Livre, livre, livre — e depois, nada disso
Cem anos após a morte de Lima Barreto, o Brasil contempla o abismo entre o país que ele sonhou e o que ainda existe. Nascido livre mas aprisionado pelo racismo estrutural, o escritor carioca transformou a exclusão em literatura e em legado — um imperativo moral que atravessa gerações. A eleição de Lula em 2022 renova a promessa de um país uno e igualitário, mas o centenário do escritor nos lembra que promessas, sem compromisso real com a população negra, são apenas ecos do mesmo silêncio histórico.
- Lima Barreto foi expulso da Escola Politécnica pelo racismo — e a instituição só pediu desculpas 95 anos depois, em 2017.
- Cada vez que seus sonhos eram bloqueados, a sociedade o acusava de ressentimento ou fragilidade, recusando-se a reconhecer as barreiras estruturais que ele enfrentava.
- Através de personagens como Isaias Caminha e Clara dos Anjos, Barreto forçou o Brasil a se olhar num espelho que o país preferia evitar.
- No bicentenário da independência, o Brasil elegeu Lula com o discurso de um país unido — mas carrega os mesmos desafios raciais que atormentaram Barreto um século atrás.
- O legado do escritor exige que pessoas negras deixem de ser 'figurinhas douradas' em espaços pensados como brancos e passem a ocupar o centro da democracia brasileira.
Lima Barreto nasceu em 1881 no Rio de Janeiro, filho de pais negros e livres, e morreu em 1922 aos 41 anos. Cresceu ouvindo falar do fim da escravidão como uma promessa de liberdade irrestrita — mas o Brasil que o aguardava era outro. Ao tentar cursar Engenharia na Escola Politécnica, foi barrado pelo preconceito de cor. A instituição só reconheceria publicamente esse crime em 2017.
Em vez de silenciar, Barreto transformou cada obstáculo em literatura. Seus personagens — Isaias Caminha, Clara dos Anjos, o menino Zeca — obrigavam o país a confrontar as desigualdades de raça, gênero e classe que estruturavam sua sociedade. Quando fracassava, a explicação oferecida pela sociedade era sempre a mesma: ressentimento, fragilidade, patologia. Nunca o racismo.
Cem anos depois, o Brasil chegou ao bicentenário da independência elegendo Lula, que prometeu um país único e indivisível — exatamente o sonho de Barreto. Mas o centenário do escritor não é ocasião de celebração: é um chamado. Seu legado exige que o combate ao racismo e à discriminação seja uma marca concreta do nosso tempo, e não apenas retórica. Pessoas negras não podem continuar sendo exceções decorativas num projeto de nação que ainda pensa a si mesmo como branco. Lima Barreto, presente. A luta continua.
Cem anos se passaram desde que Lima Barreto morreu, em 1º de novembro de 1922, aos 41 anos. Sua vida transcorreu quase inteiramente no Rio de Janeiro, entre 1881 e 1922, atravessando os últimos suspiros da escravidão brasileira e os primeiros anos da República. Ele não foi escravizado — seu pai, João Henriques de Lima Barreto, era um homem negro nascido livre que trabalhou como tipógrafo e funcionário público; sua mãe, Amália Augusta, também negra e nascida livre, era professora de primeiras letras. Mas essa liberdade de nascimento não o protegeu do que viria. Quando criança, Lima Barreto ouviu falar do fim da escravidão com uma clareza que o marcaria para sempre. Sua professora, dona Teresa Pimentel do Amaral, explicou o significado daquele momento, e na mente infantil do menino ficou uma imagem luminosa: livre, livre, livre. Ele imaginava que dali em diante nada mais limitaria os propósitos da fantasia humana.
Mas o Brasil que o aguardava não era aquele. No final dos anos 1890, Lima Barreto ingressou na Escola Politécnica para estudar Engenharia. Não completou o curso. O motivo era simples e brutal: preconceito de cor. Apenas em 2017, a instituição — que hoje integra a Universidade Federal do Rio de Janeiro — pediu desculpas públicas pelo racismo que havia expulsado aquele jovem estudante de seus bancos. Nas duas décadas que se seguiram, episódios semelhantes se acumularam em sua trajetória. Quando não conseguia realizar seus sonhos, a sociedade não procurava entender as barreiras que enfrentava. Em vez disso, acusava-o de ressentimento injustificado, fragilidade emocional, patologia social congênita. Tudo para explicar por que seus sonhos eram um contrassenso. Afinal, diziam, "problema de raça" era assunto de estrangeiro, não do Brasil.
Mas Lima Barreto não recuou. Transformou cada obstáculo em matéria para sua escrita. Criou personagens que forçavam o país a se ver num espelho incômodo: Isaias Caminha, Clara dos Anjos, o menino Zeca. Através deles, o Brasil não podia mais ignorar as questões de raça, gênero, idade e classe que estruturavam sua desigualdade. Como escritor e cidadão, Lima Barreto encarou um imperativo que muitos negligenciam até hoje: tratar dos destinos do Brasil com seriedade significa, necessariamente, garantir vida digna para a população negra. Ele não recuou em seu tempo, e por isso se apresenta a nós agora como um bem-lembrado — palavra de origem bantu que significa ancestral, aquele que deixa um legado capaz de fortalecer a comunidade.
Em 2022, cem anos depois de sua morte, o Brasil elegeu Luiz Inácio Lula da Silva presidente pela terceira vez. No discurso de vitória, Lula disse: "Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação". É exatamente o Brasil que Lima Barreto sonhou desde criança. Mas ainda não é. O país chegou ao seu bicentenário de independência carregando consigo os mesmos desafios que atormentaram aquele escritor negro um século atrás. O legado de Lima Barreto não é uma celebração do passado. É um imperativo para o presente. Ele nos obriga a fazer com que "enfrentar sem tréguas o racismo, o preconceito e a discriminação, para que brancos, negros e indígenas tenham os mesmos direitos e oportunidades" seja mais que palavras ao vento. Seja, de fato, uma marca do nosso tempo.
Pessoas negras não podem mais aparecer nas análises críticas apenas como corpos a colorir espaços políticos pensados como brancos. Não podem ser figurinhas douradas, excepcionais, num álbum organizado segundo critérios que sempre privilegiaram o protagonismo de sujeitos brancos. Lima Barreto, presente. A luta continua.
Citas Notables
Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação— Luiz Inácio Lula da Silva, discurso de vitória em 2022
Tratar dos destinos do Brasil com seriedade passa necessariamente por garantir as possibilidades de vida digna para a população negra— Imperativo que Lima Barreto encarou na Primeira República
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Lima Barreto importa agora, em 2022, e não apenas como figura histórica?
Porque os obstáculos que ele enfrentou — o racismo que o expulsou da Politécnica, a negação de oportunidades, a acusação de que seus problemas eram pessoais e não estruturais — continuam operando. Ele não é passado. É espelho.
Mas o Brasil mudou desde então. Temos políticas de ação afirmativa, temos leis contra discriminação.
Temos, sim. Mas Lima Barreto nos força a perguntar: essas políticas são suficientes? Elas garantem vida digna? Ou apenas criam a ilusão de que o problema foi resolvido?
Você mencionou que ele transformou seus sofrimentos em literatura. Como isso funciona como resistência?
Quando você escreve sobre a exclusão que vive, você a torna visível. Você força o país a se ver. Os personagens de Lima Barreto — Isaias Caminha, Clara dos Anjos — não deixam que ninguém ignore a desigualdade. Eles a colocam no centro.
E qual é a conexão entre Lima Barreto e o governo Lula que acaba de começar?
Lula disse que não há dois Brasis. Mas Lima Barreto viveu em dois Brasis — o que prometia liberdade e o que negava oportunidades. O desafio agora é fazer com que essa promessa de unidade seja real, não apenas palavras.
O que significa ser um "bem-lembrado"?
Significa ser um ancestral cujo legado fortalece a comunidade. Lima Barreto não deixou apenas livros. Deixou uma exigência: que o Brasil se confronte com suas próprias contradições.