Os mercados respiram fundo numa semana de decisões e feriados
Numa semana em que os grandes bancos centrais do mundo — Japão, Estados Unidos e Inglaterra — se reúnem para decidir o rumo das taxas de juro, os mercados globais navegam com menor liquidez, pressionados por feriados internacionais e pela sombra persistente dos conflitos geopolíticos. Em Portugal, o Banco de Portugal revê as suas projeções em baixa para o crescimento e em alta para a inflação, enquanto a Semapa distribui dividendos e o país regressa ao mercado de dívida. É uma semana em que as decisões de poucos pesam sobre a estabilidade de muitos.
- Os conflitos no Médio Oriente continuam a pressionar os preços da energia e das matérias-primas, forçando o Banco de Portugal a rever o crescimento para 1,8% e a inflação para 2,8% em 2026.
- Kevin Warsh lidera a sua primeira reunião à frente da Fed, e os mercados observam cada palavra sua em busca de sinais sobre a nova direção da política monetária americana.
- No Japão, o Banco Central deverá subir as taxas em 25 pontos base, com a conferência de imprensa entregue ao vice-governador Uchida após a hospitalização do governador Ueda.
- Portugal leiloa até 1.250 milhões de euros em bilhetes do Tesouro a 11 meses, num mercado de dívida ainda perturbado pela incerteza geopolítica.
- A semana fecha com liquidez reduzida: Wall Street celebra o Juneteenth e as bolsas asiáticas encerram para o Dragon Boat Festival, esvaziando o volume global de negociação.
A semana que se avizinha concentra algumas das decisões mais observadas do calendário financeiro global, mas com um mercado mais silencioso do que o habitual: Wall Street encerrará na sexta-feira para celebrar o Juneteenth, e as bolsas da China, Hong Kong e Taiwan também pararão para o Dragon Boat Festival.
Em Portugal, o Banco de Portugal abre a semana com o seu boletim económico, atualizando as projeções de março. A guerra no Médio Oriente, ao pressionar os preços do petróleo, do gás e dos fertilizantes, levou o supervisor a rever em baixa o crescimento esperado para 1,8% e em alta a inflação para 2,8% em 2026. Na bolsa, a Semapa inicia na quarta-feira a distribuição de um dividendo bruto de 0,626 euros por ação — fruto de lucros de 156,6 milhões de euros em 2025 —, com as ações a perderem o direito ao pagamento a partir de segunda-feira. No mesmo dia, a IGCP leiloa bilhetes do Tesouro a 11 meses, com um montante indicativo até 1.250 milhões de euros.
No plano internacional, o Banco Central do Japão deverá anunciar na madrugada de terça-feira uma subida de 25 pontos base nas taxas de juro, com o vice-governador Shinichi Uchida a assumir a conferência de imprensa na ausência do governador Kazuo Ueda, hospitalizado. Nos Estados Unidos, Kevin Warsh, recentemente empossado como presidente da Fed, lidera a sua primeira reunião de política monetária — espera-se que as taxas se mantenham, mas o mercado estará atento ao tom do novo responsável. No Reino Unido, o Banco de Inglaterra deverá manter a taxa em 3,75%, apesar da inflação crescente e de uma contração de 0,1% na economia britânica registada em abril.
A semana que se aproxima será marcada por decisões cruciais dos principais bancos centrais do mundo, mas com um calendário reduzido: Wall Street fechará na sexta-feira, deixando os mercados globais com menor liquidez e volume de negociação.
Em Portugal, o Banco de Portugal divulga esta segunda-feira o seu boletim económico, trazendo atualizações às projeções que havia feito em março. Nessa altura, com a guerra no Médio Oriente já a pressionar os preços do petróleo, do gás natural e dos fertilizantes, o supervisor reviu em baixa as suas estimativas para o país. Espera agora um crescimento de 1,8% para este ano — uma redução face às expectativas anteriores. A inflação, porém, subiu significativamente nas projeções: o Banco de Portugal antecipa agora 2,8% para 2026, refletindo o impacto dos conflitos geopolíticos nos custos de energia e matérias-primas.
Na bolsa portuguesa, a Semapa começa a distribuir dividendos a partir de quarta-feira. O dividendo bruto proposto é de 0,626 euros por ação, resultado dos lucros de 156,6 milhões de euros registados no ano passado. A partir de segunda-feira, as ações deixam de conferir direito ao pagamento. O dividendo líquido varia consoante o regime fiscal aplicado: será de 0,45072 euros se deduzido em sede de IRC, ou 0,4695 euros se deduzido em sede de IRS.
No Japão, o Banco Central divulga a sua decisão de política monetária na madrugada de terça-feira. Espera-se que aumente as taxas de juro em 25 pontos base. A decisão será explicada em conferência de imprensa pelo vice-governador Shinichi Uchida, uma vez que o governador Kazuo Ueda se encontra hospitalizado.
Portugal volta ao mercado de dívida de curto prazo esta quarta-feira. A IGCP tem agendado um leilão de bilhetes do Tesouro com maturidade de 11 meses, com um montante indicativo até 1.250 milhões de euros. O mercado tem sido afetado pela incerteza gerada pela situação no Médio Oriente, criando pressão nos preços da dívida.
Nos Estados Unidos, Kevin Warsh, que tomou posse como novo presidente da Reserva Federal no final de maio, vai liderar a sua primeira reunião de política monetária. Espera-se que a Fed mantenha as taxas de juro inalteradas, mas o mercado acompanhará de perto o tom do novo líder, tentando avaliar a sua abordagem à política monetária.
O Banco de Inglaterra deverá manter a taxa de juro diretora em 3,75% na reunião de quinta-feira, apesar da escalada da inflação. Um inquérito trimestral divulgado pela autoridade monetária indica um aumento na perceção pública da inflação, comparativamente ao período anterior aos ataques de EUA e Israel ao Irão. No mesmo dia, ficou conhecido que a economia britânica contraiu em abril, com uma queda de 0,1% na comparação mensal.
A semana será de menor liquidez porque várias praças estarão fechadas na sexta-feira. As bolsas dos Estados Unidos celebram o Juneteenth, conhecido como o "segundo Dia da Independência" americano, em memória do dia em 1865 em que os afro-americanos escravizados em Galveston, no Texas, foram libertados, mais de dois anos após a Proclamação da Emancipação. As bolsas da China, Hong Kong e Taiwan também estarão encerradas em celebração do Dragon Boat Festival.
Notable Quotes
O Banco de Portugal espera agora um crescimento de 1,8% este ano e uma inflação de 2,8%, refletindo o impacto da guerra no Médio Oriente nos preços de energia e matérias-primas— Banco de Portugal
O Banco de Inglaterra deverá manter a taxa de juro diretora em 3,75%, apesar da escalada da inflação— Banco de Inglaterra
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que é que as projeções do Banco de Portugal mudaram tanto em apenas três meses?
A guerra no Médio Oriente não era previsível em detalhe. Quando o Banco fez as suas projeções em março, já havia sinais de conflito, mas os preços do petróleo, gás e fertilizantes continuaram a subir de forma mais acentuada do que se esperava. Isso força o supervisor a reconhecer que a inflação será mais teimosa do que pensava.
E o crescimento? 1,8% parece baixo para Portugal.
É. Mas quando a energia fica mais cara e a inflação sobe, as empresas e as famílias gastam menos em outras coisas. O crescimento abrandava naturalmente. O Banco estava a ser otimista em março; agora está a ser realista.
A Semapa está a distribuir quase 157 milhões em lucros. Isso é bom sinal?
Significa que a empresa teve um ano sólido em 2025. Mas o timing é interessante — está a distribuir dividendos numa semana em que os mercados estão mais tensos, com menos liquidez. Alguns investidores podem estar a vender para capturar o dividendo, outros a comprar para o receber.
E o Banco do Japão? Por que aumenta juros agora?
O Japão tem lutado contra a deflação durante décadas. Quando finalmente vê inflação a subir, precisa de agir. Mas o governador está hospitalizado — isso cria incerteza sobre a continuidade da política.
Kevin Warsh é uma escolha controversa para a Fed?
Warsh é visto como mais dovish do que alguns esperavam. A sua primeira reunião será observada com atenção porque o mercado quer saber se ele vai manter o curso ou mudar de direção. O tom importa tanto quanto a decisão.
Por que é que o Banco de Inglaterra não corta juros apesar da contração económica?
Porque a inflação ainda é uma ameaça. O BoE está preso entre duas forças: a economia enfraquece, mas os preços sobem. Manter os juros é uma escolha defensiva — espera que a inflação ceda antes de começar a cortar.