ASGE atualiza diretrizes para tratamento endoscópico de estenoses colônicas

O stent abre a passagem, estabiliza o paciente, depois faz-se a cirurgia em condições controladas
Explicação do conceito de stent como ponte para cirurgia eletiva em obstruções malignas ressecáveis.

Stents metálicos não recobertos são recomendados como ponte para cirurgia eletiva em câncer colorretal ressecável, aumentando anastomose primária e reduzindo estomas permanentes. Para tumores irressecáveis, stents paliativos reduzem estomas permanentes e complicações, mas requerem decisão compartilhada quando há uso de bevacizumabe devido ao risco de perfuração.

  • Stents metálicos não recobertos aumentam anastomose primária em mais do que o dobro em câncer colorretal ressecável
  • Reduzem estomas permanentes em 85% em tumores irressecáveis
  • Sucesso clínico de apenas 74% em obstruções por neoplasias extracolônicas
  • Dilatação por balão alcança 88% de sucesso em estenoses benignas, contra 56% com stent

A American Society for Gastrointestinal Endoscopy publicou em 2026 diretrizes atualizadas sobre o manejo endoscópico de estenoses colônicas benignas e malignas, consolidando 15 anos de evidências e estabelecendo protocolos estruturados para decisões clínicas complexas.

A American Society for Gastrointestinal Endoscopy publicou em 2026 um documento que reescreve o manual para tratar obstruções do cólon — tanto as causadas por tumores quanto as benignas. É a primeira atualização em 16 anos, e ela chega carregada de dados: dezenas de ensaios clínicos randomizados e meta-análises acumuladas desde 2010, quando a última diretriz foi lançada. O timing importa porque a medicina mudou. Os novos tratamentos oncológicos trouxeram novas complicações. Os endoscopistas desenvolveram técnicas que antes eram impensáveis. E os cirurgiões precisam saber quando deixar o tubo fazer o trabalho em vez de levar o paciente para a sala de cirurgia.

As estenoses colônicas — estreitamentos do intestino grosso — aparecem em cerca de 10% dos pacientes com câncer colorretal. Também acometem pessoas com doença de Crohn, diverticulite e aquelas que passaram por cirurgias abdominais. Quando o cólon fica obstruído por um tumor, a situação é urgente. O intestino funciona como uma alça fechada, o risco de isquemia cresce, a parede pode perfurar. Historicamente, isso significava cirurgia de emergência — com toda a morbimortalidade que acompanha uma intervenção feita sob pressão. A diretriz de 2026 oferece um caminho diferente.

Para tumores ressecáveis — aqueles que podem ser removidos cirurgicamente — a ASGE recomenda o uso de stents metálicos autoexpansíveis não recobertos como ponte para cirurgia eletiva. A ideia é simples: coloca-se o stent por endoscopia, abre-se a passagem, estabiliza-se o paciente, e depois, em condições controladas, faz-se a cirurgia. A meta-análise que sustenta essa recomendação incluiu oito ensaios clínicos com 665 pacientes. Os números falam: comparado à cirurgia de emergência, o stent aumentou a taxa de anastomose primária — a costura do intestino sem necessidade de bolsa de colostomia — em mais do que o dobro (razão de chances 2,35). Reduziu pela metade a necessidade de estoma permanente. E diminuiu eventos adversos pós-operatórios em mais de metade. A mortalidade em 60 dias e a sobrevida em três anos foram similares. Mas há um incômodo: o stent foi associado a maior recorrência oncológica, com razão de chances de 1,84. É um sinal de alerta que deve ser discutido com o paciente antes de qualquer consentimento.

Quando o tumor não pode ser removido — é irressecável — a recomendação muda. Aqui, o stent paliativo vence a cirurgia paliativa. A análise reuniu cinco ensaios clínicos e 12 estudos observacionais, totalizando 1.435 pacientes. O stent reduziu estomas permanentes em 85%, diminuiu complicações e encurtou internações em quase cinco dias. Mas há uma ressalva importante: o bevacizumabe, um inibidor de VEGF usado em certos cânceres, pode aumentar o risco de perfuração relacionada ao stent. Nesse cenário, a decisão deve ser compartilhada entre endoscopista, cirurgião e oncologista.

Neoplasias que vêm de fora do cólon — câncer ovariano, prostático, peritoneal, linfoma — também causam obstrução colônica. Aqui, o stent funciona menos bem. Não existem ensaios clínicos comparando stent com cirurgia. A evidência vem de oito estudos observacionais com 1.048 pacientes. O sucesso técnico foi de 89%, mas o clínico caiu para 74%. A taxa de falha foi significativamente maior do que em obstruções por câncer colorretal. A diretriz recomenda individualização, considerando a biologia do tumor, expectativa de vida e características da estenose.

Para estenoses benignas — aquelas que não são câncer — a abordagem é diferente. A dilatação com balão é a primeira linha, não o stent. Uma meta-análise de 17 estudos mostrou que o stent teve sucesso clínico em apenas 56% dos casos, enquanto a dilatação alcançou 88%. O stent causou eventos adversos em 39% dos pacientes, principalmente por migração. Para estenoses curtas que não respondem à dilatação, os stents de aposição luminal emergem como alternativa, embora ainda apresentem taxa de migração de 46%. Na doença de Crohn, o único ensaio clínico disponível confirmou que a dilatação endoscópica é superior ao stent, com sucesso em um ano de 80% contra 51%.

O que muda na prática é uma hierarquia clara. Para obstrução maligna ressecável ou irressecável, o stent metálico não recoberto é a preferência. Para estenoses benignas curtas, começa-se com dilatação por balão. Quando isso falha, entram em cena os stents de aposição luminal e a estricturotomia endoscópica — cortar a cicatriz com um bisturi endoscópico — para aqueles com expertise técnica disponível. Quinze anos de evidências condensadas em recomendações que tentam equilibrar o que a ciência diz com o que cada paciente, cada tumor, cada corpo específico exige.

O risco de recorrência oncológica associado ao stent deve ser discutido com o paciente no consentimento informado
— Recomendação da ASGE 2026
Em tumores irressecáveis com uso de bevacizumabe, a decisão deve ser compartilhada entre endoscopista, cirurgião e oncologista
— Diretriz ASGE 2026
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que essa diretriz demorou 16 anos para ser atualizada? A medicina não muda mais rápido?

Model

Muda, mas diretrizes precisam de evidência sólida. Desde 2010, dezenas de ensaios clínicos foram publicados. Você não reescreve um manual com um ou dois estudos. Você espera até ter padrão claro.

Inventor

E o que mudou tanto que justificou essa espera?

Model

Os stents ficaram melhores. Os oncologistas trouxeram novos medicamentos que criam novos riscos. Os endoscopistas aprenderam técnicas que antes eram impossíveis. Tudo isso junto exigiu uma reavaliação completa.

Inventor

Esse risco de recorrência oncológica com o stent — é um dealbreaker?

Model

Não é dealbreaker, mas é conversa séria. O paciente ganha qualidade de vida agora — sem estoma permanente, menos complicações. Mas há risco de o câncer voltar mais cedo. Você pesa isso junto com ele.

Inventor

E nos tumores que não podem ser removidos? O stent é sempre a resposta?

Model

Quase sempre, mas não sempre. Se o paciente está tomando bevacizumabe, a conversa muda. O risco de perfuração sobe. Aí você senta com o cirurgião e o oncologista e decide junto.

Inventor

Por que as estenoses benignas são tão diferentes?

Model

Porque não há câncer. Você quer o tratamento menos invasivo possível. Começa com um balão. Se funcionar, pronto. Se não funcionar, aí sim você pensa em stent ou em cortar a cicatriz.

Inventor

E quando nada funciona?

Model

Aí você volta para a cirurgia. Mas a diretriz tenta adiar isso o máximo possível, porque cirurgia é mais risco, mais tempo de internação, mais chance de complicações.

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