Novo livro revela ambição sem limites de Bezos e expansão do poder da Amazon

Mulher de 84 anos morta atropelada por van de entrega; funcionários em armazéns caminham mais de 20 km diários em condições excruciantes; relatos de trabalho perigoso durante pandemia.
Lealdade e capacidade de entregar importam mais que credenciais técnicas
Como Bezos escolhe executivos para liderar projetos mesmo sem experiência prévia na área.

Bezos transformou Amazon em gigante de US$ 1 trilhão através de gestão radical, contratando executivos sem experiência prévia e investindo centenas de milhões em projetos ambiciosos. Livro expõe sucessos (AWS, Echo) e fracassos (Fire Phone), além de episódios polêmicos como possível espionagem saudita e condições de trabalho excruciantes nos armazéns.

  • Amazon ultrapassou US$ 1 trilhão em valor de mercado
  • Echo consumiu centenas de milhões de dólares ao longo de três anos
  • Funcionários em armazéns caminham mais de 20 quilômetros diários
  • 185 centros de distribuição espalhados pelo mundo (110 nos EUA)
  • Andy Jassy assume CEO em 5 de julho de 2021

Livro 'Amazon Sem Limites' documenta a expansão do poder de Jeff Bezos e da Amazon, revelando bastidores, inovações como Alexa e impacto social da empresa.

Um novo livro sobre Jeff Bezos e sua Amazon chega ao Brasil em junho trazendo histórias que vão muito além dos bastidores corporativos. "Amazon Sem Limites", escrito pelo jornalista Brad Stone, é a continuação de uma obra anterior de 2013 e documenta como o fundador transformou uma livraria online em um império que ultrapassou a marca de um trilhão de dólares em valor de mercado. No caminho, Bezos se tornou o homem mais rico do mundo — mesmo após um divórcio de alto perfil com MacKenzie Scott, sua esposa de 25 anos.

O retrato que emerge é o de um empreendedor movido por uma ambição praticamente sem freios. Bezos escolhe executivos para liderar projetos mesmo quando eles não possuem experiência prévia na área. Lealdade e capacidade de entregar resultados importam mais do que credenciais técnicas. O livro ilustra isso através da história do Echo, o dispositivo de som ativado por voz que abriga a assistente Alexa. Em 2011, Bezos desenhou um rascunho simples mostrando o que queria: uma caixinha capaz de entender comandos de voz com um botão para desligar o microfone. Nada mais. Greg Hart, veterano escolhido para dirigir o projeto, confessou a Bezos que não tinha experiência com hardware e havia liderado apenas equipes pequenas. A resposta foi direta: "Vai dar tudo certo". O projeto consumiu centenas de milhões de dólares ao longo de três anos. Desenvolvedores alugaram apartamentos onde pessoas eram pagas para passar horas lendo frases do dia-a-dia, treinando o sistema de reconhecimento de voz. O Echo não se tornou o computador onisciente que Bezos, fã obsessivo de Jornada das Estrelas, havia imaginado. Mas foi pioneiro em sua categoria e permitiu à Amazon competir com Apple e Google em um mercado que ninguém havia previsto.

O livro também detalha sucessos espetaculares e fracassos memoráveis. A AWS, o serviço de computação em nuvem lançado em 2002, foi mantido em sigilo nos relatórios financeiros da Amazon durante décadas. A empresa o incluía em uma categoria genérica de "outros" para não alertar concorrentes como Microsoft e Google. Quando os números finalmente vieram a público em abril de 2015, as ações subiram quase 15% no dia, encerrando o mito de que a Amazon era apenas uma máquina de perder dinheiro. Em contraste, o Fire Phone, lançado alguns meses antes do Echo, é descrito como o maior fracasso dos 27 anos de história da companhia. Após três anos de desenvolvimento, o aparelho com display tridimensional — outra ideia de Bezos — foi recebido com desdém. Apple e Samsung ofereciam produtos muito mais alinhados com o que os consumidores realmente queriam.

Bezos também se tornou figura de celebridade, uma transformação documentada no livro com detalhes que vão do glamour ao escândalo. Ele começou a promover festas estreladas durante a temporada de premiações de Hollywood, empolgado com a ideia de criar conteúdo original para o Prime Video. Mas celebridades não conseguem controlar narrativas, nem mesmo aquelas com uma fortuna de 186 bilhões de dólares. Em fevereiro de 2019, o tabloide National Enquirer publicou fotos exclusivas de Bezos com a ex-apresentadora Lauren Sanchez. O irmão de Sanchez vendeu a história à publicação. O mesmo tabloide havia comprado o silêncio de mulheres envolvidas com Donald Trump em 2016 — Trump é inimigo declarado de Bezos por causa da cobertura negativa que recebe do Washington Post, jornal comprado pelo fundador da Amazon em 2013. Há também alegações de que a família real saudita tentou hackear o celular de Bezos em retaliação pela cobertura do assassinato do colunista Jamal Khashoggi. A invasão, supostamente feita através de um vídeo enviado por WhatsApp, nunca foi confirmada. O episódio consumiu a mídia americana durante dias e marca um ponto de virada: Bezos saindo do casulo como um homem bem-vestido, com físico de personal trainer, riqueza exorbitante e fama que causava admiração reverente até mesmo nos altos escalões da elite.

Mas sob a narrativa de sucesso e inovação, o livro expõe uma realidade mais sombria. Bezos é um opositor ferrenho dos sindicatos e da organização dos trabalhadores. A história da Amazon está repleta de episódios em que a companhia optou por ignorar custos e responsabilidades legais. Na chamada "última milha" das entregas, empresas terceirizadas operam sob pressão enorme para cumprir metas agressivas. O livro relata o caso de uma mulher de 84 anos morta após ser atropelada por uma van que fazia entregas para a Amazon. Nos armazéns da companhia, apesar de aumentos salariais anunciados, as condições de trabalho permanecem excruciantes. Funcionários caminham mais de 20 quilômetros diários montando pedidos em um dos 185 centros de distribuição espalhados pelo mundo — 110 apenas nos Estados Unidos.

Quando a pandemia de Covid-19 chegou, a Amazon foi uma das primeiras empresas a entender o impacto em seus negócios. Ainda em fevereiro de 2020, um mês antes da OMS classificar a doença como pandemia, a empresa havia contratado um epidemiologista da Universidade Columbia. Mesmo com medidas de segurança implementadas rapidamente, a explosão do comércio eletrônico aumentou ainda mais a pressão sobre os armazéns, trazendo relatos de condições de trabalho perigosas. Em julho deste ano, Andy Jassy, responsável pelo sucesso da AWS, assumirá o cargo de CEO, enquanto Bezos mantém a presidência do conselho. Ele terá tempo para dedicar-se ao fundo Bezos Earth, ao Washington Post e à Blue Origin, sua companhia de exploração espacial. Seu legado de sucesso nos negócios parece garantido pelos números. Mas outra métrica — ainda difusa, mas ganhando foco especialmente por causa da pandemia — é o impacto da Amazon na sociedade. Com a expansão para novos setores e regiões, os olhares de admiradores e críticos estarão cada vez mais voltados para o que emana de Seattle. A história de Bezos à frente da Amazon pode estar chegando ao fim, mas a da empresa ainda tem muitos capítulos a serem escritos.

Jeff, não tenho experiência nenhuma com hardware, e a maior equipe de software que liderei tinha só umas 40 pessoas
— Greg Hart, executivo designado para dirigir o projeto do Echo
Vai dar tudo certo
— Jeff Bezos, respondendo a Greg Hart
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um livro sobre Bezos e Amazon importa agora, justamente quando ele está deixando o cargo de CEO?

Model

Porque a saída dele marca um ponto de inflexão. Durante 27 anos, a Amazon foi praticamente uma extensão da personalidade dele — sua obsessão, sua tolerância com risco, sua recusa em aceitar estruturas tradicionais. Agora que ele sai, a empresa enfrenta questões que não pode mais ignorar: o impacto nos trabalhadores, nos pequenos negócios, no planeta.

Inventor

O livro fala muito sobre inovação — Echo, AWS — mas também sobre fracassos. Por que os fracassos importam?

Model

Porque mostram como Bezos pensa. Ele investe centenas de milhões em ideias que ninguém mais tentaria. O Fire Phone foi um desastre, mas o Echo foi revolucionário. A diferença não estava em análise de mercado sofisticada — estava em pura obstinação e disposição de gastar dinheiro até acertar.

Inventor

Há uma passagem sobre Bezos perguntando se as pessoas realmente usam agenda no celular. Isso parece trivial.

Model

Não é. Mostra um homem que, apesar de toda a riqueza e poder, ainda estava aprendendo como as pessoas vivem. Ele estava tão isolado que precisava perguntar coisas óbvias. Isso é revelador sobre como alguém constrói um império — e sobre o que ele pode não entender sobre o mundo fora dele.

Inventor

O livro dedica espaço significativo às condições de trabalho. Isso é crítica ou apenas documentação?

Model

É documentação. Stone relata os fatos: mulher de 84 anos morta atropelada, funcionários caminhando 20 quilômetros diários, pressão brutal em terceirizadas. Ele deixa os fatos falarem. A crítica fica implícita — e é mais poderosa assim.

Inventor

E quanto ao episódio do National Enquirer? Por que isso merecia tanto espaço?

Model

Porque marca quando Bezos deixou de ser apenas um magnata de negócios e se tornou uma figura pública vulnerável. Ele não conseguiu controlar a narrativa. Isso é importante porque mostra que mesmo com 186 bilhões de dólares, há coisas que dinheiro não compra — privacidade, controle total sobre como você é visto.

Inventor

O que você acha que vem a seguir para a Amazon?

Model

Isso é o grande ponto de interrogação. Sem Bezos no comando, a empresa terá de responder a pressões que ele conseguiu ignorar ou contornar. Sindicatos, reguladores, críticos — todos estão observando. A história da Amazon ainda tem muitos capítulos, mas provavelmente serão diferentes daqueles que Bezos escreveu.

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