosões nas suas cidades, quando as refinarias ardem, quando os drones conseguem ultrapassar as defesas — a narrativa de "está tudo bem" torna-se insustentável.

Inventor

Mas o Kremlin continua a controlar os meios de comunicação. Porque é que isso não é suficiente?

Model

Porque há limites ao que a censura consegue fazer quando a realidade é visível. Os cidadãos conseguem ver com os próprios olhos. E quando os bloggers pró-guerra — pessoas que apoiam Putin — começam a criticar a narrativa oficial, significa que até o núcleo duro de apoiantes está a questionar.

Inventor

O que é que estes bloggers estão realmente a dizer?

Model

Estão a dizer que os meios de comunicação estão desligados da realidade. Que criaram uma ficção onde a guerra é distante e controlada, quando na verdade está a chegar a Moscovo e São Petersburgo. É uma crítica devastadora porque vem de dentro do próprio sistema de apoio a Putin.

Inventor

E se o Kremlin conseguir reforçar as defesas aéreas? Isso não resolve o problema?

Model

Talvez tecnicamente, mas não resolve o problema político. Porque admitir que precisa de reforçar as defesas é admitir que a guerra chegou a casa. É admitir que a narrativa original estava errada.

Inventor

Então qual é o verdadeiro problema do Kremlin aqui?

Model

Que construiu uma estratégia inteira em torno de manter a guerra invisível. Agora que ela se tornou visível, não consegue voltar atrás. Quanto mais tenta negar, mais óbvio fica que está a negar.

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