Abep critica 'Selo Acurácia' do TSE: 'confundir ciência com bola de cristal'

Exigir que uma pesquisa acerte é confundir ciência com bola de cristal
A Abep critica a proposta do TSE de premiar institutos cujas estimativas mais se aproximarem dos resultados das urnas.

Abep afirma que pesquisas medem intenção de voto no momento da entrevista, não são previsões, e exigir acerto é 'confundir ciência com bola de cristal'. Associação alerta que o selo criaria incentivo 'perverso' para institutos ajustarem números e enfraqueceria rigor metodológico em favor de prêmios.

  • Abep reúne institutos como Datafolha, Quaest, Ipsos e outros
  • Datafolha, Quaest, Ipec, Ipsos-Ipespe e MDA manifestaram posição contrária ao selo
  • TSE recebe sugestões até sexta-feira antes de finalizar proposta
  • Proposta nasceu após suspensão de pesquisa da AtlasIntel em maio

A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa critica proposta do TSE de criar 'Selo Acurácia Eleitoral' para premiar institutos com estimativas mais próximas dos resultados das urnas, argumentando que confunde ciência com previsão.

O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, reuniu-se com representantes dos principais institutos de pesquisa do país na terça-feira para apresentar uma proposta que promete reconhecer e premiar as empresas cujas estimativas mais se aproximarem dos resultados oficiais das eleições. A iniciativa, batizada de "Selo Acurácia Eleitoral", seria concedida apenas em anos de eleições gerais, com o TSE responsável pelas pesquisas presidenciais e os tribunais regionais pelas pesquisas de governador.

A reação veio rápida. A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, que reúne institutos como Datafolha, Quaest, Ipsos e outros, divulgou uma nota criticando duramente a proposta. Para a Abep, o selo parte de uma premissa fundamentalmente equivocada sobre o que as pesquisas eleitorais realmente fazem. Elas medem a intenção de voto no momento exato em que são realizadas, argumenta a associação, não são previsões nem promessas sobre o futuro. Entre a entrevista e o dia da votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa "acerte" o resultado, diz a Abep em sua nota, é "confundir ciência com bola de cristal".

Mas a crítica vai além dessa questão conceitual. A associação alerta que o mecanismo de premiação criaria um incentivo "perverso" para práticas oportunistas. Institutos sem rigor metodológico poderiam simplesmente acompanhar as pesquisas de institutos sérios e ajustar seus números para convergir ao consenso. Pior ainda: quando o objetivo passa a ser conquistar o selo, o incentivo deixa de ser produzir a melhor pesquisa possível e passa a ser publicar o número que maximize a chance de receber o prêmio. Essa lógica, segundo a Abep, enfraquece a qualidade da informação oferecida ao leitor.

A associação também expressa preocupação especial com o fato de a Justiça Eleitoral buscar assumir o papel de "árbitro de qualidade" nas pesquisas. A avaliação da qualidade de um levantamento, argumenta, deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas, não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada. Apesar das críticas, a Abep reafirma seu respeito ao tribunal e seu papel fundamental na garantia da lisura das eleições, pedindo apenas que iniciativas dessa natureza sejam construídas em diálogo com a comunidade científica e os institutos de pesquisa.

Durante o encontro, Datafolha, Quaest, Ipec, Ipsos-Ipespe e MDA manifestaram posição contrária à criação do selo. Kassio, porém, afirmou aos participantes que o documento distribuído representa apenas uma proposta inicial. O tribunal continuará recebendo sugestões até a próxima sexta-feira, incluindo contribuições que já começaram a ser apresentadas pelos institutos. A minuta apresentada trata exclusivamente da criação do selo, mas a expectativa dentro do tribunal é que as sugestões encaminhadas pelas empresas também sirvam de base para uma resolução mais ampla sobre pesquisas eleitorais, disciplinando aspectos relacionados à transparência, ao registro e à divulgação dos levantamentos.

O selo consideraria apenas pesquisas registradas regularmente no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais e efetivamente divulgadas, em duas categorias: pesquisas de boca de urna e levantamentos publicados nos sete dias que antecedem o pleito. O texto também estabelece hipóteses de exclusão da premiação, como condenações definitivas por divulgação de pesquisa fraudulenta ou irregularidades graves que resultem na suspensão ou invalidação do levantamento.

Na abertura da reunião, Kassio afirmou que o objetivo era "fortalecer o diálogo institucional" com as empresas responsáveis pelas pesquisas eleitorais e promover uma troca de informações sobre as metodologias utilizadas. O ministro ressaltou que a Justiça Eleitoral não pretende discutir resultados de pesquisas específicas nem interferir na autonomia técnica dos institutos, mas construir um ambiente permanente de cooperação para ampliar a confiança pública. Ao anunciar a proposta, Kassio também afirmou que chegou o momento de a Justiça Eleitoral "laurear as empresas que, a cada ciclo, dedicam seus melhores esforços em favor da democracia".

O encontro faz parte das discussões iniciadas pelo TSE após a polêmica envolvendo a suspensão de uma pesquisa da AtlasIntel sobre os impactos do caso Banco Master na imagem do senador Flávio Bolsonaro. No fim de maio, Kassio determinou a suspensão da divulgação do levantamento após representação apresentada pelo PL, entendendo que parte das perguntas poderia induzir respostas dos entrevistados. A medida provocou reação da AtlasIntel e abriu um debate entre especialistas sobre os limites da atuação da Justiça Eleitoral na fiscalização dos levantamentos. Foi a partir desse episódio que o TSE passou a discutir possíveis mudanças na regulamentação das pesquisas eleitorais.

Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento
— Abep, em nota
Chegou o momento de a Justiça Eleitoral laurear as empresas que, a cada ciclo, dedicam seus melhores esforços em favor da democracia
— Ministro Kassio Nunes Marques
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Inventor

Por que a Abep vê o selo como tão problemático? Não seria apenas um reconhecimento de qualidade?

Model

Porque transforma a pesquisa em uma competição por prêmio em vez de uma busca por verdade metodológica. Se o objetivo é ganhar o selo, o incentivo muda.

Inventor

Mas institutos sérios não continuariam fazendo pesquisas sérias?

Model

Talvez. Mas cria espaço para que institutos menores ou menos rigorosos simplesmente copiem os números dos grandes. E quando todos convergem para o mesmo número, ninguém está realmente pesquisando mais.

Inventor

Então o problema é que o selo premia o resultado, não o método?

Model

Exatamente. Uma pesquisa pode ter metodologia impecável e ainda estar "errada" porque as pessoas mudaram de opinião entre a entrevista e a votação. Premiar proximidade com o resultado final confunde previsão com ciência.

Inventor

O TSE está tentando melhorar a qualidade das pesquisas ou está tentando controlar o que elas dizem?

Model

Kassio diz que é a primeira coisa. Mas quando a Justiça Eleitoral começa a definir o que é "acurado", fica difícil separar as duas coisas. A Abep quer que essas decisões sejam tomadas em diálogo com os cientistas, não impostas.

Inventor

E o que vem agora?

Model

O TSE recebe sugestões até sexta-feira. Provavelmente vai reformular a proposta. Mas a discussão maior sobre transparência e registro de pesquisas vai continuar.

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