Adoções nos Açores duplicam em 2024, atingindo recorde da década

Crianças em situação de adotabilidade crescem sem família, vivenciando sentimento de exclusão ao observar colegas com pais biológicos.
O amor não depende de laços de sangue
Pedro Furtado, adotado aos meses de vida, defende a adoção como ato de amor e oportunidade.

Nos Açores, o amor encontrou o dobro dos caminhos em 2024: vinte e quatro crianças foram adotadas, o valor mais alto em dez anos, num sinal de que o sistema judicial e social começa a mover-se com mais determinação. Ainda assim, o crescimento convive com uma tensão antiga — entre o que as famílias desejam e o que as crianças precisam, entre a urgência do afeto e a lentidão da burocracia. A história de Pedro Furtado, adotado há vinte e cinco anos, lembra-nos que uma família não se mede em biologia, mas na presença que molda quem somos.

  • O número de adoções nos Açores duplicou de 12 para 24 entre 2023 e 2024, o recorde da última década, impulsionado por medidas de adotabilidade decretadas em anos anteriores que finalmente completaram o longo percurso legal.
  • Dezenove das vinte e quatro crianças adotadas saíram do arquipélago, revelando que há mais crianças à espera de família nos Açores do que famílias locais dispostas a acolhê-las.
  • O maior obstáculo não é a falta de candidatos — há quarenta e três aprovados — mas o desajuste entre a preferência por bebés e a realidade de crianças mais velhas que aguardam uma família.
  • Catorze crianças permanecem em situação de adotabilidade, crescendo sem pais enquanto observam colegas com famílias biológicas, numa espera que o excesso de burocracia prolonga desnecessariamente.
  • Pedro Furtado, adotado aos poucos meses e hoje com vinte e cinco anos, defende a simplificação do processo e apela à sociedade: adotar vale a pena, porque o amor não depende de laços de sangue.

Nos Açores, 2024 ficou marcado por um número sem precedente na última década: vinte e quatro crianças encontraram uma família através da adoção, o dobro do ano anterior. Os dados do Instituto de Segurança Social dos Açores revelam um crescimento significativo, mas também as tensões que persistem num sistema complexo.

Das vinte e quatro adoções, dezenove levaram crianças para fora do arquipélago — para o continente ou para o estrangeiro. Apenas cinco encontraram família dentro da região. Atualmente, catorze crianças aguardam ainda uma família, enquanto quarenta e três candidaturas já estão aprovadas. O paradoxo é real: o aumento nas adoções não resultou de mais medidas de adotabilidade decretadas em 2024, mas do tempo acumulado de processos anteriores que finalmente chegaram ao fim. O sistema funciona em camadas — sentença, notificação, caracterização, preparação psicológica, encaminhamento — e cada etapa consome meses.

O desajuste entre o perfil desejado pelas famílias e o das crianças disponíveis continua a ser o obstáculo mais difícil de resolver. A maioria dos candidatos prefere crianças entre zero e três anos; as que aguardam adoção são, na sua maioria, mais velhas.

Pedro Furtado tem vinte e cinco anos e foi adotado em bebé. Fala da sua história com serenidade: a família, diz, é o alicerce — não a biologia, mas a presença e os valores. Soube que era adotado aos oito anos e considera que foi a altura certa. Perdeu o pai para o cancro aos dezoito anos e acompanhou a mãe na luta contra uma doença oncológica. Recentemente descobriu quem são os seus pais biológicos e que tem uma irmã, mas o contacto ainda não aconteceu — são feridas que o tempo precisa de tratar.

Pedro critica a burocracia excessiva do processo de adoção em Portugal e gostaria ele próprio de adotar um dia. A sua mensagem é direta: as crianças em acolhimento nada fizeram para estar ali e têm todas as qualidades do mundo. Só precisam de uma oportunidade — e de alguém disposto a dá-la.

Nos Açores, o número de crianças que encontraram uma família através da adoção duplicou entre 2023 e 2024. Onde havia 12 adoções num ano, passaram a ser 24 no seguinte — o valor mais alto registado na última década. Dos dados do Instituto de Segurança Social dos Açores e da Equipa da Adoção emerge um quadro de crescimento significativo, ainda que marcado por tensões que revelam como o sistema funciona na prática.

Das 24 crianças adotadas em 2024, dezenove saíram do arquipélago para viver com famílias no continente ou no estrangeiro. Apenas cinco encontraram pais adotivos dentro da região. Este desequilíbrio aponta para uma realidade incómoda: há mais crianças disponíveis para adoção nos Açores do que famílias dispostas a acolhê-las localmente. Atualmente, catorze crianças aguardam uma família — onze em São Miguel, duas na Terceira e uma no Faial. Ao mesmo tempo, existem quarenta e três candidaturas já aprovadas para adoção e outras quinze ainda em processo de avaliação.

O crescimento nas adoções não resulta de mais crianças a precisarem de famílias, mas de uma mudança nos procedimentos judiciais. Em 2023, os tribunais decretaram vinte e três medidas de adotabilidade; em 2024, esse número desceu para dezoito. Paradoxalmente, mais crianças foram adotadas com menos medidas decretadas. A explicação reside no tempo: as crianças que receberam medida de adotabilidade em anos anteriores apenas agora completaram o processo legal e puderam ser encaminhadas para famílias. O sistema funciona em camadas — sentença, notificação das equipas, caracterização da criança, preparação psicológica, procura de família, encaminhamento final. Cada etapa consome meses.

Mas existe um obstáculo que nenhuma reforma burocrática resolve sozinha: o desajuste entre o que as famílias querem e o que as crianças precisam. A maioria dos candidatos a adoção prefere crianças entre zero e três anos — bebés ou crianças muito pequenas. As crianças realmente disponíveis para adoção são, na sua maioria, mais velhas. Este fosso entre procura e oferta explica por que razão, apesar do crescimento, ainda há crianças à espera e famílias aprovadas sem encontrar a criança certa.

Pedro Furtado tem vinte e cinco anos e foi adotado quando tinha apenas alguns meses. Hoje trabalha como responsável de produção animal num grupo regional e fala da sua história com serenidade e orgulho. Para ele, a família é o alicerce — não a biologia, mas a presença, o cuidado, os valores transmitidos. "Família é o nosso alicerce", diz. "Graças ao meu pai e à minha mãe tive as bases que uma criança deve ter." Reconhece que poderia ter escolhido ressentimento, mas optou pela gratidão. Nunca se sentiu rejeitado; preferiu concentrar-se no facto de ter pessoas que se esforçaram para o ter na vida.

Pedro descobriu que era adotado aos oito anos — uma decisão que considera acertada. Naquela idade, a informação não o traumatizou porque ainda lhe faltava maturidade para compreender plenamente o que significava. Hoje percebe que foi melhor assim. Se tivesse sabido aos vinte anos, o impacto teria sido muito maior. Mas a sua história não é apenas de aceitação pessoal. É também de crítica ao sistema. Pedro defende que o processo de adoção em Portugal é demasiado burocrático, com muitas etapas que atrasam o amor que uma criança poderia já estar a receber. Ele próprio gostaria de adotar — sabe o impacto que isso tem na vida de uma criança.

A vida de Pedro foi também marcada pela doença. O pai faleceu vítima de cancro quando Pedro tinha dezoito anos. A mãe continua a lutar contra uma doença oncológica, agora com estabilidade. Cuidar de quem cuidou dele foi, para Pedro, a sua maior obrigação e o seu maior ato de amor. Recentemente, descobriu quem são os seus pais biológicos e que tem uma irmã, mas ainda não mantém contacto com nenhum deles. No caso dos pais biológicos, não é por opção sua. Gostaria de ter contacto com a irmã, mas ainda não teve coragem — são feridas que o tempo precisa de tratar.

Para Pedro, a mensagem é clara: "Adotem. Vale a pena. O amor não depende de laços de sangue." Reconhece que a sociedade açoriana está mais aberta ao tema — fala-se com mais naturalidade sobre adoção, onde antes havia tabu. Mas ainda há receios legítimos, sobretudo da parte dos pais adotivos, que temem a reação da criança ao descobrir a verdade, ou que ela procure os pais biológicos, ou que os abandone. São sentimentos delicados e compreensíveis. O que Pedro quer que se compreenda é que uma criança adotada não é inferior a uma criança biológica. São crianças que nada fizeram para estar numa casa de acolhimento e que têm todas as qualidades do mundo. Só precisam de uma oportunidade.

Família é o nosso alicerce. Graças ao meu pai e à minha mãe tive as bases que uma criança deve ter.
— Pedro Furtado, adotado aos 25 anos
O processo de adoção em Portugal é demasiado burocrático. Há muitas etapas que atrasam o amor que uma criança poderia já estar a receber.
— Pedro Furtado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O número duplicou, mas ainda há crianças à espera. Como é que isso é possível?

Model

Porque o desajuste é profundo. As famílias querem bebés entre zero e três anos. As crianças disponíveis são mais velhas. É um problema de expectativa, não de falta de amor.

Inventor

E o processo em si — é realmente tão lento quanto parece?

Model

Sim. Há sentença, notificação, caracterização, preparação psicológica, procura de família. Cada passo leva meses. Uma criança fica à espera enquanto isso acontece.

Inventor

Pedro fala muito em burocracia. Mas será que simplificar é a solução?

Model

Ele acredita que sim. Diz que há etapas que atrasam o amor que a criança poderia já estar a receber. Tem razão — mas também há etapas que protegem a criança de más escolhas.

Inventor

Ele descobriu que era adotado aos oito anos. Isso não o magoou?

Model

Não. Diz que foi bom terem-lhe contado cedo, porque viveu a vida toda com essa informação e a assimilou naturalmente. Se tivesse sabido aos vinte, o impacto teria sido muito maior.

Inventor

E agora que descobriu os pais biológicos?

Model

Ainda não tem contacto com eles. Diz que não é por opção sua no caso dos pais. Gostaria de contactar a irmã, mas ainda não teve coragem. São feridas recentes.

Inventor

O que o move a defender a adoção com tanta convicção?

Model

Sabe o que poderia ter sido diferente. Cresceu numa família que o amou, que lhe deu estrutura, valores, oportunidade. Vê crianças que não têm isso e parte-lhe o coração.

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