turbo em cima de turbo
Nos últimos 15 anos, apenas 33% das 50 maiores ações do Ibovespa superaram o CDI, enquanto o índice subiu 170% contra 311% da renda fixa. As 50 principais ações do S&P 500 todas valorizaram mais que o CDI no período, com NVIDIA liderando com 50% de retorno médio anual.
- Apenas 33% das 50 maiores ações do Ibovespa superaram o CDI em 15 anos
- Ibovespa subiu 170% contra 311% do CDI no período
- As 50 principais ações do S&P 500 todas valorizaram mais que o CDI
- NVIDIA teve retorno médio anual de 50% em 15 anos
- IP Participações agora aloca 66% em exterior e 33% no Brasil
- Diferencial de juros Brasil-EUA está em 8,5% ao ano
- IP Capital administra R$ 2,7 bilhões
A IP Capital reposiciona seu principal fundo, alocando 66% em ações internacionais e 33% no Brasil, após constatar que apenas um terço das maiores empresas do Ibovespa superou o CDI nos últimos 15 anos.
A IP Capital chegou a uma conclusão incômoda depois de examinar 15 anos de dados do mercado brasileiro: a maioria das ações não bate a renda fixa. Das 50 companhias com maior peso no Ibovespa, apenas 33% conseguiram retornos superiores ao CDI nesse período. Enquanto o índice da Bolsa subiu 170%, o CDI avançou 311%. Nomes como WEG, Sabesp, RD Saúde, JBS e várias empresas de energia ficaram entre os vencedores, mas foram exceção, não regra.
Essa constatação levou a gestora a fazer uma aposta diferente. Se o Brasil não entrega, por que não olhar para fora? As 50 principais ações do S&P 500 — o índice americano — todas valorizaram mais que o CDI nesses mesmos 15 anos. A NVIDIA liderou com uma média anual de cerca de 50% de ganho. Tesla, Broadcom, Eli Lilly, Lam Research, Netflix, Micron Technology e Mastercard vieram na sequência. Não é apenas história de tecnologia, observam os gestores. Os Estados Unidos geram lucro em setores variados.
Mas há um detalhe crucial que torna essa estratégia particularmente atraente para um investidor brasileiro. A IP não aposta apenas na valorização das ações americanas. Ela faz uma operação de hedge vendendo dólar futuro e fica exposta ao diferencial de juros entre Brasil e EUA — o que o mercado chama de carrego. Hoje esse diferencial está em torno de 8,5% ao ano. Como os juros brasileiros continuam elevados, esse carrego é potente. Somado à capacidade de geração de valor do mercado americano, cria o que Pedro Andrade, um dos sócios e gestores da IP, descreve como "turbo em cima de turbo". A estratégia também funciona como proteção: quando o governo acelera o gasto fiscal, os juros sobem, e o retorno via carrego aumenta.
Essa lógica levou o IP Participações — o principal fundo da casa — a reposicionar sua carteira. Dois terços do patrimônio agora estão em ações no exterior, dos quais 70% nos Estados Unidos. O restante fica na Bolsa brasileira. Um ano atrás, a fatia Brasil era maior porque a gestora ainda via o mercado local como barato. Isso mudou depois da alta ao longo de 2025 e início de 2026. Hoje as maiores posições do fundo são Google, Microsoft e TSMC. No Brasil, o principal investimento é o Itaú, que está na carteira há mais de uma década. "O compounding é muito bom", diz Bruno Barreto, outro sócio e gestor. "Boring is beautiful."
A IP também investe em empresas que caíram de preço por medo — que a gestora vê como exagerado — de disrupção pela inteligência artificial. Mastercard, Visa, Constellation Software e Booking entram nessa categoria. Essas posições refletem uma visão de que nem toda empresa será destruída pela IA, e algumas podem estar sendo precificadas com desconto injustificado.
Essa reposicionamento é uma tentativa de reverter um período recente decepcionante. O IP Participações é um dos fundos de ações mais antigos do mercado. Desde 1994, rendeu em média 20% ao ano — ou 31 mil por cento no acumulado, o triplo do CDI. O Ibovespa subiu pouco mais de 5.383% nesse período. Mas nos últimos 12 meses, o fundo rendeu apenas 5%, bem abaixo dos 24% do Ibovespa e dos 15% do CDI. Em cinco anos, o fundo rendeu 28%, enquanto o Ibovespa subiu 31% e o CDI 77%. A gestora administra R$ 2,7 bilhões.
Notable Quotes
Como o juro aqui continua muito alto, o carrego é potente. Isso, somado à capacidade de geração de valor do mercado americano, é uma ótima alternativa de investimento para o brasileiro.— Pedro Andrade, sócio e gestor da IP Capital
O compounding é muito bom. Boring is beautiful.— Bruno Barreto, sócio e gestor da IP Capital
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a IP demorou tanto para perceber que o Ibovespa não bate a renda fixa?
Não é que ninguém soubesse disso. É que havia esperança de que o mercado brasileiro fosse barato e oferecesse oportunidade. Essa esperança durou até 2025, quando a Bolsa subiu bastante e a gestora viu que o preço não era mais atrativo.
E por que agora as ações americanas funcionam melhor?
Não é só a valorização das ações. É a combinação: as empresas americanas geram mais lucro, e o investidor brasileiro ganha um bônus extra com o diferencial de juros — o carrego de 8,5% ao ano.
Esse carrego é seguro? Não é um carry trade que pode desabar?
É um risco real. Mas a IP vê isso como proteção: se o governo acelera o gasto e os juros sobem, o carrego aumenta. É uma forma de se proteger contra cenários ruins.
Por que Itaú no Brasil e não outras ações?
Porque o Itaú tem um histórico de gerar valor consistente há mais de uma década. Quando você encontra uma empresa que compõe bem, você fica. Boring is beautiful.
A aposta em Mastercard e Visa — empresas que poderiam ser disruptadas pela IA — não é contraditória?
Não. A IP acha que o mercado está exagerando o medo. Essas empresas têm modelos de negócio sólidos e estão baratas por puro pânico. Às vezes o melhor investimento é em quem ninguém quer.