São infiltrações, não avanços. São grupos de um ou dois homens.
Forças russas realizam infiltrações lentas em Kostyantynivka e Lyman, mas não consolidam posições; Kremlin publica alegações exageradas e possíveis imagens alteradas por IA. Ucrânia admite deterioração da situação mas afirma estar a conter avanços inimigos; Rússia pode ter imposto prazo de setembro para conquistar Donbass, objetivo improvável segundo analistas.
- Rússia avança lentamente em Kostyantynivka e Lyman; Kremlin publica imagens possivelmente alteradas por IA
- Ucrânia admite deterioração mas afirma estar a conter avanços; prazo de setembro para Donbass é improvável
- Kiev ataca Moscovo três vezes em uma semana; Crimeia fica sem energia e isolada por drones
A Rússia continua a avançar lentamente no Donbass ucraniano, mas especialistas alertam que o Kremlin exagera os ganhos territoriais para criar narrativa de sucesso, enquanto Kiev intensifica ataques de longo alcance contra infraestruturas russas.
A Rússia está a avançar no Donbass, mas o avanço é tão lento e tão frágil que o Kremlin precisa de mentir sobre ele. Isso é o que emerge de conversas com soldados ucranianos na linha da frente, analistas independentes e, implicitamente, das próprias ações de Moscovo — que publica vídeos de bandeiras hasteadas cuja autenticidade ninguém consegue confirmar, e que recorre a imagens possivelmente alteradas por inteligência artificial para sustentar narrativas de vitória.
Na região de Donetsk, no leste ucraniano, as forças russas concentraram a maior parte das suas tropas e estão focadas em dois objetivos principais: cercar a cidade de Kostyantynivka e a cidade de Lyman, ambas peças críticas no que os ucranianos chamam de "cinturão de fortalezas" — um conjunto de cidades industriais, caminhos-de-ferro e estradas que formam a espinha dorsal da defesa do país. Mas o que a agência estatal russa TASS descreveu esta segunda-feira como "controlo total" da parte leste de Kostyantynivka é, na realidade, algo muito diferente. Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, um think tank sediado em Washington, partes da cidade tornaram-se uma "zona cinzenta" disputada — nenhum dos lados a controla verdadeiramente.
Katerina Stepanenko, chefe da equipa do Instituto para o Estudo da Guerra focada na Rússia, descreve o que está a acontecer com precisão: "São infiltrações, não avanços. São grupos de talvez um ou dois homens, militares russos, a entrar em algumas posições na cidade… não é uma posição consolidada." A tática é lenta e desgastante. Os russos precisam de muito tempo e muitos recursos para transformar estas pequenas penetrações em posições realmente consolidadas. Num caso documentado, as forças ucranianas avistaram um único soldado russo a avançar. Kostiantyn Melnykov, oficial de imprensa da 24.ª Brigada Mecanizada da Ucrânia, admite à CNN que a situação em Kostyantynivka se tem deteriorado visivelmente nas últimas semanas, com o inimigo a aumentar o número de ataques aéreos. Mas acrescenta que as unidades ucranianas estão a matar tropas russas, a destruir equipamento e a conter forças inimigas que são muito superiores em número.
A estratégia russa de enviar pequenos grupos de infantaria para se infiltrarem nas cidades é a mesma que Moscovo usou para tomar Pokrovsk no início de 2026 — uma batalha que se estendeu por meses e foi marcada por declarações prematuras de captura. Há várias razões para esta intensificação agora. Um comandante russo publicou no Telegram que as suas forças conseguiram avançar usando a cobertura da vegetação de verão. As boas condições meteorológicas facilitam o voo de drones. E há relatos de que o Kremlin impôs um prazo até setembro para conquistar toda a região de Donbass — um objetivo que o Instituto para o Estudo da Guerra considera improvável. Mas a razão mais importante, segundo Stepanenko, é que o Kremlin quer "declarar vitórias informativas". A Rússia está a enfrentar vulnerabilidades significativas neste momento, particularmente após os recentes ataques ucranianos às infraestruturas na Crimeia ocupada, em Kherson e noutros locais. As infiltrações são uma forma de fazer "grandiosas declarações de vitórias sem, de facto, atingir plenamente os seus objetivos".
O Instituto para o Estudo da Guerra documentou que as autoridades russas intensificaram recentemente uma campanha para usar imagens possivelmente alteradas por inteligência artificial para reforçar alegações exageradas de sucessos. O Ministério da Defesa da Rússia publicou um vídeo das suas tropas a hastear uma bandeira em Lyman cuja veracidade não foi possível verificar, e há razões para acreditar que as imagens possam ter sido alteradas. Em Lyman, as forças ucranianas observam de facto uma intensificação significativa da atividade, particularmente a norte da cidade, mas o porta-voz das Forças Armadas da Ucrânia, Viktor Tregubov, insiste que as forças ucranianas têm repelido o avanço inimigo. Tregubov sugeriu que os russos estão a tentar obter alguns resultados antes que a situação logística — incluindo o fornecimento de combustível e lubrificantes — comece a afetá-los verdadeiramente.
Enquanto isso, Kiev intensificou dramaticamente os seus ataques com drones de longo alcance contra grandes cidades russas e infraestruturas críticas. Na madrugada de domingo para segunda-feira, a Ucrânia atacou a área metropolitana de Moscovo pela terceira vez em uma semana. Uma semana antes, atingiu uma instalação petrolífera nos arredores de Moscovo — um ataque de grande escala durante o qual um míssil de defesa russo aparentemente falhou o alvo e explodiu acidentalmente a tampa de um tanque de armazenamento. Vladimir Putin respondeu afirmando que as Forças Armadas da Ucrânia estão a atacar infraestruturas civis com drones numa tentativa de desestabilizar a sociedade russa, mas demonstrou confiança nos objetivos de guerra russos, dizendo: "Chegaremos onde precisamos de chegar".
A Crimeia, a península ucraniana ocupada pela Rússia desde 2014, tornou-se alvo de uma campanha de ataques particularmente intensa. Kiev destruiu uma ponte ferroviária sobre o Canal da Crimeia do Norte e atingiu um depósito de petróleo durante a madrugada de terça-feira. A maior cidade da Crimeia, Sebastopol, ficou sem energia após ataques ucranianos à principal subestação elétrica, deixando duas pessoas feridas. As autoridades locais cancelaram campos de férias para crianças e suspenderam todas as atividades desportivas ao ar livre. Durante o fim de semana, quatro pessoas morreram e 28 ficaram feridas em ataques com drones. A Marinha da Ucrânia afirmou ter atingido vários ferries utilizados para transportar equipamento militar russo para a península. Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia, alertou que "essencialmente, a Crimeia está a ser isolada por drones. E, num futuro próximo, tudo indica que a Crimeia se vai transformar numa ilha".
Notable Quotes
São infiltrações, não avanços. São grupos de talvez um ou dois homens, militares russos, a entrar em algumas posições na cidade… não é uma posição consolidada.— Kateryna Stepanenko, chefe da equipa do Instituto para o Estudo da Guerra na Rússia
Essencialmente, a Crimeia está a ser isolada por drones. E, num futuro próximo, tudo indica que a Crimeia se vai transformar numa ilha.— Mykhailo Fedorov, ministro da Defesa da Ucrânia
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que o Kremlin sente necessidade de exagerar estes avanços se está realmente a ganhar terreno?
Porque o terreno que está a ganhar é tão pequeno e tão caro em vidas que não é suficiente para uma narrativa de vitória. Uma ou duas infiltrações de soldados numa cidade não é uma conquista — é apenas um custo de sangue que precisa de ser justificado internamente.
Mas os ucranianos admitem que a situação está a piorar. Isso não significa que a Rússia está a vencer?
Piorar localmente não é o mesmo que vencer. A Ucrânia está a conter avanços superiores em número enquanto simultaneamente destrói infraestruturas russas a centenas de quilómetros de distância. É uma guerra de atrito onde ambos os lados sofrem, mas o Kremlin precisa de contar histórias de progresso para justificar o custo.
Porque é que as imagens falsificadas por IA importam tanto? Não é apenas propaganda?
É propaganda, mas propaganda que revela desespero. Se tivesses posições consolidadas e vitórias reais, não precisavas de alterar vídeos. O facto de estarem a fazer isto sugere que a realidade no terreno não corresponde ao que querem que o mundo acredite.
E os ataques ucranianos à Crimeia — isso é uma mudança de estratégia?
É uma resposta lógica. Se a Rússia não consegue avançar significativamente no Donbass, a Ucrânia torna a guerra cara noutros lugares. Isolam a Crimeia, cortam linhas de abastecimento, destroem infraestruturas energéticas. Forçam Moscovo a escolher onde defender.
Qual é o cenário mais provável daqui a alguns meses?
A Rússia continua a infiltrar-se lentamente, a sofrer perdas pesadas, e a publicar vídeos duvidosos sobre vitórias. A Ucrânia continua a atacar infraestruturas russas. Ninguém conquista Donbass até setembro — esse prazo era irrealista desde o início.