A pele não é apenas um órgão de beleza. Ela é um espelho de doenças internas.
Em consultórios, ambulatórios e salas cirúrgicas, o dermatologista Sandro Gularte Duarte dedica sua prática a lembrar ao mundo que a pele é muito mais do que aparência — ela é espelho de doenças internas, de equilíbrios e desequilíbrios que atravessam o corpo inteiro. Num tempo em que procedimentos estéticos proliferam sem a devida supervisão médica, Duarte posiciona a dermatologia como especialidade de profundidade clínica e responsabilidade humana. O avanço da inteligência artificial e de novas medicações abre horizontes promissores, mas é na relação entre médico e paciente — na pele que se limpa, no olhar que se reconhece no espelho — que ele encontra o verdadeiro sentido da profissão.
- Procedimentos estéticos realizados por profissionais sem formação adequada chegam como complicações ao consultório de Duarte com frequência alarmante, expondo pacientes a danos físicos e emocionais evitáveis.
- A confusão entre dermatologia e estética superficial desvaloriza uma especialidade que diagnostica doenças sistêmicas e exige anos de formação especializada.
- Novas medicações estão transformando o tratamento de condições antes de difícil controle, como psoríase, dermatite atópica e vitiligo, abrindo uma nova era terapêutica.
- A inteligência artificial surge como aliada natural numa especialidade que trabalha intensamente com imagens, prometendo ampliar o alcance e a precisão dos diagnósticos.
- Para Duarte, o verdadeiro impacto da dermatologia se mede não em procedimentos realizados, mas em vidas reconfiguradas — a autoestima restaurada, a dignidade devolvida, a pessoa que volta a se reconhecer no espelho.
Sandro Gularte Duarte divide seu tempo entre a Clínica Revitallis, o Ambulatório de Dermatologia da Univates e o HBB, onde realiza cirurgias dermatológicas. Formado também em Medicina de Família, ele construiu uma visão integral da saúde da pele que vai muito além do que o senso comum imagina.
A escolha pela dermatologia aconteceu no último ano da faculdade, durante um estágio no Hospital Conceição ao lado do Dr. Joel Schwarz. A especialidade o atraiu pela amplitude — atende todas as faixas etárias, permite pequenos procedimentos cirúrgicos e combina bem com uma memória fotográfica que ele descobriu ter e que facilita os diagnósticos.
O maior desafio que Duarte identifica hoje está na área estética: profissionais sem preparo adequado realizam procedimentos e, quando surgem complicações, não têm condições de tratá-las. Ele recebe regularmente esses pacientes prejudicados e insiste que reconhecer os próprios limites é parte essencial do exercício ético da medicina.
Para ele, a dermatologia é uma especialidade exigente e profunda. A pele funciona como espelho de doenças internas e desequilíbrios sistêmicos — não é, como diz com ironia, uma questão de "pomadinhas". Ele vê na inteligência artificial um potencial enorme, dado o caráter visual da especialidade, e celebra o surgimento de medicações que revolucionam o tratamento de psoríase, dermatite atópica e vitiligo.
Duas histórias resumem o que move Duarte. Um jovem chegou ao consultório escondendo o rosto atrás de uma franja por causa da acne. Após seis meses de tratamento, a pele limpou — e com ela, o comportamento: ele cortou o cabelo, passou a tratar melhor a mãe viúva que o acompanhava nas consultas e arrumou uma namorada. Duarte percebeu que havia feito mais do que tratar uma doença de pele. Anos depois, uma paciente de um bairro onde ele trabalhou no início da carreira voltou para chamá-lo de "nosso doutor". São essas histórias que definem, para ele, o verdadeiro alcance da dermatologia: não estética, mas saúde, dignidade e a possibilidade de uma pessoa se reconhecer novamente no espelho.
Sandro Gularte Duarte trabalha como dermatologista na Clínica Revitallis, ensina novos médicos no Ambulatório de Dermatologia da Univates e realiza cirurgias dermatológicas no HBB. Sua formação abrange tanto Medicina de Família quanto Dermatologia, e ele dedica-se ao que chama de cuidado integral da saúde da pele — uma frase que, para ele, carrega peso específico. Porque a dermatologia, insiste em dizer, vai muito além daquilo que a maioria das pessoas imagina.
A escolha pela especialidade veio no último ano da faculdade, durante um estágio no Hospital Conceição. Duarte acompanhava o ambulatório com o Dr. Joel Schwarz, apresentado a ele por um colega de turma chamado André Beber — que, curiosamente, também prestaria prova para dermatologia e se tornaria depois um grande amigo, apesar da concorrência inicial. Duarte sempre preferiu trabalhar em consultório a em hospitais, e a dermatologia o atraía pela amplitude: crianças, adolescentes, adultos, idosos, além da possibilidade de realizar pequenos procedimentos cirúrgicos. Ele descobriu também uma aptidão pessoal que facilitava o trabalho — uma memória fotográfica que o ajudava nos diagnósticos.
Mas hoje, quando perguntado sobre os maiores desafios da profissão, Duarte não hesita. O problema mais grave, diz, está na área estética. Existe um contingente significativo de pessoas que realizam procedimentos sem formação adequada, sem experiência, sem preparo para lidar com as complicações que inevitavelmente surgem. Duarte recebe regularmente em seu consultório pacientes que sofreram danos causados por esses profissionais despreparados. Ele reconhece que ninguém está livre de erros — mas insiste que é fundamental compreender as próprias limitações e fazer apenas aquilo para o qual se está verdadeiramente capacitado e bem treinado.
Quando fala sobre a evolução da área, Duarte enfatiza algo que muitos não entendem: a dermatologia é uma especialidade profunda e exigente. A pele não é apenas um órgão de beleza. Ela é um espelho de doenças internas, de problemas sistêmicos, de desequilíbrios que vão muito além da superfície. Isso exige conhecimento aprofundado — não é, como ele diz com certa ironia, uma questão de "pomadinhas". Ele vê potencial significativo na inteligência artificial, especialmente porque a dermatologia trabalha intensamente com imagens, com possibilidade de envio de fotos e arquivos via computador ou celular. Mas também aponta para o surgimento de medicações novas que transformam o tratamento de condições que antes eram difíceis de manejar: psoríase, dermatite atópica, vitiligo. E identifica um campo de trabalho aberto para quem quiser se especializar em complicações de procedimentos estéticos e novas tecnologias.
Duarte lembra de um paciente que marcou sua trajetória. Era um homem jovem que chegou ao consultório com cabelo comprido e uma franja que cobria quase todo o rosto — a acne, aliás, é a principal razão pela qual as pessoas procuram dermatologistas. O tratamento durou cerca de seis meses. A pele limpou completamente. Mas o que Duarte notou foi algo além da dermatologia: no início, o paciente era mal-humorado e desrespeitoso com a mãe, que o acompanhava nas consultas. Conforme a pele melhorava, ele cortou o cabelo, começou a tratar melhor a mãe — uma mulher viúva, querida, preocupada. Depois arrumou uma namorada. Duarte percebeu ali que tinha feito mais do que tratar acne. Tinha feito uma diferença na vida daquela família.
Outra história que o marca é simples, mas significativa. Uma mulher do Bairro Conservas, onde ele trabalhou no ano 2000 e 2001, procurou-o novamente anos depois, muito feliz, chamando-o de "nosso doutor". Essas histórias — a acne que muda uma vida, a paciente que volta anos depois para dizer obrigada — são o que Duarte vê como o verdadeiro alcance da dermatologia. Não é estética. É saúde. É dignidade. É a possibilidade de uma pessoa olhar para o espelho e se reconhecer de novo.
Citações Notáveis
A dermatologia é uma área bastante difícil para quem conhece bem e sabe que a pele pode ser um órgão de manifestações de doenças internas— Sandro Gularte Duarte
Existe muita gente que não tem a devida formação e experiência e sai por aí fazendo procedimentos sem estar preparado para tratar as complicações deles— Sandro Gularte Duarte
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você insiste tanto que dermatologia não é só estética? Parece que a maioria das pessoas pensa exatamente o oposto.
Porque a pele fala. Ela revela doenças internas, problemas sistêmicos que ninguém vê. Se você só trata o que aparece, perde a história inteira. É como ler só a primeira página de um livro.
E quando você vê um paciente com acne severa, como aquele rapaz que você mencionou — você já sabe que vai impactar mais do que a pele?
Não sempre. Mas naquele caso, sim. Você vê a transformação. Ele se escondia atrás do cabelo, era agressivo. Quando a pele melhorou, ele se abriu para o mundo. A acne não era só um problema dermatológico.
Você falou sobre profissionais sem formação fazendo procedimentos estéticos. Isso é um problema ético ou um problema de saúde pública?
Os dois. Quando alguém sem preparo faz um procedimento e causa uma complicação, aquele paciente sofre. Vem para meu consultório com dano já feito. Eu tenho que consertar o que outro não sabia fazer.
A inteligência artificial vai resolver isso? Vai garantir que só gente preparada faça procedimentos?
Não. IA ajuda no diagnóstico, nas imagens, na precisão. Mas não substitui responsabilidade. O desafio é ético, não tecnológico. É sobre quem decide fazer algo para o qual não está preparado.
E aquela mulher que voltou anos depois, do Bairro Conservas? O que ela vinha tratar?
Não importa tanto o que era. Importa que ela se lembrou de mim como alguém que cuidou dela. Isso é dermatologia de verdade.