A China não é mais o país que copia. Agora, ela exporta tudo.
Empresas chinesas como Megvii e 4Paradigm aplicam IA em larga escala em infraestrutura urbana, pagamentos e operações corporativas, diferenciando-se da abordagem americana focada em modelos genéricos. O país registrou superávit comercial recorde de US$ 1,18 trilhão em 2025, com exportações de alta tecnologia crescendo 13% e veículos elétricos avançando 27% em um contexto de intensificação da guerra comercial.
- Megvii, startup de reconhecimento facial, avaliada em US$ 4 bilhões, opera em metrôs, aeroportos e centros de distribuição
- China registrou superávit comercial de US$ 1,18 trilhão em 2025, com exportações de alta tecnologia crescendo 13%
- Plano de US$ 295 bilhões para construir data centers de IA nos próximos cinco anos
- 4Paradigm, com receita de US$ 1 bilhão em 2025, atende mais de 160 empresas incluindo cinco maiores bancos estatais chineses
- MiniMax fez IPO em janeiro de 2026 em Hong Kong, captando US$ 690 milhões, com ações subindo 55% no primeiro pregão
A China avança rapidamente em inteligência artificial, robótica e reconhecimento facial com aplicações práticas em cidades, transportes e indústria, desafiando a liderança tecnológica dos EUA com investimentos estratégicos e ecossistemas de inovação.
Quando você chega à China pela primeira vez, o país já começa a contar sua história. No balcão de imigração de Pequim ou Xangai, depois de entregar o passaporte, uma voz digitalizada assume a conversa. Ela fala seu idioma. Ela sabe quem você é. É um cartão de visitas do que você vai encontrar nos próximos dias: uma nação que transformou inteligência artificial de conceito abstrato em infraestrutura cotidiana.
O contraste com o Ocidente é marcante. Enquanto os Estados Unidos e a Europa investem bilhões em projetos de IA que ainda parecem futurísticos e distantes da vida real, a China está fazendo outra coisa. Está usando a tecnologia agora. Noventa por cento das transações financeiras nas grandes cidades passam por códigos QR lidos no celular. As ruas estão cobertas de câmeras que não apenas vigiam, mas analisam comportamento, identificam rostos em multidões em milissegundos, gerenciam tráfego, detectam acidentes e acúmulos de lixo. Os carros elétricos não são exceção nas metrópoles chinesas—são a regra. A diferença fundamental, segundo Samuel Liao, diretor da Yingke Law Brasil e observador de longa data do país, é cultural: "Na China, boa parte dos líderes é engenheiro. Nos EUA, a maioria é advogado. Eles são bem mais focados no que é preciso fazer."
A Megvii é um exemplo concreto dessa abordagem. Fundada em 2011 por três estudantes da Universidade Tsinghua, a empresa de reconhecimento facial e visão computacional foi avaliada em 4 bilhões de dólares, tornando-se um dos primeiros unicórnios chineses. Seus sistemas rodam em metrôs, aeroportos, lojas de varejo, centros de distribuição. A empresa também desenvolveu pagamentos por reconhecimento facial e robôs que automatizam processos logísticos. Tudo isso começou com uma ideia simples: pegar a inteligência artificial e colocá-la para trabalhar no mundo físico, em escala.
O ecossistema que permitiu isso funcionar é tão importante quanto as empresas individuais. O TusPark, criado em 1994 como um parque de inovação ligado à Universidade Tsinghua, conecta academia, startups, grandes corporações, investidores e governo. Hoje, essa rede se estende a mais de 300 parques e incubadoras em 80 cidades de 50 países. Já produziu mais de 40 unicórnios e mais de 100 aberturas de capital. A 4Paradigm, fundada em 2014, saiu desse ecossistema para se tornar um dos principais nomes de inteligência artificial corporativa do país. Com receita de cerca de 1 bilhão de dólares em 2025, ela atende mais de 160 empresas—os cinco maiores bancos estatais chineses, BYD, Lenovo, DHL, Pizza Hut, KFC, TCL, Zegna. A empresa foi avaliada em 1,8 bilhão de dólares quando abriu capital em Hong Kong em 2023. Seu diferencial é pragmático: enquanto OpenAI e Anthropic constroem modelos de IA genéricos, a 4Paradigm cria soluções customizadas baseadas nos dados específicos de cada cliente, muitos deles já altamente digitalizados.
A robótica é outra prioridade estratégica. Em março deste ano, a China inaugurou em Guangdong a primeira fábrica do mundo onde robôs humanoides produzem outros robôs humanoides—um a cada trinta minutos. A Xiaomi, fabricante de smartphones, abriu uma fábrica de carros elétricos em Pequim onde 700 robôs alimentados por IA, com taxa de automação de 91%, produzem um veículo a cada 76 segundos. O governo chinês incluiu robótica e IA no seu novo plano quinquenal para 2026-2030, sinalizando que essa não é uma moda passageira, mas uma aposta estratégica de longo prazo.
Nem tudo é sucesso sem fricção. A MiniMax, uma das startups chinesas especializadas em modelos de linguagem grandes (LLMs), foi processada por Disney, Universal e Warner Bros. em tribunal da Califórnia. A acusação: ter usado indevidamente filmes e séries desses estúdios para treinar sua plataforma de criação de vídeos por IA, inclusive clonando personagens famosos. Um juiz distrital dos EUA rejeitou os argumentos da MiniMax e manteve o processo em andamento, abrindo a porta para sanções pesadas. A MiniMax, porém, continua crescendo. Fundada em 2021, fez seu IPO em janeiro deste ano em Hong Kong, captando 690 milhões de dólares e vendo suas ações subirem 55% no primeiro dia. Hoje é avaliada em 18,5 bilhões de dólares e tem 200 milhões de usuários ativos em mais de 200 países. Sua estratégia é clara: oferecer modelos de IA tão bons quanto os americanos, mas muito mais baratos.
Os números refletem essa trajetória. Em 2025, a China registrou superávit comercial recorde de 1,18 trilhão de dólares, alta de 20% sobre 2024. As exportações totalizaram 3,77 trilhões, expansão anual de 5,5%. Dentro disso, as exportações de bens de alta tecnologia—robôs, equipamentos de ponta—cresceram 13%. Veículos elétricos, baterias de lítio e produtos fotovoltaicos avançaram 27%. Segundo dados do Banco Mundial, a China saltou de 594,7 bilhões de dólares em exportações de alta tecnologia em 2016 para 825 bilhões em 2023. Essa diversificação foi estratégica: com a guerra comercial com os EUA se intensificando, a China buscou novos mercados na África e no sudeste asiático.
O governo está apostando ainda mais. Segundo a Bloomberg, a China está preparando um plano de 295 bilhões de dólares para construir data centers de IA em todo o país nos próximos cinco anos. Não é apenas sobre competir com os americanos em modelos genéricos de IA. É sobre construir a infraestrutura que permitirá que a inteligência artificial seja tão comum quanto a eletricidade. Samuel Liao resume a mudança: "Lá atrás, a China abriu o mercado e deixou investidores externos entrarem, mas sempre em parcerias com empresas locais. Eles aprenderam a tecnologia, absorveram o know-how. A China não é mais o país que copia. Agora, ela exporta tudo."
Notable Quotes
Na China, boa parte dos líderes é engenheiro. Nos EUA, a maioria é advogado. Eles são bem mais focados no que é preciso fazer.— Samuel Liao, diretor da Yingke Law Brasil
A China não é mais o país que copia. Agora, ela exporta tudo.— Samuel Liao, diretor da Yingke Law Brasil
The Hearth Conversation Another angle on the story
O que você viu nas ruas de Pequim e Xangai que mais o surpreendeu?
As câmeras. Não apenas que existem—existem em qualquer grande cidade. Mas o que elas fazem. Analisam comportamento, identificam rostos em multidões em milissegundos, gerenciam tráfego, detectam problemas. Não é vigilância passiva. É vigilância que trabalha.
E isso funciona? Quer dizer, os sistemas realmente entregam o que prometem?
Parece que sim. A Megvii está em metrôs, aeroportos, lojas. Não seria um unicórnio de 4 bilhões de dólares se não funcionasse. Mas há algo mais importante: a China não está esperando que a IA seja perfeita para usá-la. Está usando enquanto melhora.
Qual é a diferença entre a abordagem chinesa e a americana?
Os americanos constroem modelos genéricos de IA e depois procuram problemas para resolver. A China identifica um problema—pagamentos, logística, tráfego—e constrói uma solução específica com dados reais. Um é teórico. O outro é prático.
Mas a China não está enfrentando problemas legais? Ouvi falar de processos...
Sim. A MiniMax foi processada por Disney, Universal e Warner Bros. por usar filmes para treinar seus modelos. Um juiz americano rejeitou os argumentos da empresa. Mas isso não a parou. Ela continua crescendo, expandindo para outros mercados, oferecendo alternativas mais baratas aos produtos americanos.
Então a guerra comercial está mudando a forma como essas empresas operam?
Completamente. A 4Paradigm foi colocada na lista negra comercial dos EUA em 2023. Como resposta, expandiu para o sudeste asiático e Oriente Médio. A China não está tentando vencer nos mercados americanos. Está construindo seus próprios mercados.
E o governo chinês está apoiando isso?
Massivamente. O novo plano quinquenal prioriza IA, robótica, biotecnologia. E há um plano de 295 bilhões de dólares para data centers de IA nos próximos cinco anos. Não é uma aposta. É uma estratégia de estado.