Liberalismo virou tão flexível que consegue acomodar visões radicalmente diferentes
Há palavras que parecem sólidas mas escondem dentro de si séculos de disputas e transformações. 'Liberalismo' é uma delas: nascido das virtudes cívicas romanas, batizado politicamente no século 19 por Benjamin Constant e continuamente reinventado por pensadores tão distintos quanto Adam Smith, Keynes e Hayek, o conceito chegou ao presente como um espelho que reflete imagens opostas ao mesmo tempo. A historiadora Helena Rosenblatt, em obra já traduzida ao português, percorre essa longa arqueologia para mostrar que a confusão não é acidente — é a própria natureza do termo.
- Quando alguém se declara liberal hoje, pode estar dizendo coisas radicalmente opostas dependendo do país ou do século em que se situa.
- Nos Estados Unidos o rótulo migrou para a esquerda; na Europa e na tradição econômica, ancora pensadores de direita como Von Mises e Hayek — a mesma palavra, mundos distintos.
- Rosenblatt expõe uma tensão histórica esquecida: os liberais dos séculos 18 e 19 desconfiavam da democracia, pois o sufrágio universal de 1792 gerou o Terror e Napoleão se legitimou por plebiscito.
- A saída do liberalismo para sobreviver foi a plasticidade: abandonou teses filosóficas fixas e se converteu em método de governança, capaz de ser reivindicado simultaneamente pela esquerda e pela direita.
- O livro não resolve a contradição — revela sua profundidade, deixando o leitor diante do tamanho real da bagunça conceitual que governa o debate político contemporâneo.
Se alguém perguntar se você é liberal, a resposta será mais complicada do que parece. O termo carrega significados tão distintos e contradições tão profundas que responder com segurança é quase impossível. Nos Estados Unidos virou sinônimo de esquerda; mas o liberalismo também abriga Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Entre eles estão Adam Smith, John Stuart Mill e Keynes, cada um puxando a ideia para um lado diferente.
A historiadora Helena Rosenblatt decidiu mapear esse caos em 'A História Perdida do Liberalismo', já traduzido ao português. A obra começa em Roma Antiga, onde Cícero defendia virtudes do homem livre sem que existisse ainda qualquer doutrina chamada liberalismo. A palavra e sua ligação com política específica só surgiriam no século 19, sobretudo pelo francês Benjamin Constant, preocupado em preservar os ganhos de 1789 contra a reação conservadora.
O que surpreende é a desconfiança que os liberais históricos nutriam pela democracia. Havia razões concretas: a Convenção Nacional de 1792, convocada com sufrágio universal, desembocou no Terror; Napoleão consolidou o poder por plebiscitos. Para aqueles liberais, democracia sem salvaguardas era ameaça, não promessa.
Com o tempo, o liberalismo provou ser capaz de se reinventar. Sua plasticidade o transformou em algo que hoje pode ser defendido tanto pela esquerda quanto pela direita, porque o foco deixou de ser um conjunto fixo de teses filosóficas e passou a ser métodos de governança. É por isso que liberais de campos opostos acreditam estar defendendo a mesma coisa — e, de certa forma, estão, num conceito tão flexível que acomoda visões radicalmente diferentes sobre como a sociedade deveria funcionar.
Se alguém lhe perguntasse se você é liberal, a resposta seria mais complicada do que parece. O termo carrega tantos significados — e tantas contradições — que responder com segurança é quase impossível. Nos Estados Unidos, "liberal" virou sinônimo de esquerda. Mas o liberalismo também abraça os pensadores de direita como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Entre eles estão Adam Smith, John Stuart Mill e John Maynard Keynes, cada um puxando a ideia para um lado diferente. O conceito não é apenas naturalmente polissêmico; ele mudou de forma radical conforme os séculos passaram e as circunstâncias políticas se transformaram.
Helena Rosenblatt, historiadora que ganhou atenção após uma entrevista ao The New York Times, decidiu mapear esse caos. Seu livro, "A História Perdida do Liberalismo", já foi traduzido para o português e oferece uma tentativa séria de colocar ordem na confusão — ou, para quem ignorava a dimensão do problema, revela exatamente o tamanho da bagunça conceitual. De qualquer forma, é uma obra que merece leitura atenta.
Rosenblatt começa em Roma Antiga, onde o liberalismo tal como o conhecemos não existia, mas Cícero já defendia um conjunto de virtudes do homem livre que deveriam estruturar a República. A palavra "liberalismo" em si, e sua ligação com doutrinas políticas específicas, só apareceria no século 19, principalmente através do francês Benjamin Constant. Sua preocupação era preservar os ganhos da Revolução de 1789 contra os movimentos reacionários que vieram depois, tentando restaurar a velha ordem.
Hoje associamos liberalismo com democracia quase automaticamente. O par "democracia liberal" nos parece inevitável, natural, como se sempre tivesse sido assim. Mas não era. Os liberais dos séculos 18 e 19 desconfiavam profundamente da democracia. E tinham razões concretas para isso. A primeira eleição com sufrágio universal, convocada para a Convenção Nacional de 1792, desembocou no Terror. Depois, Napoleão consolidou seu poder através de plebiscitos — a vontade popular legitimando a ditadura. Para liberais daquela época, democracia sem salvaguardas era uma ameaça, não uma promessa.
Mas as instituições evoluem. O liberalismo provou ser um sistema capaz de se reinventar conforme os tempos mudavam. Essa plasticidade, essa capacidade de adaptação, transformou-o em algo que hoje pode ser defendido tanto pela esquerda quanto pela direita. O foco deixou de ser um conjunto fixo de teses filosóficas e passou a ser métodos de governança — formas de organizar o poder, distribuir decisões, proteger direitos. É por isso que você pode encontrar liberais em campos políticos opostos, cada um acreditando estar defendendo a mesma coisa. E, de certa forma, estão. Só que o liberalismo virou tão flexível que consegue acomodar visões radicalmente diferentes sobre como a sociedade deveria funcionar.
Citações Notáveis
Liberalismo é um conceito não só naturalmente polissêmico como também um que adquiriu diferentes significados em diferentes momentos históricos— Análise do livro de Helena Rosenblatt
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um livro sobre a história do liberalismo importa agora, em 2026?
Porque vivemos numa época em que o termo é invocado por gente que discorda fundamentalmente sobre tudo. Entender de onde veio, como mudou, ajuda a gente a ver que não estamos diante de uma verdade fixa, mas de um conceito que sempre foi disputado.
Então liberalismo nunca teve uma definição clara?
Nunca. Desde o começo — e o livro mostra isso bem — o termo significou coisas diferentes em lugares diferentes. O que um liberal francês entendia no século 19 não era exatamente o que um liberal britânico entendia.
E a relação com democracia? Como liberais passaram de desconfiar dela para abraçá-la?
Não foi uma conversão ideológica. Foi pragmatismo. Quando viram que democracia sem instituições fortes levava ao caos ou à ditadura, começaram a pensar em como proteger direitos individuais dentro de um sistema democrático. Liberalismo virou menos sobre uma filosofia pura e mais sobre como organizar o poder.
Isso significa que liberalismo perdeu seu significado?
Não perdeu. Transformou-se. Deixou de ser um conjunto de teses e virou um método — um jeito de pensar sobre governança que prioriza certos valores: direitos, instituições, limites ao poder. Mas esses valores podem ser perseguidos por gente de esquerda e de direita.
Então quando alguém diz que é liberal hoje, o que está realmente dizendo?
Está dizendo que acredita em certas formas de organizar o poder. Mas o que isso significa na prática — impostos, regulação, direitos sociais — varia enormemente. É por isso que a pergunta inicial é capciosa. A resposta depende de quem está perguntando e quem está respondendo.